SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 18 Junho 2021, 09:00

Relatório da Legião Portuguesa do Comício no Liceu Camões (1)

No ano de 1958, Humberto Delgado (1906-1965) concorre às eleições presidenciais, enfrentando corajosamente o regime fascista.

Nunca, até então, uma candidatura oposicionista tivera um tão forte apoio popular, reforçado pela “frente unida” das várias tendências políticas nacionais, descontentes com o rumo do país. Esta sintonia de vontades encontrou no general torrejano um líder capaz de levar a efeito o derrube da ditadura fascista.

Desde a célebre conferência de imprensa, proferida no dia 10 de Maio, no café lisboeta “Chave de Ouro”, em que declarou, se fosse eleito, demitiria Salazar, o “fenómeno Delgado” não parou de crescer. Juntando à sua volta um país que tinha novamente razões para voltar a sorrir. Como aconteceu na cidade do Porto, nos dias 14 e 15 de Maio. Onde uma imensa multidão de apoiantes o saudou como um libertador.

A enorme onda de popularidade, gerada à volta de Humberto Delgado, levou o regime fascista a montar um redobrado sistema de vigilância e de repressão. Receando que o General Sem Medo pudesse alcançar as condições necessárias para o derrube do Estado Novo.

Durante a campanha eleitoral do ilustre torrejano, membros da Legião Portuguesa e da PIDE, espalhados pelo território nacional, inundavam os serviços centrais de relatórios acerca das movimentações de Humberto Delgado e dos seus apoiantes.

É sobre o teor de um desses documentos que o presente artigo procura dar a conhecer ao estimado leitor: trata-se do relatório secreto e confidencial da Legião Portuguesa aos acontecimentos registados na primeira parte do período eleitoral. Principalmente os referentes à sessão de propaganda de Humberto Delgado, em Lisboa. Realizada no ginásio do Liceu Camões, a 18 de Maio.

Logo na primeira página, o documento destaca os apoios dos mais diversos quadrantes políticos em torno do general. Sabemos, através do relator da Legião, das críticas dos comunistas ao ilustre torrejano (chamaram-lhe, até, o “General Coca-Cola”) e da gorada tentativa do partido no apoio a uma candidatura de Cunha Leal. Falhado o convite, a segunda opção recaiu em Arlindo Vicente que, mais tarde, abdicará a favor de Humberto Delgado.

Isto aconteceu porque, nesta altura, sentindo-se isolados, e constatando a forte esperança do povo no General, aderiram a reboque a uma “frente unida” no combate ao regime salazarista. Hesitações que levaram o relator da Legião a designá-los pela “ retaguarda da frente unida”.

Por outro lado, a aceitação por parte dos comunistas da figura do general, deve-se também ao facto de muitas das suas reivindicações, serem defendidas no programa político de Humberto Delgado, casos da: libertação dos presos políticos, reconquista das liberdades democráticas, abolição da censura, direito de reunião e associação…

O relatório da Legião Portuguesa foca os diversos tumultos ocorridos, ao longo dos primeiros dias de propaganda. O crescente clima insurreccional, até aí verificado, iria despoletar os desacatos da noite de 18 de Maio; que se prolongariam pela madrugada adentro.

Pelas 21 horas, milhares de pessoas portadoras de cartões de convite, para a sessão de propaganda da candidatura do General Humberto Delgado, encheram rapidamente o exíguo espaço do ginásio do Liceu Camões. O Governo proibira a realização do comício ao ar livre. Por esse motivo foram muitos os apoiantes portadores de convite que não puderam entrar. Segundo o relator da Legião, especulava-se “que os serviços de candidatura do General Humberto Delgado haviam distribuído 45.000 convites para uma lotação de 3.000 pessoas” (“Período Eleitoral de 1958 – As Actividades do P.C.P. na Primeira Parte deste período eleitoral”, Legião Portuguesa, pág. 12).

Com o recinto do ginásio do Liceu Camões completamente lotado, o acesso à Praça Fontana foi interdito pelas forças policiais. O que gerou um enorme protesto por parte dos manifestantes que possuíam o respectivo convite de entrada. Todas as ruas, próximas da Praça, foram obstruídas pelas forças da ordem: “ soldados de Infantaria da G.N.R. fechavam a Av. Almirante Barroso e a rua da Escola de medicina Veterinária. As outras ruas estavam guardadas por forças da PSP e da cavalaria da G.N.R.” (op. cit., pág. 12).

Pelas 21 horas e cinco minutos, no movimento executado pelos agentes da ordem, situados na Praça José Fontana e no Conde Redondo, com o objectivo de afastarem a multidão do local, dá-se os primeiros sérios confrontos entre as forças públicas e os populares”. É nesta altura, que sobressaem do anonimato alguns agitadores (nas palavras do relator legionário, estes elementos pertenciam às células do Partido Comunista), incentivando os manifestantes a apuparem e a insultarem os agentes de autoridade (op. cit. pág. 12).

(Continua)

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