SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 13 Junho 2021, 14:18

Portugal na Grande Guerra – O “Milagre” de Tancos (2)

A iniciativa de reunir em livro as crónicas de Tancos, escritas pelos dois jornalistas de “O Século” e de “A Capital”, deve ser entendida como uma clara manobra de propaganda a favor da entrada de Portugal na Grande Guerra. Possibilitando ao governo da União Sagrada ganhar a simpatia do povo – sufocado por uma enorme carestia de vida – e emudecer os seus detractores, anti-guerristas.

No primeiro artigo de Oldemiro César, escrito um dia após a sua chegada ao Entroncamento, a 17 de Junho de 1916, o jornalista não se coíbe de enaltecer a organização dos depósitos de víveres do “lugarejo” ferroviário, que iria tornar-se numa “verdadeira mercearia de Gargântua”, através das exageradas palavras: “milagre de zelo e dedicação” (op. cit., pág. 17).

À medida que repórter de “ O Século” vai descrevendo o dia-a-dia de Tancos, o seu testemunho enleia-se num acolhimento pouco crítico e objectivo do treino dos soldados portugueses. É manifesta a vinculação do repórter a um discurso de natureza propagandística, perceptível nos seus comentários patrióticos e fervorosas descrições bélicas, aquando os exercícios de fogos reais. Chegando ao ponto de recriminar todos aqueles que duvidavam da capacidade organizativa e militar do país: “ É admirável a resistência dos nossos soldados! É preciso vir aqui e ver a sua disciplina e passividade, a alegria com que cumprem os seus deveres, e acompanhá-los depois, como eu ontem acompanhei, numa marcha forçada de 13 quilómetros, sob a soalheira a rachar, através da charneca nua e árida (…) e assistir em seguida a um grande exercício de fogos reais, concluindo com a soberba correria de uma carga de baioneta sobre um hipotético inimigo (…). Espectáculo único, estupendo, da carga final à baioneta, entre o vozear entusiasmado da soldadesca, a cavalaria auxiliando aquele movimento envolvente, feito pouco a pouco com uma precisão admirável (op. cit., pág. 39- 41).

A penúltima crónica de Oldemiro César perfila-se como uma chamada de atenção sobre o prodigioso ressurgimento das virtudes militares do país. Simbolizadas na figura do oficial da força da polícia da guarda republicana: “ Este capitão que vê é afinal o símbolo de toda a ordem, método e disciplina aqui soberanamente imperantes, símbolo também da confiança que todos devemos ter nos nossos soldados, nesta hora solene e grave que atravessamos os únicos que nos afirmam a segura e inabalável garantia da liberdade da Pátria… (op. cit., pág. 46).

Os escritos do jornalista de “ O Século”, no presente livro, são rematados com uma reportagem, já em Lisboa, a bordo do navio “Vasco da Gama”. Dando conta dos exercícios efectuados pela marinha portuguesa, na Baía de Cascais – evocação histórica da grandeza marítima do povo português. Altura propícia para o repórter enaltecer o prefaciador da apologética obra, o Comandante da Divisão Naval portuguesa: “Ao nosso lado Leote do Rego não largou o binóculo mas não deixou também de sorrir, sorriso de confiança de quem sabe quanto vale a inteligência e a competência dos seus homens” (op. cit., pág. 50). Este espectáculo da força naval é, nas palavras de Oldemiro César, “ o digno complemento do milagre de Tancos” (op. cit., pág. 52).

As crónicas de Adelino Mendes seguem o mesmo tom de propaganda patriótica. Logo no seu primeiro artigo, o jornalista de “A Capital” enaltece o “milagre” que se estava a operar: “ Acabo de percorrer todo o polígono de Tancos. A noite cai, e é ao ar livre, sob a triste ramaria dum pinheiro manso, que começo a escrever esta carta (…). Paulona é a cidade da paz e é quase a pátria do silêncio. É um exército que tenho diante de mim, trabalhando, adestrando-se, treinando-se na difícil arte de combater? É. Mas como esse exército sabe fazer a sua educação profissional sem que quase se dê por ele! O soldado português tem sido sempre heróico, esforçado impetuoso e destemido. Faltava-lhe, porventura, a serenidade? Tancos, com as suas barracas de pau e lona, com os seus improvisados aquartelamentos, com a disciplina inalterável e profunda que por toda a parte se respira, deu-lhe mais essa virtude e deve estar a fazer dele um excelente combatente.” (op. cit., págs. 55-56).

