SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 19:12

Carta inédita de um Herói da Grande Guerra

O nome de Hernâni Cidade (1887-1975) não é estranho à história cultural torrejana. O distinto historiador da cultura e da Língua Portuguesa marcou presença, numa das sessões, da interessante iniciativa levada a cabo pelo ilustre torrejano, Dr. Augusto Moita de Deus, com o título “Uma Hora Útil”. Um espaço educativo de elevado nível cultural e artístico, onde, semanalmente, um grupo de distintos conferencistas versaram sobre temas de interesse diverso.

A palestra, do então professor da Faculdade de Letras do Porto, aconteceu já na 2ª época da bem-sucedida iniciativa, a 17 de Abril de 1929. O assunto abordado pelo ilustre ensaísta de Redondo (Évora) foi “ O Povo na Literatura Portuguesa”. Nessa mesma sessão o poeta torrejano José Lopes dos Santos fez uma pequena leitura, a propósito de “Fialho de Almeida e Antero de Quental”.

Escusado será dizer que aos eventos acudiu uma enorme franja da população torrejana, ansiando por escutar as prelecções de alguns dos grandes vultos da cultura torrejana e nacional. Sendo, na parte final, brindados pelas maravilhosas actuações do Grupo Musical Torrejano. “Com manifesto agrado da sempre numerosa assistência!” (GONÇALVES, Artur; “Mosaico Torrejano”; Torres Novas, 1936, pág. 45).

Além da faceta de eminente ensaísta e especialista camoniano, Hernâni Cidade distinguiu-se também como um dos portugueses heróis na Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Em meados de Abril de 1917, o ilustre combatente da vila de Redondo embarca de Lisboa para França, integrado na 4ª Companhia, do Regimento de Infantaria nº 35. A maldita guerra chamava os soldados lusos para combater em terras distantes. É lá, que se confronta por diversas vezes com o inelutável olhar da morte. Força destruidora que veio a ser tema de reflexão numa carta dirigida por Hernâni Cidade à sua principal confidente, D. Ester Tavares Teixeira.

O herói de Redondo viu no infindável turbilhão de pedaços de matéria dilacerada e ensanguentada dos seus companheiros e inimigos a inexorável presença da morte. Capaz de lançar no abismo do nada o que outrora foram corpos palpitantes de sonhos de amor e de radiosa vida. O próprio conflito deixaria marcas na carne e na alma de Hernâni Cidade.

Ao longo dos duros combates a presença da morte foi-lhe bastante familiar. Mas teve a sorte de conseguir escapar ao seu abraço letal. A um desses felizes momentos se refere a carta enviada no dia 22 de Agosto de 1917:

“ Queridíssima

Breve te escreverei com mais demora. Vindo da 1ª linha onde fiquei apenas por minutos magoado num bombardeamento. Cá estou outra vez gozando uns dias de descanso.

Até breve. Sempre, o teu Hernâni Cidade.”

Para o ensaísta da vila de Redondo a guerra afigurava-se como uma visão dantesca de uma humanidade enlouquecida. Onde a morte assumia o papel de grande redentora.

A familiaridade com a implacável morte, que devastava gerações de indivíduos, levaria Hernâni Cidade a assinar um dos mais pungentes textos, escritos em pleno teatro bélico. Registemos neste artigo a inédita confissão:

“ França, 6-[06-1917]

Meu amor

Por cá continuo na vizinhança dela. A morte, digo-te eu, não é tão má como a pintam. Não raro a gente a vê face-a-face e é bem verdade que tem um jeito de grande Pacificadora. Afinal, creio-o bem, Ela é a única pacifista do Universo. Enquanto ela não realizar completamente o seu magnífico plano, bem pode a ménagerie que habita o globo pregar hipócritas loas.

Tu sabes que te amo muito. Mas em verdade te digo estou mal comigo por te preferir a Ela.

Nas tuas orações, minha Santinha, não levantes a Deus o desejo egoísta da minha vida. Pede-Lhe antes que me dê nesta vida como ambição suprema o abraçar dignamente a outra, o entrar nela pela porta engalanada dos que triunfam de si mesmos e sobretudo me dê a fé luminosa, a lindíssima fé de poder lá encontrar-te um dia, senão com o coração ainda meu, ao menos com a saudade de mim ainda fresca. Como uma rara flor muito cuidada.

Adeus. Ah! Se tu soubesses como te beija e abraça o teu

Hernâni Cidade!”.

A prece do ensaísta de Redondo não se concretizaria em plena guerra. Apesar de ter passado por situações de enorme risco – como os actos de bravura praticados em 12 de Julho e a 14 de Agosto de 1917, ou o seu cativeiro no trágico 9 de Abril de 1918. A morte sobreveio, muitos anos depois, num frio dia do mês de Janeiro de 1975.

Guardemos a esperança que possa ter encontrado, num outro lugar, aquela a quem amou como se fosse a única e delicada flor da sua vida.

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