SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 17 Junho 2021, 00:52

A Bola de Futebol oferecida por Madame “Evita” Perón (2)

Uma enorme multidão de torrejanos saudava a comitiva forasteira no seu trajecto para o Almonda Parque. O velho recinto desportivo iria registar, neste confronto, a sua maior assistência de sempre.

Aquando a entrada das duas equipas, irrompeu um forte coro de aplausos. Demonstração inequívoca dos inquebrantáveis laços que uniam as duas terras irmãs. Simbolizado através do transporte, feito por cada uma das equipas, da bandeira da formação contrária. Com direito a uma “volta ao terreno de jogo em sentido inverso”.

A festa teve também a participação dos columbófilos torrejanos, que procederam a uma vistosa largada de pombos.

Foi nesta altura, que o Sr. D. José Palmentiere fez a entrega da famosa bola, oferta de D. Maria Eva Perón, primeira-dama da Argentina.

A troca de prendas entre os dois clubes não se limitou à preciosa jóia vinda do país dos pampas: os dirigentes do Alhandra receberam da Direcção do Clube Desportivo de Torres Novas, uma artística salva de prata. Seis torrejanos ofertaram “um couraçado artisticamente trabalhado em madeira, com o nome de “Almonda”. O Grupo Desportivo Ribeirense deu uma taça. O mesmo acontecendo com os jogadores da extinta formação local: o Torres Novas Futebol Clube. (“O Almonda”, nº 1649, 03 de Fevereiro de 1951, pág. 2).

Por sua vez, os alhandrenses deram ao grupo torrejano uma bola de futebol em prata, com o emblema do Alhandra Sporting Clube.

Em ambiente festivo, no acolhedor “Almonda Parque”, as duas equipas defrontaram-se num jogo marcado por uma elevada correcção. Apenas o forte vento que se fez sentir nesse dia no recinto de jogo, não permitiu aos jogadores exibirem plenamente os seus dotes técnicos e futebolísticos.

No final a vitória tendeu para as cores torrejanas, por 2-1. Tendo marcado, pela formação da casa, Carvalho e Viriato. O golo dos alhandrenses foi obtido por M. Carvalho.

Em termos exibicionais, distinguiram-se pelo Clube Desportivo de Torres Novas: Ernesto, José Ana e Gomes. Pelos visitantes o guarda-redes Gomes, M. Ferreira, M. Carvalho, Rato e Franco ” (“O Almonda”, nº 1649, 03 de Fevereiro de 1951, pág. 5).

Todos os espectadores do encontro saíram do velho “Almonda Parque”, em ambiente de festa e com a alegria estampada nos seus rostos. Estado de alma geral que deveria existir em todos os eventos desportivos. O que raramente acontece.

Esta manifestação desportiva, única e genuína, levou o comentador de “O Almonda”, a fazer o seguinte desabafo na página do jornal: “ A um estranho às duas terras, impossível lhe seria distinguir quais os adeptos do Clube vencido, pois o resultado da luta não desgostou os visitantes, notoriamente” (op. cit.; pág. 2). Tal fora a elevada lição de civismo e de grandeza desportiva demonstrada pelos intervenientes dos dois emblemas.

Acompanhados pelas bandas de música que tinham actuado no campo – a Banda Operária Torrejana, a Filarmónica da Mata, e a da Árgea -, lá foram, torrejanos e alhandrenses, para o local onde lhes seria servido uma lauta merenda. Na garagem, profusamente decorada, não faltaram a comida e as bebidas. Colocadas à descrição das mais de mil pessoas que participaram no banquete, em que foram servidos “por gentis e sorridentes senhoras”.

A memorável festa não prescindiu dos habituais discursos, feitos pelos oradores das duas terras irmãs. Ao poeta torrejano e amante de futebol, José Lopes dos Santos, coube abrir a série de discursos. Nas suas palavras, as relações existentes entre os povos de Torres Novas e Alhandra são um verdadeiro exemplo e uma lição de humanidade. Afirmando que “ se todas as lutas terminassem assim, nunca haveria vencedores e vencidos” (“O Almonda”, nº 1649, 03 de Fevereiro de 1951, pág. 2).

Seguiu-se o Presidente da Câmara torrejana, Dr. Alves Vieira, que entregou ao representante principal do clube de Alhandra, Dr. Gustavo Carinhas, o “diploma de sócio de mérito outorgado ao Alhandra Sporting Clube por aclamação, em assembleia realizada em 28 de Dezembro de 1946. Referindo-se à maneira como os alhandrenses foram recebidos, afirmou não se tratar de uma manifestação do Grupo Desportivo de Torres Novas, mas do povo de Torres Novas” (op. cit., pág. 2).

Emocionado, o presidente do clube de Alhandra agradeceu todas as manifestações dirigidas aos alhandrenses. Também o Dr. José Palmentiere, em nome da eterna dama Eva Perón, agradeceu e manifestou ao nobre povo presente “a sua imensa satisfação por saber que entre as populações das duas vilas existe tão grande amor. Mais ainda, que essa mesma confraternização existe também no campo desportivo. (“Record”, nº 63, 03/02/1951, pág. 8).

Outros oradores fizeram uso da palavra: o Dr. Armando Diogo, médico do Alhandra Sporting Clube, amigo de longa data do Dr. Alves Vieira. Contou aos presentes as “pugnas desportivas em que ambos intervieram” (“O Almonda”, nº 1649, 03 de Fevereiro de 1951, pág. 2).

A fechar discursou o nosso conterrâneo, Sr. Eng. Orlando Ribeiro Martins, que, na altura, residia em Alhandra. Quando fez referência à beleza do memorável dia, que teve o privilégio de assistir, exortou aos presentes para que gritassem conjuntamente: “Viva Torres Novas! Viva Alhandra!” (“O Almonda”…, pág. 2).

Com o final da festa, antes de retomar à sua terra, o povo alhandrense seria brindado com mais uma reconhecida prova de amizade por parte dos torrejanos: no negrume da noite, centenas de pessoas empunhavam archotes, a recordarem silhuetas que jamais se apagariam da memória dos presentes. Um cortejo oferecido pela nobre gente torrejana. Digno de se ver! (“O Almonda”…,pág. 2).

Passados alguns dias, a 16 de Fevereiro, o Cine-Teatro Virgínia procedeu à exibição de uma sessão extraordinária. O motivo do inabitual programa prendeu-se com um assunto especial focado n´“O Jornal Universal”, a propósito da “ Actualidade portuguesa”. Neste espaço informativo seria abordado o inesquecível dia 28 de Janeiro. Na mesma sessão procedeu-se à projecção do excelente filme “A Tentação do Jogo” (1949), do realizador Michael Gordon, com a grande actriz Barbara Stanwyck.

O povo torrejano pode sentir orgulho pelo facto de no seu velho estádio, “ Almonda Parque”, ter ocorrido um dos momentos mais emblemáticos da nossa história desportiva. Em que o civismo e o espírito de confraternização atingiram um elevado patamar de humanidade. Firmados na eloquente prova de amor fraternal entre as duas terras irmãs.

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