Em Tancos, Adelino Mendes encontrou uma “grande e nobilíssima família”. (op. cit., pág. 58), unidos pelo mesmo fim: o amor incondicional à pátria. O governo da República estava, ali, “a realizar uma grande obra de rejuvenescimento militar”, contrariando as calúnias dos seus detractores (op. cit., pág. 74). Tancos erguia-se como uma prodigiosa oficina de preparação de soldados. De nada valiam os boatos perante a obra erguida pelo esforço e pela fé de alguns homens (op. cit., pág. 66).

Os elogios vão-se multiplicando nos artigos assinados por Adelino Mendes. Muitas vezes recorrendo a um vocabulário de natureza religiosa, com o beneplácito de uma censura republicana de cariz profundamente laica (JANEIRO, Helena Pinto; “Tancos: A Génese de um Milagre” in “ O Longo Curso – Estudos em Homenagem a José Medeiros Ferreira”, Tinta da China, Lisboa, 2005, págs. 87-106). Ao longo das suas crónicas perpassam vários termos sagrados. Destacando-se a clara insistência na palavra “ fé” (op. cit., págs. 59, 64, 65, 66); a par de outros vocábulos como: “milagre” (op. cit. págs. 65, 73, 80), “ressurreição” (op. cit., págs. 58, 70), “ catedral” (op. cit. pág. 60), “deus” (op. cit., pág. 62), “renascer” (op. cit., pág. 68), “aparição” (op. cit., pág. 92).

Através do recurso à imagística do cristianismo, o repórter de “A Capital” procurava, deste modo, dar um sentido religioso à intervenção de Portugal na Grande Guerra. O país não podia fugir aos nobres desígnios de grandeza que lhe augurava o regime republicano.

Hoje sabemos que a preparação do Corpo Expedicionário Português não está isenta de erros. Apesar do esforço gigantesco que acarretou a alimentação e planeamento de um campo capaz de abrigar perto de 20.000 mil soldados, os primeiros confrontos em França revelaram um exército inábil para enfrentar a guerra moderna (CORTESÃO, Jaime; “Memórias da Grande Guerra”, Edição da Renascença Portuguesa, Porto, 1919, pág. 233). As maravilhas escritas pelos jornalistas, a propósito da logística e do treino em Tancos, não correram da melhor forma. Registaram-se muitas falhas: falta de solípedes, escassez de equipamentos (alguns peças de vestuário eram inapropriadas), poucas viaturas, falta de material de acampamento, etc. A instrução também deixou muito a desejar pela ausência de pessoal graduado competente e pelo desenquadramento dos exercícios ministrados. Ineficazes para o tipo de confrontos que iriam acontecer em Flandres. (SOUSA, Tenente-Coronel Pedro Marquês, “ 1916- O ano da organização do CEP para França. A mobilização Militar”, in “ Revista Militar”, Maio de 2016, II Século, 68º volume, págs. 445- 461). Aspectos não referenciados pelos jornalistas que estiveram em Tancos (Adelino Mendes ainda foca, sem grandes alardes, a insuficiência do tempo de treino dos soldados). Mais comprometidos em divulgar a propaganda oficial do governo ao conotarem a preparação militar portuguesa como um verdadeiro “milagre”.

O próprio Ministro da Guerra, Norton de Matos, um dos mentores de Tancos, nas suas memórias a propósito do citado “milagre”, refere que nos discursos, conversas e documentos oficiais, sempre designou a grande obra nacional como “Concentração de Tancos”. Mas, pelo facto de ser um importante obreiro do célebre treino militar, não rejeita o termo se – e fazendo uso das palavras de um ilustre escritor-: «apelidarmos de “milagre” a esse esforço hercúleo que conseguiu fazer sair em pouco tempo do nada, que era então o misérrimo exército português, uma divisão devidamente organizada e apetrechada que, durante cerca de três meses de trabalho insano de instrução no campo e nos arredores de Tancos, se preparou convenientemente para entrar em campanha na metrópole ou fora dela, onde quer que a chamasse o sagrado dever de bem servir a Pátria» (MATOS, Norton; “ Memórias e Trabalhos da Minha Vida” Vol. III, Imprensa da Universidade, Coimbra, 2005, Pág. 249).

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