SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 15:32

A verdadeira data de nascimento da Actriz Virgínia

Por lapso, o ilustre torrejano Artur Gonçalves (1868-1938) cometeu, nas três vezes em que faz referência ao nascimento da grande actriz torrejana Virgínia Dias da Silva (1850-1952), o equívoco de apontar para datas que não correspondem ao verdadeiro dia natalício da grande diva do Teatro Nacional.

Esta inusual falha, do emérito historiador, tem ocasionado a que apareça, em alguns textos de investigadores menos atentos, a incorrecta referência.

A origem do desculpável equívoco aconteceu, primeiramente, nas páginas do jornal “O Almonda” nº 180, do dia 1 de Janeiro de 1923. No artigo especial feito por Artur Gonçalves, sobre a famosa actriz, na sua rubrica “Torrejanos Ilustres” – CXXXII, pág. 3. Respondendo ao pedido endereçado pela direcção, no número de gala do reconhecido hebdomadário (4º aniversário).

Alguns parágrafos mais à frente do artigo, o ilustre historiador torrejano, faz a transcrição integral do assento de baptismo da actriz (fl. 90 do Livro 5º de Baptismos da freguesia do Salvador). Onde aparece de forma sucinta a referência à data de nascimento da primeira actriz do teatro português. Só que, Artur Gonçalves, em vez de referir 19 de Março, coloca, inadvertidamente, o dia 29 do citado mês.

Este pequeno lapso repetir-se-á no seu primeiro grande livro dedicado à nossa história: “Torrejanos Ilustres”, 1934, pág. 459. Constituído por um extenso conjunto de biografias – algumas revistas e acrescentadas – do escol de Homens que ilustraram e dignificaram Torres Novas.

Anos depois, o historiador torrejano volta a reincidir no mesmo erro. Agora, na sua obra póstuma, “ Anais Torrejanos”, publicada em 1939. Numa das páginas do livro, sobre os episódios mais marcantes da nossa história, a dado passo, refere o dia 20 de Abril de 1859 (op. cit., pág. 93), como a data de nascimento da ilustre torrejana. Cometendo um duplo engano: tanto o dia como o mês não correspondem ao preciso momento em que a famosa actriz veio ao mundo na sua antiga casa. Situada na actual rua Alexandre Herculano (“Torrejanos Ilustres”, pág. 458). O assento de Virgínia indica 19 de Março. O dia 20 de Abril reporta-se à celebração do seu baptismo.

Poderíamos julgar que bastaria esta prova documental para defendermos incontestavelmente a veracidade da data. Ora, na nossa perspectiva, nem sempre os registos antigos são uma prova fidedigna e segura sobre a data de nascimento ou morte de uma pessoa. É do conhecimento geral que algumas datas que constam nos velhos documentos não se adequam à verdade ou geram, em nós, alguma suspeita. A título de exemplo posso citar o caso ocorrido com a minha saudosa e querida mãe – no seu registo de nascimento está escrito o dia 13 de Janeiro. Mas na realidade, o milagroso dia natalício aconteceu a três de Janeiro. Confissão feita directamente pelos seus pais.

Também, em relação à data de nascimento da inolvidável actriz torrejana Virgínia Dias da Silva, temos o seu testemunho directo. A importante passagem encontra-se inserta no belíssimo livro “Teatro e Artistas”, de J. M. Teixeira de Carvalho (1925). Obra a que voltamos, novamente, com agrado.

A confissão da artista torrejana encontra-se na primeira parte do texto – “Crónicas de Teatro”, intitulada “Suave Milagre” (op. cit., págs. 103-113). Onde a ilustre Virgínia entabula uma conversa com o escritor e amigo do casal Joaquim Teixeira de Carvalho.

O magnífico dia prenunciava a chegada da primavera. À varanda os dois amigos conversavam.

Ao longe, na deslumbrante paisagem, avistava-se o convento de Santa Cruz, onde a imagem da Virgem Nossa Senhora rezava.

A luz do sol no cimo da colina brincava “sobre a relva verde, cheia de flores douradas, que já anda[vam] a anunciar com um riso de ouro, a chegada da primavera” (op. cit., pág. 104). Neste maravilhoso cenário, Virgínia da Silva revela-nos o seu dia de nascimento em conversa com o escritor.

Acompanhemos então as suas palavras. Desconhecidas de muitos torrejanos:

“ (…) – É animado isto, entretém. É assim todos os dias, Quim?

– É.

– Eu julguei que este movimento fosse extraordinário. É hoje dia santo…

– Ora! Dia de S. José! Um dia santo novo. Ainda a gente não se habituou a guardá-lo.

– Não digas mal de S. José.

-Eu?!

– É um dia de que eu gosto muito.

– Eu gosto mais do S. João. Anda gente pela rua toda a noite.

– S. José… Não dizes nada? … Faço hoje anos.

– Parabéns. Por isso encontra tudo bonito. Eu, quando faço anos, o dia parece-me mais lindo, e é então que reparo que já estamos na primavera. Acho sempre tudo animado, mais gente pela rua; às vezes até me parece gente a mais.

– Ah!

– Ri-se?

– Não. Gosto de te ouvir. Vais ao “Suave Milagre”?

– Isso é para me ouvir dizer mal?

– Não! É porque gostava que fosses. Gostava de te ouvir depois.

– Vens ou não vens?

– Lá vou Ferreira. Adeus Virgínia. Até logo” (op. cit., págs. 104-105).

Nesse dia, 19 de Março, a nossa ilustre actriz e o seu marido Ferreira da Silva interpretariam de forma superlativa a peça “ O Suave Milagre”. Obra adaptada pelo Conde de Arnoso de um conto homónimo, escrito pelo seu falecido amigo – O imortal Eça de Queirós.

Este inesquecível episódio estaria votado ao limbo do tempo, não fora a admiração que Teixeira de Carvalho devotava à nossa ilustre torrejana. Através da sua pena soube recriar o terno testemunho feito pela grande actriz Virgínia da Silva, a propósito da data do seu nascimento. Que, por coincidência, corresponde ao dia de S. José. Hoje, também designado por “dia do Pai”!

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