SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 08:29

Identidades Literárias Trocadas

Ao Sol da minha Vida…!

Que se apagou, num triste dia do mês de Janeiro.

No mundo da literatura muitos autores adoptaram uma identidade contrária à do seu sexo, assumindo um pseudónimo diferente do seu género. Esta escolha, a maior parte das vezes inconfessada, traduz, na realidade, a própria natureza do eu-humano, que enferma duas dimensões aparentemente opostas: a masculina e a feminina.

São diversos os casos de escritores conhecidos que se aventuraram pelas regiões psíquicas da sua alteridade. Conseguindo criar uma personalidade literária autónoma, diferenciada da sua própria natureza genérica.

Nesta significativa plêiade de autores, podemos referir o exemplo da escritora portuguesa – hoje, injustamente esquecida – Irene Lisboa (1892-1958). Que escreveu algumas das suas importantes obras sob os pseudónimos masculinos João Falco e Manuel Soares. O primeiro, dentro das suas criações literárias e poéticas. Enquanto o segundo, foi utilizado com a finalidade de divulgar as suas ideias pedagógicas e trabalhos teóricos.

Os condicionalismos sociais (que só por si não explicam a escolha) também levaram algumas escritoras femininas a perfilharem um pseudónimo masculino. Na literatura universal é sobejamente conhecido o nome de George Sand (1804-1876), pseudónimo masculino da parisiense Amandine Aurore Lucile Dupin.

Em sentido inverso, encontramos exemplos de célebres escritores masculinos – é o caso de Fernando Pessoa (1888-1935) – que escreveram debaixo da roupagem feminina. Na plural fragmentação do eu pessoano, houve lugar para a criação de um heterónimo feminino, com o nome de Maria José. Uma corcunda, presa na fealdade do seu corpo doente. Da sua janela, a jovem paralítica, saída da psique pessoana, vê passar o mundo, sonhando ser como os outros, como os imagina.

O nosso maior poeta português atribuiu-lhe a autoria de uma não remetida carta para o serralheiro António. Num texto onde a jovem põe a sua alma inteira e o inatingível amor que sente pelo esbelto homem. Revelando as palavras do heterónimo feminino, dissimuladamente, o propalado distanciamento de Fernando Pessoa por uma vida familiar preenchida pelo amor e pela paixão. Comummente vivida pelo mais vulgar dos casais.

No caso das letras torrejanas salta-nos à memória dois autores, Maria Lamas (1893-1983) e Andrade Corvo (1824-1890), que enveredaram pelo invulgar caminho de adoptarem uma identidade literária contrária ao seu género.

Além da sua conhecida faceta de escritora e ensaísta, Maria Lamas destacou-se, também, como uma eminente tradutora de obras clássicas da literatura universal e infantil. É neste prisma que deparamos, numa das suas múltiplas traduções, com o seu pseudónimo masculino, Daniel Cardigos. A obra (traduzida do francês) é do escritor F. E. Rodriguez e intitula-se “ A Escada de Ferro”. Tem a chancela da editora Ulisseia.

A acção do livro decorre em plena Segunda Guerra Mundial e confidencia os pensamentos e a vivência do prisioneiro Rodriguez nos campos de concentração nazi. Trata-se de um relato pungente, na primeira pessoa, sobre as atrocidades perpetradas por seres nossos semelhantes. Que a pretexto da guerra cometeram as mais hediondas selvajarias e bestialidades.

Podem ter existido outras razões para que Maria Lamas optasse pelo pseudónimo masculino, mas esta escolha, por parte da ilustre torrejana, poderá estar relacionada com a sua tentativa de melhor encarnar a alma torturada de um homem condenado nos calaboiços nazi. Ao longo de mais de duzentas páginas, que compõem a obra, vamos dando conta, em tom confessional, das traumatizantes experiências vividas pelo preso Rodriguez (o agente secreto Eduardo Rodney).

Também o torrejano ilustre Andrade Corvo não se imiscuiu de enveredar pelos meandros psicológicos e emocionais contrários ao seu sexo. Em 1861, a “Revista Contemporânea de Portugal e Brasil”, volume III, nº 1, editou um extenso poema da sua autoria, dividido em oitos partes, com o título “ O Beijo do Diabo” (págs. 18 a 27). Debaixo do pseudónimo Sophia da Soledade.

Os primeiros versos do poema introduzem-nos num ambiente bucólico, onde uma bela virgem descansa pensativa sobre as flores. Os rumores da natureza fazem-na cair num estado de melancolia. “Sente que um segredo existe que não pode decifrar”. A noite apressa-se a cair sobre a floresta. Nas asas do sonho a virgem Martha sobe à mansão celestial. Um amor puro é-lhe dado a contemplar. Amor divino e casto, vivido pelos seres humanos antes da sua queda. Ocorrida no momento em que o homem trocou o amor divino pelo amor impuro. Causa do rastro de dor que acompanha o seu destino terreno.

As asas do sonho celestial em que o espírito de Martha se evola, são assombradas por um pesadelo. Uma mudança brusca na harmonia da natureza pressagia a sua queda fatal. Revela-se, agora, “ severa, rude, fúnebre, envolta na tristeza: Como se ao caos gélido quisesse enfim voltar.”

Era um tremendo sonho aquele que Martha presenciava.

Nisto vê surgir de uma escura caverna um formoso mancebo. “Treme de susto, hirta de espanto ao ver aquela aparição pasmosa.”

Os sentidos despertos destroem-lhe a “pura castidade”. O jovem mancebo aproxima-se, dá-lhe um prolongado beijo que incendia a torturada alma de Martha. Vendo fugir-lhe a inocência.

Não mais recobrará a sua sanidade. O mortífero “beijo do diabo” consome-a, assim como a enganosa luz atrai a formosa borboleta.

As “tímidas donzelas” vendo o estado de Martha, apelam aos céus para que tenham dó pela “virgem louca”. Presa num fatal delírio. (SOLEDADE, Sophia; “O Beijo do Diabo”).

Esta descida aos ” infernos da paixão feminina” levou Andrade Corvo a adoptar um pseudónimo feminino. Para que, deste modo, pudesse interiorizar os cambiantes acordes emocionais da alma feminina, presa na teia dos sentidos. Uma prática que na História da Literatura tem uma longa tradição. Com o objectivo de compreender o ser humano na sua totalidade (feminino/masculino).

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