SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 18:09

Portugal na Grande Guerra – O “Milagre” de Tancos (1)

“ (…) Quem vem a Tancos fica maravilhado, principalmente, por ver que tudo isto é diverso do que vê, lá longe, se imagina. Suba-se ao monte de S. Luiz, o panorama é soberbo. Em baixo Paulona [termo usado por Adelino Mendes no título das suas crónicas, escritas no “Polígono Militar de Tancos”, para descrever o amontoado de tendas, feitas de pau e de lona, que enchiam a vasta área da localidade próxima da Barquinha] branqueja, muito limpa e muito tranquila, disseminando-se por uns poucos de quilómetros quadrados, à sombra do arvoredo e nas clareiras das charnecas (…).

Tancos com esta disposição de barracas e estes arruamentos alinhados, macadamizados, quási labirínticos, saiu com já se disse, das mãos e do cérebro de meia dúzia de homens. É, por isso, uma coisa amada e odiada. Amada pelos que a fizeram com a sua imensa fé, com o seu profundo amor patriótico. Odiada por todos os que nunca viram isto com bons olhos e têm empregado todos os esforços para inutilizar a grande obra, se não em si, pelo menos nos seus efeitos. Do ódio nasce sempre a corrupção.

Ele é sempre mau conselheiro. Dai-lhe asas e ele voará até às denegridas e entenebrecidas regiões onde vive a infâmia e onde medra a mentira. Tem sido o ódio de alguns maus portugueses que tem procurado inutilizar o milagre de Tancos? Tem.” (“Cartas de «Paulona»”, MENDES, Adelino; in “A Capital”, nº 2009, 19 de Junho de 1916, pág. 1).

Foi através deste artigo, da autoria do jornalista Adelino Mendes, que a preparação do contingente militar português para a Grande Guerra (1914-1918), recebeu o nome de “ O Milagre de Tancos”. Um feliz epíteto criado pelo correspondente d’ “A Capital” que, nos nossos dias, divide opiniões entre os estudiosos da matéria. Considerando alguns que o propalado êxito do treino das tropas portuguesas não passou de uma grandiosa manobra de propaganda, concebida pelo governo da União Sagrada. Culminada na impressionante parada de Montalvo, a 22 de Julho de 1916. Onde marcaram presença as mais altas individualidades do executivo nacional, diplomatas e ministros dos países convidados.

Com o inequívoco envolvimento de Portugal na Grande Guerra (em 9 de Março de 1916, a Alemanha fez a sua declaração de guerra ao nosso país), era necessário mostrar à opinião pública e estrangeiros, que a nação portuguesa tinha condições para preparar, num curto período de tempo, um exército de homens bem treinados. Capazes de enfrentar a nova forma de beligerância que decorria, em primeiro plano, no coração do velho continente. O sucesso da campanha propagandística contou com o apoio de uma franja da imprensa nacional. Que fez deslocar ao Polígono Militar de Tancos vários jornalistas, a fim de inteirarem os seus leitores sobre o dia-a-dia das operações de instrução.

As reportagens sucedem-se na imprensa amiga, nomeadamente, “ A Capital”, “O Século” e a “República”. Tendo um ponto em comum: os rasgados elogios à forma como as chefias militares estavam a preparar o contingente português. Constituído, na sua grande maioria, por camponeses analfabetos arrancados às suas terras.

Expressões do tipo “resnace[r] [d]a fé”; “Tancos (…) escola modelar de patriotismo” (“República”, nº 1975, 10 de Julho de 1916, pág. 1); “É admirável o estado de espírito dos soldados”, “Empolgante esta primeira impressão do acampamento” (“O Século”, Junho de 1916); “Estão ali vinte mil homens, pregados àquele chão, formando um bloco formidável como a base de um monumento eterno” (NEVES, Hermano, “Um dia Memorável do nosso Exército” in “A Capital”, nº 2133, 23 de Julho de 1916, pág. 1); “ Portugal ressurge. Um imenso clarão de vitória ilumina o horizonte” (“A Montanha” 23 de Julho de 1916, pág.1), espelham o entusiasmo colocado pelos jornalistas, a propósito das operações militares acontecidas em Tancos. Onde, nos seus artigos, é ténue a linha que separa a rigorosa informação jornalística da mera propaganda patriótica.

Neste capítulo, são dignas de referência as descrições efectuadas por Oldemiro César para o jornal “O Século” e do já citado jornalista Adelino Mendes n’ “A Capital”. Mais tarde, com direito a serem impressas em livro. Para que “não se perdessem no «abismo do esquecimento» a que são necessariamente votados os artigos de jornal” (MENDES, Adelino; CÉSAR, Oldemiro; “ A Cooperação de Portugal na Guerra Europeia: O Milagre de Tancos”, Empresa Lusitana Editora, Lisboa, s/d, pág. 7).

O autor do prefácio da apologética obra, sobre as virtudes bélicas portuguesas, foi o comandante naval Leote do Rego. Militar de quem o jornal “A Capital” era fiel. (A investigadora Manuela Poitout no seu ensaio “ A Emancipação do Entroncamento”, inserido na revista “Nova Augusta” nº19, de 2007, página 70, afirma que os escritos dos dois jornalistas foram “reunidos em livro por Leote Rego”. Ora, nas várias obras consultadas sobre o tema e pelo que se depreende nas notas introdutórias d’ “O Milagre de Tancos”, o contributo do oficial da marinha está ligado à escrita do prefácio do livro. Facto que é omitido no seu pequeno estudo).

(Continua)

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