SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 14:02

Um Emérito Torrejano Especialista em Camões (2)

A presente edição da obra, do nosso príncipe maior dos poetas, destinava-se a todos os graus de ensino. Principalmente aos jovens que cursavam os últimos anos da instrução básica. Mas, para isso, foi necessário acompanhar as estrofes, que integram os dez cantos da grandiloquente epopeia nacional, por esclarecedoras notas de rodapé. Só, desta forma, é que os mais novos puderam aceder, sem dificuldades, ao complexo universo literário e cultural camoniano.

O assinalável feito didáctico deveu-se à pena do ilustre torrejano António Antunes Vieira (Artur Viegas). Reconhecido como um dos grandes especialistas de Camões e reputado classicista.

Mas, nos dias de hoje, os moldes em que o livro saiu do prelo, suscitariam um coro de protestos: muitas das estrofes foram mutiladas e outras omissas. Com enorme destaque para as que se encontram no célebre canto nono, de “Os Lusíadas”. Referente à primeira parte do episódio da “Ilha dos Amores”.

Este acto voluntário de censura é explicado por Artur Viegas na introdução da obra. O ilustre torrejano pretendia “expungir [do livro] os passos mais inconvenientes e escabrosos”, preservando as almas dos jovens “ de perigosas leituras ”. Para que a sua tenra inteligência e coração, pudessem vicejar na sã rectidão moral.

Justifica também a opção por estar de acordo com as “sensatas prescrições de vários programas oficiais”.

Hoje, podemos questionar a exagerada rigidez dos cortes efectuados pelo nosso ilustre conterrâneo. Há passagens suprimidas na edição da obra “Os Lusíadas”, que se fossem do conhecimento do jovem leitor hodierno, não poriam em causa o seu correcto desenvolvimento.

Não obstante acusarmos o ilustre torrejano Artur Viegas de excesso de zelo, a sua edição de “Os Lusíadas” teve o mérito de colocar à disposição de todos os alunos, uma das obras fundadoras da nossa portugalidade. Possibilitando-lhes (mesmo com os cortes) familiarizarem-se com a superlativa epopeia de Camões.

Nos nossos dias, o problema da censura ao livro “Os Lusíadas”, ou a outra qualquer obra, não se colocam. Mas isto não implica que a actividade da leitura esteja isenta de constrangimentos. Novos obstáculos interpelam os presentes actores educativos. Mais difíceis de transpor. Entre eles, cimentar nos alunos o gosto pelos autores clássicos.

Submersos na espuma dos dias, as leituras dos jovens flutuam entre os imperativos do marketing pseudocultural e a escolha de obras banais. Factores contraproducentes para o desenvolvimento integral do seu espírito crítico.

O sistema de ensino ainda tenta remar contra esta perniciosa vaga de superficialidade e embrutecimento. Ao constituir-se como um dos baluartes onde os alunos estabelecem o primeiro convívio com a chamada literatura nobre. Só que, o panorama actual, não é motivo para grandes regozijos: nos nossos dias é impensável vermos um jovem do ensino básico dedicar o seu tempo de lazer na leitura de “ Os Lusíadas” (ou de algum dos clássicos da literatura universal). O que acontecia no século XX. Nos anos em que a obra de Camões, anotada por Artur Viegas, fazia parte do então plano nacional de leitura.

Ultrapassando esta curta reflexão sobre os gostos literários dos nossos jovens, voltemos à obra “Os Lusíadas”, para dar a conhecer ao leitor algumas omissões significativas feitas pelo ilustre torrejano, António Antunes Vieira.

O primeiro corte acontece no Canto segundo, entre a estrofe trinta e quatro e a trinta e oito, inclusive. Desta última, apenas saíram ilesos os dois versos finais. Falam, principalmente, da deusa Diana e da sua sensual nudez e formosura.

O Canto terceiro também não escapou ao crivo do censor torrejano. As últimas quatros estrofes do Canto não aparecem na edição (cento e quarenta à cento e quarenta e três).Versam assuntos de natureza carnal.

O Canto quarto não sofreu quaisquer cortes. Já no quinto foram suprimidas os três últimos versos da estrofe cinquenta e dois, e as estrofes seguintes até à cinquenta e cinco, inclusive. Mais uma vez a sensualidade carnal, inerente aos autores clássicos, é expungida pelo nosso conterrâneo. Há razões para aceitarmos o seu procedimento: alguns versos destas estrofes, não devem ser lidas pelos mais jovens. Ainda em formação pessoal e moral.

No Canto sexto assistimos a pequenos cortes num número reduzido de versos das estrofes. Apenas a estrofe dezoito é integralmente suprimida (surgem referências à nudez do corpo). Nos Canto sétimo verificam-se também diminutos cortes em alguns versos. Já o Canto oitavo sai incólume à censura.

É no Canto nono onde se faz sentir com maior ímpeto a tesoura censória de Artur Viegas. O que é natural. O episódio da “Ilha dos Amores” descreve o encontro amoroso entre os nossos marinheiros e as Ninfas. Várias estrofes estão impregnadas de um exuberante erotismo. Onde o amor é colocado como tema central. Os cortes estendem-se da estrofe vinte e dois até à cinquenta. Mais à frente, no mesmo Canto, a supressão vai da estrofe sessenta e cinco até à oitenta e três. Num Canto que contém noventa e cinco estrofes, mais de metade foram literalmente suprimidas.

Actualmente, não existem quaisquer impedimentos, por parte dos alunos, à leitura do referido Canto. A “Ilha dos Amores” é objecto de análise literária desde o 9º ano. Mas duvidamos que os jovens tenham a curiosidade em ler as descrições feitas por Camões. Cingem-se, muitas das vezes, aos resumos dos manuais de apoio.

No último Canto de “Os Lusíadas” (Canto décimo) os cortes limitam-se a alguns versos da estrofe número cento e vinte e dois.

Findo este breve excurso sobre a presente edição, resta tecermos ao autor torrejano, Artur Viegas, os mais rasgados encómios. Auxiliados pelas suas profusas e esclarecedoras notas, muitos jovens fizeram com enorme sucesso a viagem pelo Epos da nação portuguesa. Onde se inteiraram dos feitos grandiosos e heróis da nossa História-Pátria. Hoje muito maltratada!

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