SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 16:45

Para a História da Resistência Torrejana ao Fascismo

À medida que nos vamos distanciando do tempo histórico vivido durante o fascismo, apercebemo-nos que escapa à grande maioria dos jovens portugueses o conhecimento e o propósito das lutas heróicas travadas por uma pequena franja de corajosos cidadãos nacionais, durante o regime fascista. Que vigorou quarenta e oito anos em Portugal.

Ignoram que muitas das conquistas sociais, económicas e culturais que, hoje em dia, fragilmente usufruímos, devem-se à persistência e ao combate dos nossos heróis anti-fascistas. Injustamente esquecidos pelos conturbados ventos que ensombram a História da Humanidade. E que teimam em roubar às civilizações a esperança de uma sociedade mais justa e solidária, através da simulada tentativa de fazer retornar – agora com novas roupagens – os tempos sombrios do fascismo, que ditaram o arbítrio, a corrupção e as gritantes injustiças sociais. Época negra da História de Portugal, marcada por frequentes atentados à liberdade.

Um exemplo marcante desses tempos pretéritos consistiu nos encarceramentos de má memória. Situação ignominiosa a que estiveram sujeitos os opositores ao regime. Por meio dos mais requintados tipos de tortura e humilhações (a total impunidade levava-os a afirmar cinicamente que «A Lei não chega[va] ao 3º andar desta polícia»), a PIDE procurava enfraquecer a resistência física, moral e psicológica do prisioneiro. Métodos repulsivos como a “Estátua”, “A tortura do sono”, “choques eléctricos”, os insultos, os continuados espancamentos…, faziam descer os resistentes políticos aos abismos do inferno da dor e do opróbrio. Reduzindo-os a verdadeiros farrapos humanos.

Nesses tempos sombrios o poder político vigente servia-se de uma justiça governamentalizada para condenar de forma prepotente os presumíveis culpados. Os julgamentos eram uma completa farsa. Feitos por juízes que obedeciam subservientemente aos humores e vontades do regime fascista. Condenados (muitas vezes sem quaisquer elementos de prova), os presos políticos estavam sujeitos a encarceramentos arbitrários durante um longo período de tempo.

No dia 20 de Agosto de 1968, o resistente anti-fascista torrejano, Francisco Canais Rocha (1930- 2014), é preso pela PIDE. Situação que não lhe era estranha. Acontecera uma outra vez no ano de 1952, a 4 de Dezembro. Levando-o a experienciar, durante largos meses, os martírios na cela da prisão política do Estado Novo. Até que, no dia 24 de Novembro de 1953, comparece a julgamento, onde, nesse mesmo dia, recebe a ordem de libertação.

Temendo pela vida do seu irmão (muitos combatentes foram assassinados em consequência das sádicas torturas a que eram sujeitos os prisioneiros), o tipógrafo da Gráfica Almondina, Joaquim Canais Rocha, procura, por todos os meios, arranjar um advogado que consiga desbloquear o isolamento de Francisco Canais Rocha nos calabouços da PIDE. Dirige então uma carta ao seu conterrâneo, o escritor António Borga (1905-1974), pedindo a sua ajuda.

Para contornar a vigilância da correspondência, por parte da polícia política, escreve a missiva (num papel de divulgação do seu projectado caderno de cinema “Sinopse”) socorrendo-se de um envelope do Cine-clube de Torres Novas. Nas linhas do texto é visível a preocupação de Joaquim Canais Rocha pela vida do seu familiar (Ele próprio, no ano de 1961, durante três meses, sofre também na pele as agruras das prisões fascistas). A carta diz o seguinte:

“ Meu caro Borga

Depois do nosso encontro em Cascais, chego a casa e recebo a notícia de que meu irmão foi preso com a família (dois filhos). Deve calcular o meu estado. Por isso agradecia ao amigo, se conhecia algum advogado [nesta altura havia uma plêiade de homens das leis especializados na defesa deste tipo de situação] que pudesse fazer-nos esse favor, que era o de ir à PIDE, exigir visita e ver o seu estado [muitas das vezes os presos apresentavam-se aos familiares bastante enfraquecidos e cheios de escoriações resultantes dos maltratos infligidos pelos inquisidores da PIDE].

Sabe, é que o meu irmão, não é um preso vulgar. Toda a nossa ajuda no exterior, poderá salvar muita coisa, incluindo a sua sobrevivência.

Sem outro assunto, desculpe a maçada, o seu amigo

Canais Rocha”.

O escritor torrejano, António Borga, chegou a indicar um advogado a Joaquim Canais Rocha. Mas as tentativas para tirá-lo da prisão foram frustradas. Como aconteceu na generalidade dos processos políticos contra os resistentes anti-fascistas. Restava a Francisco Canais Rocha passar, mais uma vez, pela dolorosa e prolongada permanência nos calabouços da PIDE.

Presente a julgamento – facto que aconteceu no dia 23 de Março de 1969 – foi-lhe aplicada a pena de 5 anos e 3 meses, com medidas de segurança (A sua preponderância nos meios da resistência anti-fascista assim o exigiam). Encarcerado no forte de Peniche, foi libertado em 1973.

Este documento inédito, existente no Arquivo Municipal da Biblioteca Gustavo Pinto Lopes, inscreve-se numa das muitas páginas da resistência torrejana ao fascismo (num outro artigo revisitaremos o assunto, com novos dados sobre os prisioneiros políticos torrejanos). Feita através da luta de uma considerável plêiade de corajosos cidadãos. Que não abdicaram do sonho de constituírem uma sociedade mais justa e solidária.

Devemos-lhes algumas importantes conquistas sociais que temos o dever cívico e moral de as manter e, até, de aumentá-las. Para nosso bem e das gerações futuras!

Um Feliz Ano Novo!

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