SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 08:15

Propaganda Vexatória nas Eleições de 1958 (1)

Se quisermos referenciar um dos momentos mais importantes que preparam a emergência da democracia em Portugal temos que aludir, obrigatoriamente, às eleições presidenciais acontecidas em 1958. Onde, pela primeira vez, um candidato teve a corajosa iniciativa de desafiar o regime totalitário vigente. Conseguindo, desta forma, arrancar o povo da sua profunda letargia. Fruto de várias décadas de opressão e obscurantismo.

Ao ilustre torrejano Humberto Delgado (1906-1965) coube o papel de ser o rosto principal da oposição nas eleições de 58. Numa campanha em que a máquina de propaganda fascista recorreu a todos os meios e embustes para o denegrir e vexar. Tentando manchar a bem sucedida carreira e o impoluto carácter do, então, mais jovem general português.

O próprio Humberto Delgado estava ciente das enormes dificuldades e barreiras intransponíveis que teria de enfrentar. Tanto no período pré- eleitoral como na sua acidentada caminhada até às urnas. (DELGADO, Humberto; “ Memórias”, Edições Delfos, 1974, págs. 155-169).

Precavendo-se do perigo de uma vitória do general, a máquina de propaganda fascista preparava-se nas eleições para desferir um ataque soez ao carácter do ilustre torrejano. Empresa facilitada pelo conluio da maior parte dos órgãos de informação. Que não se coibiram de transmitir aleivosias e falsos testemunhos aos seu leitores e ouvintes, a propósito de Humberto Delgado.

A campanha de difamação estendeu-se até aos simples panfletos e folhetos que foram distribuídos durante as eleições. Confundindo-se alguns, à primeira vista, com os que eram provenientes da sede da candidatura do general. Caso do postal em que Humberto Delgado surge como “Candidato Nacional à Presidência da República”. Os dois postais são idênticos no rosto. Mas na parte detrás há enormes diferenças: o da candidatura do ilustre torrejano tem um texto da sua autoria em que acentua a necessidade do povo português recuperar legitimamente a sua liberdade e cidadania. O outro apresenta um texto – supostamente da lavra de Humberto Delgado- em tons insidiosos, fazendo passar a ideia do general como alguém sem controlo que “deixaria a Nação entregue à devastação terrível do comunismo”.

Os estratagemas da propaganda fascista chegaram ao ponto de ridicularizar num folheto as manifestações de apoio à candidatura do general, ocorridas em vários pontos do país. Considerando a sua digressão como um enorme fracasso. Já que, segundo as vozes do regime, o número de apoiantes de Humberto Delgado reduzir-se-ia a uma escassa dezena de adeptos.

O folheto em causa intitula-se “As Aventuras do «Homem sem Medo» – Grande fita em episódios”. Servindo-se de uma escrita vexatória o autor ridiculariza as digressões de Humberto Delgado pelas localidades de Vila Real, Mirandela e Aveiro. Apresentando-o como o principal actor da comédia eleitoral montada pelos seus principais colaboradores.

O folheto, desde a sua primeira linha até ao final, está cheio de invectivas à pessoa e à campanha eleitoral do ilustre torrejano. Como exemplos deste tipo de linguagem vexatória, podemos citar os comentários do autor do texto à primeira e a terceira fotografias do folheto, tiradas na localidade de Vila Real, que passamos a transcrever:

“ 1- Três atitudes típicas do «Homem sem Medo», émulo do Zorro, do Tom Mix e do Barrabás. Ele aí está, de pé, em cima das traseiras dum grande espada, rodeado pelos seus «fans» que logo à primeira vista se identificam com o escol da juventude cinéfila. A linda gravata foi comprada em Nova Iorque, assim como o fino lenço de cambraia com a inicial H bordada em tom escuro, moda que ele anda a lançar na Província (…).

3- O «Homem sem Medo» abre os braços, triunfante, parecendo exclamar: – Deixai vir a mim todos os cidadãos de todas as idades, que eu cá, como estou demonstrando a Vila Real, sou um tipo bestial! Como vêem, não tenho medo de subir para as traseiras de um automóvel, nem de me expor à sofreguidão dos meus admiradores. Isso de reclamar a polícia para que os meus «fans» me não arranquem os botões do paletó, me não palmem o lenço ou cortem a gravata, é bom para a Lollobrigida, para a [Sophia] Loren e para a B. B. [Brigite Bardot]. Eu cá não tenho medo de nada. Nem mesmo do ridículo!…” (“As Aventuras…”, pág. 2).

(Continua)

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados