SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 19 Junho 2021, 08:15

A Morte do Primeiro Soldado do C. E. P.

Era natural da Vila Nova da Barquinha o primeiro morto da Infantaria Portuguesa no teatro da Grande Guerra (1914-1918).

António Gonçalves Curado partira para França, no dia 27 de Fevereiro de 1917, como soldado do Corpo Expedicionário Português, da 4ª Companhia, do Regimento de Infantaria nº 28. Levava na consciência o temor de sucumbir em terra estranha. Apesar de acalentar a frágil esperança de, um dia, regressar são e salvo.

No seu espírito fervilhavam imensos sonhos e projectos, que o trágico destino iria desfazer: acontecido no dia 4 de Abril de 1917.

A ocorrência da infeliz morte do soldado António Curado causou um enorme constrangimento no oficial que comandava as operações: alferes António Joaquim Henriques. Mais tarde, veio a descrever nas suas memórias militares (constituídas por cinco cadernos), os contornos em que se deu o incidente. O seu testemunho é relevante, pois contrasta com o relato oficial, comummente aceite.

Nos dois cadernos manuscritos a que tivemos acesso (o quatro e o cinco), as versões sobre a morte do primeiro soldado do C.E.P., apresentam algumas diferenças e acrescentos.

Para melhor esclarecimento do leitor interessado, transcreveremos partes dos dois registos em que é abordada a morte do nosso compatriota e vizinho.

À chegada a França, os soldados portugueses não foram, logo, colocados no campo de batalha. Houve um período de preparação até que os primeiros combatentes entraram nas trincheiras. O que aconteceu a 2 de Abril, dois dias antes da fatídica morte de António Curado:

“ «Visita às Trincheiras»

Os batalhões antes de guarnecerem as trincheiras com responsabilidade da sua defesa, visitavam-nas e nelas permaneciam uma semana, como treino e estudo, para ouvirem e verem como aquilo era e se acostumarem a clima e… à convivência com o vizinho boche, que não era para brincadeiras.

Mas a responsabilidade do sector durante esta estadia, pertencia à tropa que o guarnecia do antecedente, que era inglesa.

No mês de Abril de 1917 a tropa que primeiramente chegou a França, da qual o meu batalhão fazia parte, já estava instruída em todas as especialidades e então no dia 4 desse mês, lá vamos de abalada à histórica e sensacional visita.

Fui como comandante do pelotão da 4ª Companhia, comandada pelo competentíssimo e heróico capitão Hermenegildo Bexiga, sendo os outros subalternos os briosos e valentes alferes Palma Mestre e Rafael Sampaio.

«A morte do primeiro soldado do C.E.P.»

Todas as marchas na zona da guerra e principalmente próximo das trincheiras, são feitas com toda a cautela por grupos distanciados de maneira a iludir a vigilância do inimigo e a diminuir, quanto possível, o alvo no caso de nos alvejarem, como muitas vezes sucedia.

Foi com este dispositivo que se iniciou a marcha no referido dia 4. Mas o inimigo não dormia e ao descobrir-nos dos seus observatórios e dos balões cativos que formavam uma fileira de espias em todo o horizonte ao longo e à retaguarda da trincheira alemã, e que estavam continuamente alerta, desencadeou sobre as nossas formações à entrada das trincheiras de comunicação, um forte bombardeamento. Foi debaixo desta chuva de granadas que chegámos e ocupámos as respectivas posições.

Ao meu pelotão pertenceu a guarnição de um posto de 2ª linha juntamente com a tropa inglesa que o guarnecia com a responsabilidade no sector.

O soldado António Curado pertencia ao meu pelotão. Mal tinha chegado ao local que lhe foi destinado, caiu em cima do abrigo onde já se encontrava a arrumar a sua bagagem militar, uma granada de artilharia, que o fez num feixe, dando-lhe morte instantânea [esta versão é diferente daquela que o Marechal Costa Gomes (1863-1929), ex-Presidente da República (1926), escreveu no artigo inserto no número único “Sangue de Heróis”, consagrado pela sua terra a António Curado, em 1929. Nela o antigo comandante do C.E.P. afirmou que “António Gonçalves Curado ocupou o seu posto, esperou o inimigo, bateu-se, até que uma bala lhe estourou o crânio” (pág. 6].

Numa passerelle a servir de maca, à falta doutro meio mais apropriado aonde se ajeitou cuidadosamente, o pobre corpo trucidado, reduzido a um farrapo humano e transportado por dois camaradas, lá foi, sem mais cerimonial, o primeiro soldado português morto em França, a caminho do seu eterno repouso, para o mais próximo cemitério de guerra (HENRIQUES, A. Joaquim; “Memórias”, Caderno nº 4, págs. 14-16).

No caderno manuscrito, número cinco, das “Memórias”, encontramos algumas novas achegas ao anterior relato: sabemos que a sua incursão na 4ª Companhia foi por “empréstimo”. O alferes António Henriques comandava a 2ª Companhia. Também refere no caderno a dificultosa caminhada pelas trincheiras.

Quando inicia o relato da morte do soldado António Curado destaca a infelicidade do soldado nº 234. Pois, era mais natural o soldado sucumbir nas trincheiras, e não na altura em que providenciava o arrumo dos seus haveres:

“O soldado António Curado pertencia ao meu pelotão. Mal tinha chegado ao local que lhe foi destinado, e depois de escapar à barragem na travessia da trincheira de comunicação, não teve a mesma sorte quando já no seu posto arrumava a bagagem militar dentro dum buraco a que se chamava abrigo, sobre o qual caiu uma granada de artilharia que o reduziu a um farrapo humano com morte instantânea.

Numa passerelle a servir de maca, à falta de outro meio mais apropriado, que naquelas circunstâncias era impossível conseguir, se ajeitou o pobre corpo trucidado já sem forma humana e transportado por dois camaradas, lá foi, sem mais cerimonial, o primeiro soldado português morto em França, a caminho do seu eterno repouso, para o cemitério mais próximo” (HENRIQUES, A. Joaquim; “Memórias”, Caderno nº 5, págs. 16-17).

O eterno descanso aconteceria após um longo périplo: primeiramente, o cadáver do primeiro herói português, caído em França, foi sepultado no cemitério inglês de Laventie. Mais tarde, os seus restos mortais seriam transportados para o cemitério português de Richebourg I, Avoué – Talhão 2 – Fila F – Coval 20.

O descanso só terminaria aquando a transladação para a sua terra natal. Encontrando-se sepultado na base do Monumento aos Mortos da Grande da Barquinha.

O contorno trágico em que revestiu a morte do primeiro soldado português na Grande Guerra, constitui-se como símbolo maior de um conflito bélico absurdo e desnecessário. Onde pereceram, injustamente, milhões de vidas, à sombra da ganância e crueldade de alguns dos homens.

Nota: No artigo sobre “ Um torrejano Fotógrafo Oficial da Corte Portuguesa (1)”, do jornal “ O Almonda”, nº 5079, de 25/03/16, pág. 11, cometemos um pequeno erro, fruto da leitura incorrecta do óbito de Cipriano Trincão, onde diz que “ o falecido não deixou descendentes ou herdeiros sujeitos à jurisdição orfanológica”.

O ilustre torrejano, ao contrário do que afirmámos, teve descendentes legítimos. As nossas sinceras desculpas pelo equívoco.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados