SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 17 Junho 2021, 00:12

Uma Singela Homenagem a António Chora Barroso

No próximo dia 10 de Abril, passam os cem anos do nascimento de António Chora Barroso (1916 – 1978). Figura marcante da nossa história local do século XX, o ilustre torrejano é o exemplo maior do inquebrantável amor pelas gentes e pela terra que o viu nascer.

Da enorme dedicação ao povo simples e trabalhador do seu torrão natal, nasceu da pena de Chora Barroso três obras fundamentais sobre a história e a cultura da sempre amada freguesia dos Riachos. Terra que nunca esqueceu, apesar do ilustre torrejano ter vivido, por razões profissionais, durante um largo período em outras paragens. Entrecortadas por breves retornos à sua terra natal.

Esta prolongada ausência culminou na sua morte, em Lisboa, a 18 de Junho de 1978. Longe da sua saudosa e querida vila ribatejana.

Mas nem mesmo o “forçado exílio” de Chora Barroso demoveu-o da firme ideia de ser enterrado no lugar de nascimento. Indo ao encontro da sua última vontade de “ No [seu] povoado [se] tornar em pó”.

Muitas das palavras que António Chora Barroso escreveu no jornal “ O Almonda” (nº 2334, de 5 de Março de 1966, págs. 5 e 6), a propósito de uma outra incontornável figura torrejana, José Lopes dos Santos, adequam-se plenamente ao seu carácter e personalidade: também a vida do ilustre riachense foi devotada “a servir os outros”. Irmanada no eterno ideal quixotesco de lutar por uma Humanidade onde imperem os verdadeiros valores cristãos.

José Lopes dos Santos cumpriu-o através da sua intervenção filantrópica e benemérita na sociedade torrejana. Onde se destacam o seu envolvimento na Cantina Escolar, Bombeiros, etc.

Chora Barroso através do ensino e da pedagogia. Na crença de que só a sã educação cristã pode tornar-nos melhores. No exercício da sua actividade docente procurou atingir esse objectivo, ajudando a “criança [a constituir-se] [como] um homem bom e feliz” (BARROSO, Chora; “Fins da Educação”, 1952, pág. 30).

Uma outra característica uniu estes dois ilustres torrejanos: o amor à poesia. Mais vincado e profícuo em José Lopes dos Santos. De Chora Barroso conhecem-se algumas produções poéticas, publicadas na sua rubrica, do jornal “ O Almonda”, com o título “Amanhecer”.

Em jeito de homenagem deixemos no presente artigo a transcrição de um seu poema. Onde emana a apurada sensibilidade do ilustre riachense. Num belíssimo hino à infância e à sábia oliveira da escola primária da sua terra. Lugar de reencontro das felizes memórias de uma geração separada pelas vicissitudes da vida.

O poema saiu no número 4 da página “Amanhecer”, no dia 19 de Setembro de 1964. É dedicado ao seu amigo Francisco Pereira, que na altura se encontrava na colónia portuguesa de Moçambique:

«A Velha árvore da minha infância»

Ao querido amigo Francisco Pereira, agora em Moçambique

Quando voltares à Terra que te viu nascer

visitarás

a escola.

Verificarás

que a velha árvore que nos dava sombra,

à hora do recreio, desapareceu.

Sentirás, tal como eu sinto,

e ao afirmá-lo creio que não minto,

a perda da velha oliveira

que um dia nos acolheu,

risonha e amorosa,

quando meninos que fomos, buscámos o saber

na escola da Raposa.

Era uma árvore imponente

de tronco encarquilhado e dorido

mas elegante ainda no seu senhoril aspecto.

Debaixo dela traçaste

O ângulo agudo, o obtuso e o recto,

a circunferência com a baraça do pião,

a corda, o raio a tangente

e, todo contente,

aos colegas ensaiaste a lição.

A oliveira da infância que passou,

erguida a meio da estrada poeirenta

era minha,

era tua,

era de toda a gente

porque a sua alma ainda aviventa

a quantos passam pela escola,

em especial aos que dobraram os 40.

Morreu cansada de tanto bem fazer

à criançada que por ali passou.

A nossa geração anda triste

porque agora já não existe

a oliveira velha que nos ensinou;

a oliveira que nos oferecia as raízes ressequidas

que rasgavam em dor o rijo solo;

que nos sentava meigamente a seu colo

como se fosse avó de todos nós,

e a todos quisesse ouvir

o ciciar da voz do pensamento,

às vezes, em ingénuo lamento.

– Anda cá menino. Toma aqui assento

junto de mim…

Descansa no meu tronco velho e magoado…

Assim… Assim…

Repete comigo a lição que vais dar,

para eu te ensinar

as palavras difíceis do ditado…

E eu sentei-me

e tu sentaste-te

e ele sentou-se…

… … … … … … … … …

Por isso a velha oliveira

de espírito suave e doce

criou raízes na pequenada,

nesta alma saudosa e torturada,

que hoje e sempre, sempre como hoje,

há-de saber, para sempre, recordá-la.

Junho – 1964 A. Chora Barroso

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