SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 19 Junho 2021, 07:53

Torres Novas nas lutas pela Restauração Nacional

Foi com enorme perplexidade que assistimos, por parte do anterior governo, à supressão de quatro feriados que são peças-chave para o conhecimento da nossa cultura e História de Portugal. Erros marcados por uma pueril leviandade que, em boa hora, foi corrigida pelo actual poder político. Apressando-se a devolver aos portugueses o privilégio de poderem festejar os referidos momentos solenes. Onde se destaca, por razões emotivas e emergentes, o 1º de Dezembro, dia da Restauração.

A incongruência dos pretéritos dirigentes é ainda maior quando, nas cerimónias oficiais e documentos do Estado, ordenavam o uso acérrimo da bandeira nacional.

Não acreditamos que tenham aprovado a eliminação do feriado por ignorância do papel crucial que desempenhou o 1º de Dezembro na nossa História. Os nossos manuais escolares dão ênfase a esta inextinguível narrativa. Marcada pelo despertar da alma nacional na defesa da sua integridade colectiva e independência, face ao jugo das forças estranhas que a aprisionaram durante sessenta anos.

O fenómeno da Restauração teve também o mérito de conseguir unir os portugueses, de norte a sul, passando pelas regiões ultramarinas, na luta contra o poderio dos fortes opressores estrangeiros. Prova iniludível da grandeza de uma pátria em que os seus ilustres cidadãos nunca se acobardaram ou foram subservientes face às poderosas nações.

Durante os primeiros anos da luta pela soberania nacional, os senhores de Torres Novas colocaram-se ao lado do novo rei, D. João IV (1604-1656). Logo, nas cortes de 23 de Março de 1641, o então 4º duque de Aveiro, D. Raimundo de Lencastre e a sua mãe, D. Ana de Cardenas, 1ª duquesa de Torres Novas, fizeram-se representar pelo Marquês de Vila Real, jurando como herdeiro o Príncipe D. Teodósio, filho de D. João IV. (Depois da morte do primeiro monarca da nova dinastia, o 2º Duque de Torres Novas, D. Raimundo, iria protagonizar um dos momentos mais tristes da sua nobre casa – o delito de traição. Que culminaria, em 1663, no banimento e confiscação dos seus bens. Recuperados, posteriormente, por D. Pedro de Lencastre, 5º duque de Aveiro e 3º de Torres Novas).

Os esforços na guerra com os espanhóis, tendo como palco principal a província do Alentejo, exigiam cada vez mais o contributo dos nobres que juraram fidelidade a D. João IV. No dia 14 de Outubro de 1645, o rei enviou uma carta ao 2º duque de Torres Novas, D. Raimundo de Lencastre, solicitando-lhe para que o ajudasse na defesa do reino:

“ Honrado Duque, sobrinho amigo: Eu El Rey vos envio muito saudar como aquele que muito amo e prezo. Com os avisos que tive de Alentejo me resolvy (por assy o pedir a necessidade daquelas fronteiras e o estado que hoje tem a guerra naquela província), de que mais principalmente depende a conservação e defensa do Reino, a passar logo a ella dar calor a minhas armas; e porque tanto pelo gosto que me dará ter-vos em minha companhia, como porque a minha e vossa imitação se disponhão milhor os grandes de meus Reinos acompanhar-me e servir-me nesta ocasião, vos encomendo, o mais apertadamente que posso, que logo logo que receberdes esta carta vos partais em meu seguimento com a mais gente de cavalo que puderdes, porque de o fazerdes assy receberey contentamento e serviço muito particular e muito conforme aos que esta Corôa recebeo sempre da Caza de Aveiro que deseyo vêr muito acrescentada em vossa pessoa; e assy o deveis esperar da grande afeição que vos tenho e vos saberey mostrar em todas as ocasiões que se oferecerem. Escrita em Lisboa a 14 de Outubro de 1645” (“Torre do Tombo – Ministério do Reino. Códice nº 533 – Registo das Cartas de D. João IV para diversas autoridades do Reino”, Fol. 1 v.).

