SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 16 Junho 2021, 12:33

Três Escritoras Torrejanas através do seu Ex-Líbris (1)

Algumas vezes somos surpreendidos pelo facto de encontrarmos nos livros antigos uma pequena etiqueta ou emblema, contendo um ilustrativo desenho secundado por uma sugestiva frase ou sentença. A estas singulares marcas dá-se o nome de “ex-líbris”.

Palavra estranha para a grande maioria das pessoas. A sua elucidação deve buscar-se nas raízes latinas dos termos: em português, a preposição “ex”, significa “origem”, “de” e, por sua vez, “vindo de…”, “proveniente de…”. Já o ablativo plural “líbris”, (liber), colocado à frente do “ex “ dá-nos a seguinte expressão: “ dos livros de….”, “proveniente dos livros de…”.

O ex-líbris é, portanto, uma espécie de etiqueta que remete para a identidade de um possuidor – o dono do livro que pretendeu, ao colocar o seu emblema, distingui-lo de todos os outros.

O uso do ex-líbris é bastante antigo. Os primeiros foram manuscritos à mão nos livros ostentando o nome do seu dono e uma frase em que era solicitado, a quem encontrasse o livro, para o devolverem ao seu natural possuidor.

Antes da invenção da imprensa surgiram também alguns ex-líbris feitos a partir do processo da gravura em madeira. Mas foi preciso esperar pela descoberta da imprensa para assistirmos a uma massiva utilização do ex-líbris, por parte dos amigos dos livros. Vulgarmente conhecidos por bibliófilos. Uma espécie em vias de extinção: os detentores das antigas bibliotecas particulares estão, hoje em dia, a desaparecer. Em seu lugar, impuseram-se os despersonalizados arquivos digitais de livros.

A enorme quantidade de ex-líbris produzidos com o recurso à imprensa não conseguiu, mesmo assim, desvirtuar o carácter único e pessoal que encerram. Havendo-os de toda a gama e feitios artísticos. Cada um deles reflectindo a maneira de ser e de agir do seu possuidor.

De uma maneira geral, o ex-líbris é o retrato ético e psicológico de quem o manda fazer. Contendo as suas aspirações e os seus princípios.

O uso dos ex-líbris não se restringiu, somente, ao círculo dos verdadeiros amantes dos livros. Também é possível encontrar a sua utilização no meio literário. Foram vários os escritores que socorreram-se do ex-líbris para revelarem os seus mais fortes ideais. Espelho autobiográfico da sua alma impresso nos seus livros.

Para quem ao abrir a primeira página de um livro e deparar-se com o ex-líbris do seu autor, coloca-se o problema de tentar decifrar o seu significado. Um exercício intelectual, deveras estimulante, que o levará a descobrir o que está por detrás da simbologia da bela e sugestiva marca. Viagem que convidamos o estimado leitor a efectuar através dos ex-líbris de três conhecidas escritoras torrejanas. Testemunhos indeléveis da voz feminina no mundo da literatura nacional. São elas: Aurélia Borges (1915-2015), Maria Lúcia Namorado (1909-2000) e Maria Lamas (1893-1983).

O nome de Aurélia Borges surge no círculo da literatura muitas vezes associado à sua mestre e amiga: Florbela Espanca. Deve-se à grande poetisa de Vila Viçosa o incentivo e o apoio dos primeiros passos de Aurélia Borges no mundo das letras. Por essa razão é natural encontrar na sua poesia alguns dos grandes temas e inquietações que se encontram plasmados na obra poética de Florbela.

No ex-líbris da escritora torrejana também podemos vislumbrar alguns traços que a aproximam dos ideais de Florbela Espanca. Um deles, remete-nos para a figura da águia, que se encontra presente no centro do seu ex-líbris. Presença singular da fauna alentejana. Nas suas asas ancora-se o espírito da poetisa, voando cada vez mais alto, na ânsia da luz e do infinito. Assumindo-se a imagem da ave de rapina como o paradigma do espírito livre e rebelde da poetisa.

A ornamentação em volta da figura geométrica, onde se encontra a águia, é de bastante delicada e simples. Numa perfeita adequação com o carácter da escritora torrejana.

Por baixo, o ex-líbris faz-se acompanhar pela imprescindível divisa: espelho da alma e das confidências mais íntimas do seu criador. Entreadivinhando-se na sentença o seu mundo de sonhos e projectos pessoais. A ilustre torrejana Aurélia Borges escolheu para sua divisa a frase “Sempre mais alto…”. Curioso é que vamos encontrar a mesma sentença no ex-líbris da sua ilustre conterrânea, Maria Lamas.

Esta singela expressão é reveladora da nobreza de espírito que enferma o seu seguidor. Alguém que aspira a ir mais longe, sempre na busca da perfeição. Um carácter irmanado de uma enorme rectidão e coerência. Focado na elevação permanente do espírito humano. Que não está prisioneira de paixões inferiores ou mesquinhas.

Todas as acções de Aurélia Borges visaram aproximá-la cada vez mais do ideal de perfeição humana. Projecto que não se desviou em nenhum momento da sua vida.

(Continua)

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