SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 19:05

Um Torrejano Fotógrafo Oficial da Corte Portuguesa (1)

Vivemos num mundo imerso de imagens no qual a fotografia assume-se como um dos seus grandes esteios. A moda dos selfies e a inconsciente necessidade de imobilizar a fugacidade do tempo que passa, levaram a que uma infindável multidão de indivíduos se munisse dos imprescindíveis apetrechos técnicos, com o intuito de melhor divulgarem as suas vivências ou situações que mereceram o seu enfoque pessoal.

O excesso de imagens que circulam pelas redes sociais (a propósito de tudo e de nada) teve o ensejo de obliterar a essência mágica e irrepetível que a verdadeira fotografia enferma.

Desprovida da sua aura, a desmesurada banalização das fotos tornou-nos menos despertos às coisas e aos pormenores que merecem a nossa atenção. Tornando-se quase inapreensível, ao olhar comum, a zona visível do invisível que de forma efémera se nos revela. Outrora perceptível ao olhar perscrutador dos amantes da fotografia.

Não quer isto dizer que a fotografia tenha alcançado, desde o seu início, a importância que hoje os críticos reconhecem. Para atingir a sua maioridade artística teve que lutar com a acérrima resistência de muitos detractores. Que a perspectivavam como uma mera técnica. Inferior à pintura.

Os primeiros passos feitos para a valorização da fotografia foram marcados pelas importantes contribuições do ribatejano Carlos Relvas (1838-1894). Do distinto fotógrafo amador goleganense muito se disse em conceituadas biografias e ensaios sobre a história da fotografia em Portugal. Não nos interessando, por essa razão, aprofundar os aspectos ligados ao seu excelente trabalho.

O nosso pequeno artigo tem como propósito revelar (e corrigir!?) alguns dados sobre um quase desconhecido fotógrafo torrejano que, no princípio do século XX, firmou-se como um dos mais destacados técnicos da arte fotográfica. Cooperando também para o engrandecimento da nova arte emergente (O jornal “O Almonda”, nº 4888, do dia 20/07/2012, deu a conhecer ao público-leitor torrejano este ilustre conterrâneo).

Cipriano Antunes dos Santos Trincão, natural da freguesia de Lapas, era filho de Francisco Antunes Trincão e de Clara Benedita dos Santos Trincão. Na pequena aldeia banhada pelo Almonda nasceu a 17 de Dezembro de 1874.

Os primeiros estudos foram efectuados em casa com o recurso a professores particulares. Em Torres Novas, continua a sua aprendizagem. Agora num colégio religioso, onde faz o primeiro ciclo do liceu.

A formação secundária levou-o às terras do Mondego, conseguindo o feito de se matricular na Faculdade. Estabelecimento de ensino que frequentou durante dois anos. A morte do progenitor rouba-lhe a possibilidade de concluir os estudos superiores. De volta à aldeia natal, passa o tempo na herdade dos pais, ocupando os seus dias em múltiplas actividades. Entre elas o estudo da fotografia.

Por vezes, ausentava-se da sua aldeia para viver na casa da sua tia, em Lisboa (cidade de que era natural a sua mãe).E foi na capital portuguesa que veio a conhecer a sua futura esposa, alguns anos mais nova, Catarina Luísa (na certidão de óbito do nosso ilustre torrejano consta, julgamos que, erradamente, Lúcia) Vaz Pinto. Desta união não resultaram descendentes legítimos.

Amante da fotografia, Cipriano Trincão foi para Paris, no ano de 1901, para aprender os seus segredos e técnicas com os mais reputados fotógrafos. Também uma parte da sua formação realizou-se em Londres. De regresso a Portugal, empregou-se na conhecida casa de fotografias Worm(!?) (julgo que não é Warm, como consta no jornal “O Almonda” e no pequeno texto sobre Cipriano Trincão existente no Arquivo Municipal da Biblioteca Gustavo Pinto Lopes).

A conceituada firma Worm & Rosa era proprietária do “Boletim Photographico” (1900 -1914). Revista especializada que ia ao encontro das necessidades de um vasto número de fotógrafos amadores e profissionais, que procuravam aprender e aprofundar os meios técnicos ligados à arte fotográfica. O boletim serviu também como meio de divulgação dos trabalhos dos nossos fotógrafos. Cipriano Trincão fez parte do número de autores nacionais que viram as suas fotografias publicadas na famosa revista.

Em 1901, Cipriano Trincão foi nomeado fotógrafo oficial da corte. Este cargo, atribuído ao ilustre torrejano, é revelador do reconhecido estatuto que alcançou, à época, na difícil arte de fotografar. A Casa Real escolhia para seus fotógrafos os melhores da altura. A ela estiveram associados conhecidos nomes, como o de Augusto Bobone (1825-1910) e Emílio Biel (1838-1915).

Autor de mais de mil preciosas fotografias (o que na época era um facto assombroso, dada a complexidade de processos, custo dos materiais e apetrechos implicados na feitura das fotos), as imagens tiradas por Cipriano Trincão já justificavam, por parte das entidades culturais torrejanas, uma urgente divulgação em livro.

Jóias superlativas de elevada beleza artística. A ela se juntam o inestimável valor histórico e cultural. Muitas das suas fotografias são um testemunho privilegiado da história do concelho de Torres Novas, no início do séc. XX. Como as que retratam as várias transformações da actual Praça 5 de Outubro.

(Continua)

Nota: No último artigo “ A verdadeira data de nascimento da actriz Virgínia”, por distracção cometemos duas gralhas: a primeira, no primeiro parágrafo do texto, onde diz “ Virgínia Dias da Silva (1850-1952). Deveria constar “Virgínia Dias da Silva (1850-1922). A segunda onde se faz alusão à data enunciada por Artur Gonçalves nos “Anais Torrejanos”: “…refere o dia 20 de Abril de 1859”. O correcto seria“… refere o dia 20 de Abril de 1850”. Na legenda da caricatura da actriz torrejana, que acompanha o texto, são visíveis as verdadeiras datas do seu nascimento e da sua morte. Como realçamos, o que aconteceu foi fruto de uma mera desatenção. As nossas sinceras desculpas.

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