SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 19 Junho 2021, 07:10

A Tradição Cristã das Misericórdias Portuguesas (1)

No ano de 1958, em plena comemoração do quinto centenário do nascimento da rainha D. Leonor (1458-1525), realizou-se o IV Congresso das Misericórdias Portuguesas. O encontro contou com a presença de importantes personalidades ligadas à secular irmandade cristã. Criada, primeiramente em Lisboa, sob os auspícios da esposa do rei D. João II, em 1498.

O objectivo da reunião passava por discutir e esclarecer os mais diversos problemas que afectam a vida das misericórdias.

Foram vários os congressistas que quiseram deixar o seu parecer sobre a actualidade da instituição e os novos desafios que se colocavam à Santa Casa. Que na altura se via ensombrada pelo polémico Decreto-Lei nº 35.108, de 7 de Novembro de 1945. Através do qual, mais uma vez, o poder político tentava incutir a velha aspiração laicista: ao promulgar a separação entre os Estabelecimentos de Assistência das Irmandades. Pretendendo colocar, de um lado, a Associação Humanitária com o asilo, o hospital e o orfanato; e do outro, a Irmandade. Restringindo-a a fins meramente religiosos.

O citado Decreto esbarrava, assim, com a essência espiritual firmada no primeiro compromisso das Irmandades da Misericórdia. Em que os préstimos de caridade e justiça são indivisíveis do culto religioso:

“ (…) o fundamento desta santa confraria e irmandade é cumprir as obras da misericórdia, (…) as quais são catorze, sejam sete espirituais e sete corporais” (“O Compromisso da Confraria da Misericórdia”, Valentym Fernandez e Harmam de Campos, Lisboa, 1516, capítulo I, fo. II).

Este problema esteve no centro das preocupações dos oradores, na primeira parte do Congresso. Alertando para o impacto negativo que a aplicação do referido Decreto estaria a causar no prestígio das Misericórdias. Desde sempre ligadas à tradição cristã (“Actas do IV Congresso das Misericórdias”, Lisboa, 1959, págs. 61-115).

Nesta linha de ideias, enquadram-se as duas apresentações introdutórias efectuadas pelo ilustre torrejano Dr. Carlos de Azevedo Mendes (1888-1962), Provedor da Misericórdia de Torres Novas (com uma obra de enorme relevo à frente da instituição). Responsável pelo cargo, segundo ele, desde o ano de 1918. O que o colocava, na altura do Congresso, como o decano dos Provedores do País (os historiadores torrejanos, Artur Gonçalves e Joaquim Rodrigues Bicho, nos seus livros “Anais Torrejanos” e “ Torrejanos de Vulto”, respectivamente, indicam a data de 2 de Junho de 1920).

Nas palavras do Dr. Carlos de Azevedo Mendes, as Misericórdias foram desde sempre e oficialmente “denominadas Irmandades da Santa Casa da Misericórdia” (“Actas do IV Congresso…”, pág. 68). Isto porque os seus fins são “ o culto para com Deus Nosso Senhor e a caridade com os pobres”.

E foi do culto para com Deus Nosso Senhor que adveio as “catadupas de caridade e a generosidade dos seus benfeitores” (op. cit., pág. 68).Uma tradição que se manteve ao longo dos séculos. Resultando daí, o cumprimento, com enorme sucesso, das catorze obras que estiveram implicadas na sua criação.

Para o ilustre torrejano, o Decreto-Lei nº 35.108, iria desestabilizar o espírito e o equilíbrio que as Misericórdias vinham mantendo: ao retirar-lhes a sua natural vocação religiosa, colocavam-na no mesmo plano de uma mera Associação de Assistência. Corrompendo e deturpando, na sua essência, as Misericórdias.

Segundo o Dr. Carlos Mendes, as Misericórdias deviam continuar a ser “ o centro da assistência local e para tanto indispensável é dar-lhes todas as possibilidades de manter em pleno a tradição cristã, que presidiu à sua fundação” (op. cit., pág. 69). Os quinhentos anos de experiência da Misericórdia (depois da de Lisboa, muitas outras surgiram pelo país. A Misericórdia de Torres Novas data do ano de 1534) no auxílio aos mais necessitados e desprotegidos eram a prova insofismável de que a caridade e a justiça não se anulam na fé.

Foi sempre com base no culto a Deus e a Nossa Senhora que a instituição espalhou grandiosas obras de caridade. Uma unidade que urgia defender.

(Continua)

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