SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 16:49

Três Escritoras Torrejanas através do seu Ex-Líbris (2)

Maria Lúcia Namorado (1909-2000) desenvolveu, no século anterior, um importante papel na luta pela emancipação feminina e melhoria dos cuidados de saúde, educação e bem-estar das crianças e jovens portugueses. As diversas publicações associadas ao nome da escritora torrejana e os livros por ela editados atestam, de forma inequívoca, o seu envolvimento em empreendimentos ligados ao aperfeiçoamento ético e educacional do indivíduo e da sociedade.

A revista “Os Nossos Filhos”, fundada por Maria Lúcia Namorado no ano de 1942,irá formar (até à altura da sua suspensão, em 1958) uma nova geração de pais. Mais consciencializada e instruída para os problemas que acarretam a educação e saúde dos seus filhos.

Também alguns dos livros escritos pela ilustre torrejana inserem-se nessa preocupação de modificar as mentalidades e os comportamentos vigentes. As obras “ Joaninha quere Casar” (1944) e “A Mulher Dona de Casa” (1943) procuraram fornecer conselhos úteis às raparigas e mulheres casadas da altura. Dispondo a autora, no primeiro livro, pareceres importantes para “a real valorização das raparigas – ensinando-as a descobrir as suas energias, e a confiar em si próprias; a aperfeiçoar as virtudes, e a combater os defeitos da sua condição feminina e humana; a encarar a vida com coragem e optimismo: e a conhecer melhor, para melhor amarem, a terra bendita que as viu nascer” (LÚCIA, Maria; “ Joaninha Quere Casar”, Editorial «Os Nossos Filhos», Ld.ª, Lisboa, 1944, pág. 8).

Nas duas partes que compõem o segundo livro, a pedagoga torrejana refere imensos preceitos úteis para a mulher dona de casa (tanto pobre como rica). Ensinando-a sobre assuntos relacionados com a mobília, conforto, higiene, economia, ordem, cozinha, quartos, roupas, compras, etc. Um verdadeiro compêndio “da arte do lar”, que tinha por objectivo ajudá-la “a ser a dona de casa perfeita, e ao mesmo tempo [dar-lhe] a consciência da dignidade dessa missão” (LÚCIA, Maria; “ A Mulher Dona de Casa”, Edições Universo, Lisboa, 1943, pág.10).

A escritora torrejana é também conhecida por ter sido uma mulher defensora de grandes causas. Foram diversas as suas intervenções no campo social e pedagógico. Especialmente ligados aos seres mais fragilizados da sociedade: as mulheres e as crianças.

Em Torres Novas, o nome de Maria Lúcia Namorado encontra-se associado à criação do Jardim-Escola João de Deus (1960). Empreendimento que vem confirmar a importância dada pela ilustre torrejana à educação infantil. O cuidado e atenção prestados às crianças e jovens constituíam-se como a chave do seu desenvolvimento integral. Suporte para a constituição de adultos responsáveis, autónomos e solidários.

É na obra “Negro e Côr de Rosa” (com uma dedicatória, aos pais e marido), que encontramos o ex-líbris da ilustre torrejana. A singular marca foi desenhada pelo ilustrador Fernando Carlos Pereira Bastos. Tem um pequeno rectângulo de onde sobressai a luz de uma candeia, com dois perfis que se assemelham a flores.

À primeira vista, a nossa atenção recai sobre a simples chama contornada por um círculo entrecortado. A qual irradia uma singela luz na escuridão que envolve a quase totalidade do pequeno rectângulo do ex-líbris. Simbolicamente podemos equiparar o papel da luz à tarefa da razão e da moral no derrube das trevas causadas pela ignorância. Aproximando o Homem do verdadeiro conhecimento, da Bondade e do Bem.

Nas palavras introdutórias do livro encontramos alguns pormenores que nos ajudam a compreender os ideais e aspirações da autora torrejana. Uma confissão da seu projecto de vida:

“Na vida dos humildes e, principalmente, das mulheres e crianças, há dores e injustiças fáceis de remediar.

A indigência é triste. Mas a ignorância e a imoralidade provocam, entre os pobres, situações mais dolorosas e desumanas que a própria falta de recursos. Por isso, ensinar e moralizar é tão urgente como dar de comer a quem tem fome.

Neste livro não há pretensões artísticas nem se inventou coisa alguma. Escrito por uma mulher que sente, no seu coração de mãe, as angústias de todas as mães e todas as crianças, foi pela Mulher e pela Criança que ela o escreveu, no intuito de lembrar, sobretudo à mocidade feminina, o dever imperioso, inadiável, de se dedicar a ideais de Bondade e de Beleza, de contribuir para que a Humanidade renasça, amanhã, mais elevada e feliz (LÚCIA, Maria; “Negro e Côr de Rosa”, Atlântida, Coimbra, 1937).

O “Por Bem” da sua sentença – colocada no canto superior esquerdo do ex-líbris – evidencia plenamente o projecto de luta de Maria Lúcia Namorado. Através das palavras e das acções a autora torrejana pretendeu espalhar as sementes da Bondade e da Beleza. Valores fundamentais e inalienáveis para a constituição de uma Humanidade mais justa e feliz.

(Continua)

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