Anos depois, outro interlocutor da casa de Aveiro surgia envolvido na contribuição de soldados para o duro combate que se desenrolava em território alentejano. A cinco de Maio de 1648, D. João IV escrevia a D. Ana Henriques de Cardenas (segunda esposa de D. Jorge de Lencastre, 1º Duque de Torres Novas), fazendo-lhe constar o envio de um seu representante com a finalidade de recrutar soldados torrejanos:

“ Mando a Dom Alvaro de Atayde a villa de Torres Novas recondusir os soldados que ahy ouver e levantar alguns de novo, se necessario for, para se remeterem á provincia de Alentejo, encomendo-vos o hajaes assy por bem nesta ocasião e ordeneis aos officiaes que aly tendes dêm a Dom Alvaro o favor e ajuda necessaria para melhor conseguir o jntento a que vay. Escrita em Lisboa a 5 de Mayo de 1648.” (opus. cit., Fol. 262 v.)

Em 21 de Maio o rei escreveu uma nova carta à duquesa de Torres Novas, dizendo-lhe que ia João de Saldanha em lugar de Dom Alvaro de Athayde. A trinta do mesmo mês, D. João IV endereça uma missiva para D. Ana Henriques de Cardenas, na qualidade de administradora dos bens do seu filho, o Duque D. Raimundo:

“ Honrada Duqueza, sobrinha. Eu El Rey vos envio muito saudar como aquella que muito prezo. Mando ao Conde da ErYçeira aos lugares de Aveiro, Montemor o Velho, Pombal e Penella reconduzir os soldados que aly ouver e levantar alguns de novo, se necessario for, para se remeterem á provincia de Alentejo, encomendo-vos que como admenistradora que sois do estado do Duque Dom Raymundo, vosso filho, o hajays assy por bem esta ocazião e que ordeneis aos oficciaes que aly tem dêm ao Conde o favor e ajuda necessaria para milhor se conseguir o intento a que vay. Escrita em Lisboa a 30 de Mayo de 1648” (op. cit., Fol. 265).

O prolongamento da guerra irá ditar novamente a correspondência do rei D. João IV com a 1ª duquesa de Torres Novas. No ano de 1649, o monarca volta a enviar para D. Ana Henriques de Cardenas uma missiva. Na qual refere a ida a Torres Novas do capitão-mor de Alenquer, Tomás Jordão de Noronha, a fim de “providenciar algumas diligências [do seu] serviço respeitantes à guerra” (opus. cit., Fol. 155).

Passados alguns meses, faz saber à duquesa de Torres Novas a substituição do seu anterior representante:

“Honrada duquesa sobrinha. Eu El Rey vos envio muito saudar como aquella que muito preso. Por carta de 11 de mayo vos mandey encomendar ouvesseis por bem que Dom Thomaz Jurdão de Noronha escolhesse alguns soldados com titulo de auxiliares para estarem promptos se se offerecer occazião pello tempo adiante em que seja necessário virem socorrer esta cidade; e porque esya deligencia está hoje cometida a Diogo de Saldanha, capitão mór de Santarém, e não ao dito Dom Thomaz, vos encomendo passeis para Diogo de Saldanha a ordem que creio teres já passado o dito dom Thomaz. Escrita em Lisboa a 28 de Setembro de 649” (opus. cit. Fol. 174).

Durante largos anos milhares de soldados portugueses estiveram em guerra com o exército espanhol. No conturbado período das lutas pela independência nacional, D. João IV socorreu-se de todos os homens capazes para suster as investidas do inimigo. Muitos deles oriundos da casa de Aveiro, donatários da vila de Torres Novas.

A paz sobreviria já no reinado de D. Pedro II (1648-1706), através da assinatura do Tratado de Lisboa, em 1668, pondo fim às guerras da Restauração. Para a História ficaria gravada a ouro a heróica luta levada a cabo por um punhado de homens que recusaram uma servidão estranha. Recolocando no coração dos portugueses a esquecida grandeza e o orgulho por um passado ímpar no contexto da História das Nações.

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