SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 19:41

A Instrução elementar dos nubentes torrejanos no início da República

Uma das grandes apostas preconizadas pelo regime republicano, instituído no dia 5 de Outubro de 1910, incidiu sobre a educação. Consideravam-na o esteio principal para a erradicação da elevada percentagem de analfabetismo presente na sociedade portuguesa. Peça-chave para a constituição de cidadãos conscientes e livres.

As enormes taxas percentuais, de pessoas que não sabiam ler e escrever, eram um entrave para a consolidação e progresso da nova ordem instituída. Segundo os eminentes pedagogos republicanos o termo República não se encontrava dissociado da educação. Para a sobrevivência do regime democrático emergente, impunha-se a implementação de uma rede à escala nacional de alfabetização dos adultos e o impedimento do analfabetismo nas crianças.

Era do consenso geral que a cidadania implicava a existência de seres instruídos. Só desta forma poderiam exercer conscientemente o seu papel de forma autónoma.

Ao longo dos primeiros anos da República fizeram-se importantes reformas na educação com vista a debelar o analfabetismo. Verdadeira chaga colectiva que minava o projecto da construção de uma nova sociedade.

Mas os resultados ficaram aquém das expectativas, inicialmente profetizadas pelos seus teóricos. Basta salientar, que nos primeiros quatro anos, a cifra de analfabetos nubentes ainda se mantinha em valores próximos dos 70 por cento. Registando-se até, em alguns concelhos, retrocessos.

Mesmo os avanços iniciais na eliminação do analfabetismo foram diminutos: na crítica aos dados estatísticos do estado da instrução dos nubentes, entre 1911 e 1914, no distrito de Santarém, o analista previa que, os recém-casados do sexo masculino, só estariam todos letrados em 115 anos (“Progresso da instrução elementar em Portugal – desde a proclamação da República. Instrução dos nubentes”, Distrito de Santarém, Folha para vulgarização – IV R”, Imprensa Nacional,1915, pág.1).

Os dois quadros que integram a segunda página, da referida folha, dão-nos um parecer objectivo sobre as variações ocorridas durante o período em causa. Através do número de casamentos registados entre os anos de 1911 e 1914, e o progresso anual da instrução dos nubentes no distrito de Santarém.

No que diz respeito a Torres Novas, no ano de 1911, ocorreram no concelho 206 casamentos. Nestes assinaram o termo do registo 106 varões e 58 fêmeas. Em 1912 o número de casamentos aumentou para 345, tendo escrito o registo 172 homens e 94 mulheres. Já no ano de 1913, o número de casamentos decresceu um pouco: atingiu o número de 302 matrimónios. Assinaram 160 varões, enquanto o número de mulheres cifrou-se em quase metade: 84.

No último ano a que se reporta o estudo (1914), no nosso concelho verificaram-se 268 casamentos. Escreveram o termo do registo 165 homens e 87 mulheres.

Comparando as percentagens, vemos que houve um decréscimo no número de analfabetos dos dois sexos no concelho de Torres Novas. Em 1911, a percentagem de não-assinantes foi de 60,2; em 1912, registou-se o ligeiro aumento percentual para 61,5. Nos dois anos seguintes desceu: em 1913 para o valor de 59,6 por cento; sendo, em 1914, a descida mais acentuada – 53,0 por cento.

Dentro do panorama geral do distrito, o nosso concelho integrava o grupo daqueles que tinham o menor número de iletrados recém-casados. A par do Cartaxo, Constância, Barquinha, Sardoal, Benavente, Alcanena e Golegã (entre 50 e 60 por cento). De realçar que na altura, a percentagem de analfabetos nubentes, no concelho de Santarém, situava-se entre os 70 e 80 por cento. Chegando a ultrapassar estes valores percentuais os concelhos de Coruche e Almeirim.

Tendo em conta cada um dos sexos, em 1914 o concelho torrejano, tal como o recém-criado concelho de Alcanena, detinham uma das taxas mais baixas de iletrados nubentes do sexo masculino: entre 30 e 40 por cento. Só ultrapassada pelo do Sardoal (20 por cento).

Nas mulheres, a percentagem de analfabetismo (como seria de esperar), era muito maior. No concelho de Torres Novas, os valores situavam-se entre os 60 e 70 por cento. Abaixo da média distrital (77,5). O mesmo acontecia nas povoações de Tomar, Benavente e Alcanena.

As percentagens mais baixas eram as do Cartaxo e Golegã, com índices entre os 50 e 60 por cento. Enquanto os valores mais elevados pertenciam aos concelhos de Coruche, Alpiarça e Mação. Com taxas superiores aos 90 por cento.

Entre 1911 e 1914, Torres Novas foi um dos concelhos em que se registou um ligeiro progresso na eliminação dos iletrados nubentes do sexo masculino. Apenas 5 concelhos, de um total de 18 (Alcanena e Alpiarça não foram tomados em conta, visto terem sido criados recentemente os dois concelhos), apresentaram algum retrocesso. Mantendo-se estacionário o concelho de Coruche.

Já o panorama, no que diz respeito à instrução do sexo feminino, é desolador. Retrogradando um quarto por cento por ano no distrito de Santarém. O concelho de Torres Novas foi um dos que escapou a esta dura realidade.

Algumas das principais características apontadas na folha, referentes ao nosso distrito, passavam por alertar para o acentuado iletrismo do sexo feminino (cerca de 22 por cento maior que o dos homens); para o progresso desigual em diferentes zonas do distrito e ao incremento pouco acentuado do alfabetismo. A conjugação destes vários factores colocava Portugal na cauda da Europa, em termos de educação.

O regime republicano ainda tentou inverter o problema. Mas a fraca importância dada pelo povo rural ao papel da escola e as permanentes dissensões entre os políticos, impediram que se fizesse um ataque eficaz ao analfabetismo.

A ditadura salazarista pouco fez para modificar este pesado fardo de obscurantismo e ignorância que assolavam uma grande franja da empobrecida população portuguesa. Circunstâncias que, ainda hoje, vamos suportando, embora a revolução de Abril tenha aumentado a escolaridade obrigatória e estendido o ensino a um leque maior de jovens.

Actualmente, os problemas ligados às elevadas taxas de analfabetismo foram substituídos por outros similares, vestidos de novas roupagens, como: o insucesso escolar, o abandono precoce e a indisciplina… Estes entraves, em parte, acontecem, fruto do desinvestimento, do Estado, das famílias e dos alunos face à escola. Não a reconhecendo como factor preponderante na mobilidade social e como entidade imprescindível para a formação integral dos jovens.

Nota: No penúltimo artigo sobre “ Um Torrejano Fotógrafo Oficial da Corte Portuguesa” faltou-nos referir que além de “ O Almonda”, também (um ano depois), a “Revista Nova Augusta”, nº 25, de 2013, págs. 261- 264, divulgou os trabalhos do ilustre fotógrafo torrejano. As suas linhas são a réplica inteira do texto existente no Arquivo Municipal, que foi, por nós, objecto de alguns reparos. Por mero acaso abrimos a referida Revista, deslindando, assim, o facto de o texto integrar o espólio Municipal.

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