SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 19:34

Um Emérito Torrejano Especialista em Camões (1)

Entre os grandes vultos torrejanos ligados à Companhia de Jesus, encontra-se o padre António Antunes Vieira (1868-1929). Figura insigne da referida instituição religiosa e intelectual, cujo nome se encontra, imerecidamente, arredado das páginas da nossa História local.

António Vieira nasceu na aldeia da Mata, Torres Novas, no dia quinze de Maio de 1868. O reputado sacerdote jesuíta aprendeu as primeiras letras na sua terra natal, prosseguindo depois os seus estudos no Colégio de Nossa Senhora dos Anjos, no Barro, Torres Vedras. Onde aperfeiçoou os seus conhecimentos, nomeadamente, ligados às línguas e literaturas clássicas. Seguiu, depois, um bem-sucedido périplo educativo em outras importantes instituições escolares religiosas de renome.

Terminada a sua formação ingressa em 1902, nos colégios de São Fiel, em Louriçal do Campo, Castelo Branco, e no conhecido colégio religioso jesuíta de Campolide, da cidade de Lisboa. Ao longo de sete anos ensinou outros jovens, ávidos do seu reputado saber de historiador, pedagogo e humanista.

A sua ordenação aconteceu a 26 de Agosto de 1900, na cidade da arte Tournai, na Bélgica, acabando por professá-la solenemente, no citado colégio em Campolide, quatro anos mais tarde, em 15 de Agosto de 1904.

O nosso conterrâneo (a par dos conhecidos vultos torrejanos da Companhia de Jesus, Cândido Mendes e Francisco Rodrigues) foi um dos eclesiásticos ligados à Companhia de Santo Inácio de Loyola que teve que abandonar o País, após a Implantação da República, em 1910 (AZEVEDO, Luís Gonzaga de; “ Proscritos”, vol. I, Florencio de Lara, Editor, Valladolid 1911; e vol. 2, Tipografia E. Daem, Bruxelas, 1914).

Após estar exilado no Brasil, regressa à Europa, estando primeiro na Bélgica, e depois em Espanha onde professou no colégio de alunos portugueses de La Guardia, na Galiza. Vindo a morrer, nesta localidade, no dia 1 de Fevereiro de 1929.

Autor de diversas obras – sob o pseudónimo Artur Viegas – a maior parte dos seus cintilantes escritos estão espalhados por publicações nacionais e estrangeiras. Do especializado conhecimento sobre os grandes autores da literatura portuguesa, deixou-nos uma esclarecida edição escolar de “Os Lusíadas”, secundada com as suas preciosas anotações. Que se esgotou por diversas vezes – a edição que utilizamos no nosso trabalho é a nona,  foi editada em 1972. Nos quatrocentos anos de “Os Lusíadas”.

A publicação escolar, da principal obra de Camões, não foi fruto do mero acaso. Teve o propósito de tornar acessível, a todos os leitores portugueses, a extraordinária criação do genial poeta português. Como é explicado por António Antunes Vieira, no prefácio da sua 1ª edição escolar de 1921.

Segundo o ilustre torrejano, era urgente acender “ brios patrióticos no peito da juventude portuguesa”, que necessitava de uma nova força para galvanizar os seus corações lusos:

“ Se os gloriosos feitos efeitos do valor português, consagrados ali pelo génio de Camões, e irisados de mil fulgores poéticos pelo seu estro de oiro, podem despertar energias latentes em corações da lusa mocidade, e galvanizar até – quem sabe? – uma Pátria agonizante, leia-se, medite-se, espalhe-se profusamente esse sublime livro, todo cheio de encanto e magia, essa veneranda epopeia que as demais nações nos invejam.

Hoje, mais do que nunca, a sua leitura salutarmente sugestiva torna-se indispensável, a não querermos que o nosso bom povo, já tão acalcanhado de opróbrios, se deixe imbecilizar de todo por um ambiente absurdo de opressão e mentira – sem fé e sem ideal – que o mirra e atrofia.

Mais ainda que nas vésperas de 1580, hoje a Pátria portuguesa corre iminente risco de perder totalmente a consciência da dignidade e brios nacionais, e afundir-se de vez no marasmo do desalento, espécie de letargia cataléptica, mil vezes mais nociva e desoladora que a

«rudeza

duma austera, apagada e vil tristeza»

que o poeta lamentava no seu tempo [ CAMÕES, Luís; “Os Lusíadas”, X, 145].

Urge, pois, que todos os filhos de Portugal, mas principalmente o escol da juventude – que é a Pátria de amanhã – se embebam e compenetrem, cada dia mais, das grandes ideias salvadoras e transcendentes da fé, patriotismo e heroicidade, que do primeiro ao último verso atravessam e animam o incomparável Epos nacional “ (Artur Viegas, 1921).

(Continua)

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados