SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 22 Junho 2021, 09:25

Um Ilustre Jesuíta Torrejano na Serra da Leoa (2)

Numa outra Carta ânua datada de 17 de Julho de 1611, o Padre Baltasar Barreira prossegue com a descrição dos feitos do nosso ilustre conterrâneo na região da Serra da Leoa. Reveladores das maravilhosas acções que ia obrando entre os nativos locais (Monumenta Missionária Africana – África Ocidental (1600-1642), Segunda Série, Vol. IV, Agência-Geral Ultramar, Lisboa, MCMLXVIII, págs. 438-469).

A enorme fé patenteada pelo P. Manuel Álvares não deixou indiferente os que tiveram o privilégio de escutarem as suas homilias e sacramentos. Como sucedeu aquando os ofícios divinos da Semana Santa. Nessa cerimónia religiosa as palavras do missionário torrejano causaram um forte impacto entre os gentios. Manifestado através do ininterrupto jorrar de lágrimas e choro por parte da multidão presente (op. cit. pág. 517-519).

Os casos ocorridos, reveladores das excelsas virtudes que irmanavam o nosso torrejano ilustre, multiplicam-se nas diversas cartas endereçadas para o reino de Portugal pelos seus companheiros jesuítas da missão africana.

Outros exemplos, a propósito do enorme carácter do P. Manuel Álvares, são descritos nas páginas do seu livro inédito “ Etiópia Menor”. Como na Carta ânua, inserida na citada obra, relativa à sua actividade na Serra da Leoa, entre os anos de 1611 e 1612. Onde descreve o seu encontro com um membro da religião de Mafoma, que o tenta corromper através de uma enorme quantia de ouro, como pagamento pela cortesia e respeito com que foi acolhido pelo nosso ilustre conterrâneo. O P. Manuel Álvares dissuade o profeta muçulmano a arrecadar a generosa oferta, pois “ o ouro que vinha buscar a estas terras peregrinas era a sua alma para Cristo e a de tantos infiéis, [se a oferecesse], de boa vontade a [aceitaria]; quanto ao ouro, [Manuel Álvares] tinha-o deixado, e todo o mundo por Amor de Deus; que aceitar o seu [ouro] era quebrar a palavra do Criador” (Nuno da Silva Gonçalves; “Os Jesuítas e a Missão de Cabo Verde (1604-1642), Brotéria, Lisboa, 1996, pág. 329).

À medida que os anos decorriam, os trabalhos na conversão e ensino dos nativos da Serra da Leoa, deixavam marcas na saúde do ilustre missionário torrejano. Isolado dos seus, sujeito a diversas contrariedades, a exaustão e a doença iam-se apoderando das suas forças. Nos últimos anos da sua vida, as cartas sobre os progressos da sua acção evangelizadora escasseavam.

Já em Outubro de 1613, o Padre Sebastião Gomes referia ao seu superior as duras provas suportadas pelo ilustre torrejano: “ Ainda que não [faltasse] matéria para escrever «como é costume» carta ânua, de edificação, contudo não o fiz por esperar a carta da Serra da Leoa, do P. Manuel Álvares (…). Uma (…) tive do mesmo Padre de 11 de Abril de [1]613; e com elas darei princípio a esta, as quais tanto mais serão de estimar, quanto com maior trabalho do dito Padre são escritas, por causa das muitas enfermidades que padece, causadas de puro trabalho em que anda em contínua roda, e das muitas incomodidades que sofre, assim por falta do necessário, por seu ordinário comer não ser mais que arroz cozido com água, e quando muito com um pouco de azeite de palma tal, que a qualquer [nativo] dessa Província faria asco (…),como também por falta de casa em que more, por não ter outra, senão uma térrea, e palhoça, cujas paredes são de paus, e quando muito tapadas com uma pouca terra amassada a modo de barro, as quais incomodidades ele [Manuel Álvares] sofre com tanta paciência que não podem deixar de lhe causar muitas doenças, e não menos admiração a quem bem as notar (Monumenta Missionária Africana, Vol. IV, pág. 512).

Em condições misérrimas, este verdadeiro apóstolo de Cristo, dedicou-se na santa tarefa de atrair para Deus as almas singelas dos nativos, “andando sem a consolação de um companheiro nas lides do dificultoso apostolado por àquelas ásperas regiões, até que, exaurido do trabalho, caiu no campo de sua actividade em 1617 [há quatrocentos anos], tendo só 37 anos de idade” (RODRIGUES, Francisco; “História da Companhia de Jesus na Assistência a Portugal”, Tomo segundo, Vol. II, Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, 1939, pág. 596). Com a prematura morte do P. Manuel Álvares, chegava ao fim a missão dos Jesuítas na Serra da Leoa (Monumenta Missionária Africana, Vol. IV, pág. 664).

Se aos espíritos mais empedernidos não basta a acção heróica do missionário torrejano para o incluir na galeria dos grandes vultos da nossa terra, o seu livro inédito, “Etiópia Menor”, derroga qualquer tentativa de o menosprezar. Como salientámos na primeira parte, a obra de Manuel Álvares é de leitura incontornável para a compreensão dos povos indígenas da Costa Ocidental de África, no século XVII. Vários ensaios estrangeiros enaltecem a importância das suas descrições únicas sobre a cultura dos nativos da Serra da Leoa. Ao ponto de um distinto professor catedrático da Universidade de Liverpool dar-se ao trabalho de traduzir para inglês uma cópia manuscrita da obra do ilustre torrejano, colocando-a internamente aos dispor dos estudantes e especialistas da História Africana.

A obra “Etiópia Menor” de P. Manuel Álvares foi dedicada ao Reverendo irmão Cláudio Aquaviva, da Companhia de Jesus. O professor P. E. H. Hair organizou-a em duas partes: a primeira, dedicada à descrição da Província e do Reino do Pagão Jalofo [e de outros povos da costa NW da Serra da Leoa]. A segunda parte incide sobre os habitantes da Serra da Leoa, a sua cultura, os costumes, a língua, as tradições, etc.

Algumas das práticas dos povos indígenas têm por parte do ilustre torrejano um reparo negativo. Destacamos: o canibalismo, a superstição, o sacrifício dos servos após a morte do seu senhor, para continuarem a servi-lo na outra vida. Como aspectos positivos ressalva, entre outros, a inteligência dos nativos e a inexistência de furtos. Para os indígenas, roubar era um vício desprezível e sacrílego. As suas casas e as igrejas podiam estar escancaradas e, mesmo assim, ninguém se aventurava a roubar qualquer objecto. Costume (deixar aberta a porta ou algum objecto esquecido) que na nossa civilização não se recomenda a ninguém.

Na passagem dos quatrocentos anos da morte do P. Manuel Álvares, quisemos evocar, neste artigo, a sua memória e acção evangelizadora. Exemplo de dádiva ao outro. Muito comum entre os seus irmãos da tão injustamente vilipendiada Companhia de Jesus. Da qual fizeram parte outros grandes nomes das letras torrejanas.

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