SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 23 Junho 2021, 04:13

A Propósito de um Indevido “Torrejano Ilustre” (2)

Segundo Diogo Barbosa, João Bravo Chamiço (? – 1627) era filho de Pedro Bravo. Fez os estudos de Artes em Évora e de Medicina em Coimbra. Em cuja faculdade veio a leccionar de 1596 até ao ano de 1624.

O percurso académico do errado “Torrejano Ilustre”, João Chamiço, foi notável: a 24 de Março de 1589 é Bacharel em Artes pela Universidade de Coimbra. No mesmo ano, mais precisamente no dia 13 de Maio, obtém a licenciatura. E a 4 de Junho consegue o grau de Mestre.

Estas qualificações académicas deram-lhe a possibilidade de ingressar em Medicina. Facto que ocorreu no dia 10 de Dezembro de 1589.

Nos vários anos de estudo, na ciência de Hipócrates, ultrapassou as exigentes provas do curso, até conseguir a licenciatura. Em 5 de Julho de 1594.

Alguns dias depois, a 28 de Julho, João Chamiço consegue o seu Doutoramento em Medicina, na Universidade de Coimbra.

Hoje, podemos comprovar as brilhantes provas da sua licenciatura e doutoramento, através da consulta de documentos, relativos ao ilustre médico, existentes na Universidade de Coimbra. Em que se encontra referida a localidade de Serpa, como o lugar de nascimento de João Bravo Chamiço.

O que acontece no texto do seu exame Privado de licenciatura, escrito pelo bedel Gregório Silva, tendo como testemunhas os Doutores Baltazar de Azeredo, Domingos Dias e António Gomes. Respiguemos algumas das suas partes, principalmente onde é referida a localidade de Serpa como a terra natal do reputado professor.

No ponto de vista académico e cultural o início do documento é interessante, pois elucida-nos sobre o inusitado horário das provas, e as diversas fases protocolares que implicavam os exames no ensino superior, em Coimbra:

“Em os cinco de Julho de 94 na capela desta Universidade às cinco horas e meia, terça-feira pela manhã se juntou o Reverendo Padre Dom Miguel Vigairo do Mosteiro de Santa Cruz e Vice-Cancelário e o Sr. Doutor Baltazar de Azevedo, Lente de Medicina, Padrinho neste Auto e os Srs. Doutores (…); e com eles o Bacharel João Bravo, de Serpa, que havia de entrar em exame privado, e depois de ouvirem missa, se saíram na forma dos Estatutos para a casa onde se fazem os exames Privados, levando diante charamelas e trombetas e Meirinho e Guarda e Bedéis, com suas maças e o Mestre de cerimónias com seu bordão, e Conservador, que ia neste acompanhamento e chegando à dita casa, a qual estava decentemente armada, se sentaram por suas antiguidades, e fechadas as portas, o dito examinando, implorando pelo auxílio divino e depois captando benevolência ao dito Padre Cancelário, Padrinho e mais Doutores, começou a ler a sua primeira lição que lhe foi assinada, perto aí das seis horas por diante in 2.º aforismo. 37 incipit que salubritatem corporis usque ad verbum cibo inclusive (…) ”.

Será desnecessário referir que, no exame, João Chamiço “foi por todos aprovado nemine discrepante”. Com distinção.

Alguns dias depois, a 28 de Julho, João Chamiço fez as provas do Doutoramento. Na posse deste grau superior, passados quase dois anos, concorre para o lugar de professor substituto de Anatomia da Universidade de Coimbra. Cargo em que foi nomeado em 1596. Alcançando o estatuto de catedrático da disciplina no dia 3 de Abril de 1601.

A 7 de Fevereiro de 1615 toma posse da cadeira de Véspera, onde foi jubilado a 24 de julho de 1624. Também regeu como substituto a cadeira de Prima, a mais bem remunerada de todas.

Além da actividade professoral, João Chamiço foi o Vereador Universitário na Câmara de Coimbra. Cargo que o envolveu numa acalorada diatribe com os Padres do Colégio da Companhia de Jesus, existente em Coimbra. Acusados pelo ilustre médico de serem a origem do inquinamento das águas, do ar impuro e doenças que assolavam uma parte de Coimbra. Fruto da incúria e de algum desleixo dos sacerdotes que residiam na instituição.

Do ilustre médico e cirurgião-mor do reino de Portugal conhece-se duas importantes obras escritas em latim (a aprendizagem e o exercício da Medicina implicavam o domínio desta antiga língua). O “De medendis corporis malis per manualem operationem”, dedicado a D. Afonso Furtado Mendonça, Reitor da Universidade. Publicado em Coimbra, na Tipografia de Manuel Araújo, no ano de 1605. Também escreveu um outro livro: “ De capitis vulneribus liber”, Coimbra, editado pela casa de Diego Gomez Loureyro, em 1610.

O livro “ De medendis corporis…” abre com uma dedicatória dirigida a D. Afonso Mendonça, apresentando João Chamiço, no texto, as razões que o levaram a escrever a obra. Segue-se uma pequena nota dirigida ao estudioso leitor, principalmente futuros médicos, sobre a importância dos ensinamentos contidos no livro. Imprescindíveis para aqueles que enveredem pelo exercício da cirurgia e medicina.

A obra está dividida em sete livros, que por sua vez desdobram-se em diversos capítulos. O ilustre médico de Serpa socorreu-se, para a elaboração do “De medendis corporis…”, de muitos ensinamentos aprendidos em reputados autores antigos (nomeadamente, Hipócrates e Galeno). Acrescentando, também, algumas considerações da sua lavra, resultantes da prática pessoal e do contacto com reputados cirurgiões, aquando as suas viagens pelo estrangeiro.

João Chamiço não se limitou a ser um mero erudito. Teve o ensejo de aplicar a teoria no domínio prático. Resultando daí, alguns preceitos que pretendeu transmitir no seu livro.

Mas a obra enferma algumas debilidades, quando o autor entra no campo da superstição, propondo curar doenças através do uso de ensalmos (benzeduras) e amuletos. Prática próxima do ocultismo e da magia. João Chamiço acreditava no “poder dos encantos e das palavras mágicas, assim como no mau-olhado das mulheres durante o cataménio (menstruação) ”.

Estes desvios à objectividade científica foram combatidos, num comentário à obra, pelo Doutor Diogo Pereira, professor em Medicina.

Quando folhearmos a interessantíssima colectânea “ Torrejanos Ilustres”, de Artur Gonçalves, devemos ter em atenção que o biografado nº 170, inserto nas páginas 391 e 392, não pertence ao rol dos grandes nomes da nossa terra. Nenhum facto liga João Chamiço à terra do Almonda.

O ilustre professor da Universidade de Coimbra faz parte da constelação dos eméritos vultos que honram as páginas douradas da História de Serpa.

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