SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 13 Junho 2021, 14:54

Recordar a Grande Actriz Virgínia

Neste mês de Outubro o teatro Virgínia comemora os seus sessenta anos de existência. Ao longo de várias décadas, a reconhecida sala de espectáculos, vem cimentando um lugar de destaque na cena cultural ribatejana. E até mesmo a nível nacional.

Pelo seu palco já passaram algumas das mais reputadas figuras das artes e da cultura portuguesa. O agora renovado teatro Virgínia foi também uma privilegiada testemunha de acontecimentos marcantes na vida colectiva torrejana.

A magnífica sala de espectáculos, muito apropriadamente, acolheu o nome de um dos mais queridos filhos da terra: a incomparável Virgínia Dias da Silva (1850-1922). Eterna glória do teatro nacional. Numa justa homenagem à actriz que escreveu inolvidáveis páginas na difícil arte da representação.

Mas a vida da torrejana ilustre não foi apenas coroada de retumbantes êxitos. Nos seus últimos anos, a solidão e a pobreza abateram-se cruelmente sobre a velhinha senhora que habitava na rua Luciano Cordeiro. Espectro da eminente actriz que, através da sua voz cristalina e inesquecíveis actuações, tinha encantado plateias e críticos. Restavam-lhe apenas as memórias aprisionadas nos objectos e fotos que animavam a penumbra da sua sala. Relíquias inconfundíveis de um tempo áureo.

Ao apagado esquecimento de uma das maiores artistas nacionais juntava-se a gritante incúria do governo. Que a relegara para uma cruel indigência. Fruto de um mísero apoio estatal. Para a subtrair à fome e à irremediável doença, alguns companheiros de ofício propuseram-se realizar um espectáculo de beneficência em sua homenagem. A importante medida contou com o patrocínio do jornal “ Diário de Notícias”.

No dia 17 de Abril de 1922, pelas 21 horas, o Teatro de São Carlos iria assistir a uma das mais sentidas homenagens feitas a um artista nacional (em virtude da informação presente na biografia de Faustino Bretes, sobre a “ Actriz Virgínia”, colocámos num artigo anterior, publicado no jornal “O Almonda”, nº 4867, erroneamente, a data de 21 de Abril de 1922).

O programa constou de três momentos inesquecíveis de rara beleza artística – o diálogo em verso “O Poeta e a Saudade”, do dramaturgo D. João da Câmara, interpretados pela magnífica actriz Ângela Pinto (no papel do poeta) e a imortal Palmira Bastos (A saudade); um “Serão de Arte” que envolveu uma considerável plêiade de artistas de renome, como: Ilda Stichini, Auzenda Oliveira, Berta Bívar, Laura Costa, Ribeiro Lopes, Alfredo Ruas, Estevão Amarante, Francisco Benetó… e, por fim, a representação da conhecida peça da autoria de Júlio Dantas, denominada “A Ceia dos Cardeais”. Interpretada pelos grandes actores, Eduardo Brazão, Rafael Marques e José Ricardo. Todos eles unidos por um objectivo comum – participar na emotiva e justa homenagem à mulher que era considerada um símbolo maior na exigente arte do palco. Dotada de uma “romântica voz de musical tristeza” (Antero de Figueiredo).

A pouco anos de a efusiva homenagem alcançar o seu centenário, os folhetos impressos para a récita erguem-se da sua mudez para nos inteirar do “momento singular” vivido pelos espectadores do espectáculo (Branca Gonta Colaço). Provas de gratidão da autoria de reconhecidas figuras do meio literário “ à intérprete máxima do sentimentalismo lusitano” (Antero de Figueiredo),

Nas palavras de Matos Sequeira, escritas num desses folhetos, o nome “Virgínia! É toda a cena portuguesa!/ Quem diz tal nome é como se dissera/ uma síntese rara de beleza”.

Virgínia Vitorino, no seu poema, destaca o encanto da gloriosa festa em honra da nossa actriz. Reconhecendo “que se dissesse apenas: «obrigada» /diria uma palavra …. Quasi dura”. Insuficiente para explicar as emoções sentidas.

Passados alguns meses desta luminosa homenagem, no dia 22 de Dezembro, a chama da vida extinguia-se no corpo frágil da melancólica velhinha. A morte foi sentida com enorme pesar por todos aqueles que a conheciam.

Pelas doze horas o cortejo fúnebre saía da sua casa na rua Luciano Cordeiro, em direcção ao jazigo dos artistas dramáticos, no cemitério dos Prazeres. À passagem em frente do Teatro Nacional D. Maria II, onde ao longo da sua carreira a actriz torrejana alcançara enormes êxitos, o féretro teve uma pequena paragem. Tempo suficiente para que a pequena orquestra, situada no alpendre do edifício, executasse uma sentida marcha fúnebre em honra da primeira-dama do Teatro Nacional. Reconhecida homenagem à memória da actriz que levou a beleza e o amor aos corações famintos dos espectadores.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados