SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 12:26

O cão-mascote dos Bombeiros Voluntários Torrejanos

No século anterior, habitou nas instalações dos Bombeiros Voluntários de Torres Novas um cão que era muito estimado pelos nossos soldados da paz. Nunca se soube a sua proveniência. Mas desde o dia em que apareceu no quartel, tornou-se o alvo de todas as atenções. Sendo integrado na Associação como um dos seus elementos. Deram-lhe depois o nome de “Voluntário”, por causa do “V” que traçava o seu peito.

A vida do “Voluntário” cruzou-se com muitos dos episódios ligados à actividade humanitária da corporação. Tornando-se numa presença familiar e querida para os habitantes de Torres Novas.

Mas as deambulações do cão-mascote dos bombeiros pelas ruas da vila, nem sempre tiveram a devida tolerância por parte de alguns torrejanos.

Um dia, a rubrica ”Pela Vila”, do jornal “ O Almonda”, deu voz a um assinante, que se insurgia contra o número exagerado de animais que andavam à solta. Alegando que, por tanto ladrarem, sobretudo de noite, não o deixavam dormir.

A diatribe contra os animais não se ficou por esta denúncia. No texto refere ainda que “ há um cão privilegiado com carta-branca para vaguear a todas as horas pela vila, sem que ninguém o incomode: é o cão dos bombeiros”.

Exigia por parte da Câmara medidas drásticas para pôr fim a “tais abusos” (“O Almonda”, nº 1663, 02/06/1951, pág. 2).

As acusações do assinante provocaram algum incómodo dentro da corporação dos bombeiros. Cientes da enorme injustiça que se estava fazendo contra o seu meigo e dócil cão.

Semanas depois, o periódico “ O Almonda” divulgava a resposta dos Bombeiros Voluntários Torrejanos. Num texto onde podemos aquilatar a enorme afeição que os soldados da paz nutriam pelo fiel amigo do homem, que um dia decidiram adoptar. Foi este o sentimento da Associação, expresso nas palavras do seu Presidente (de 1940 ao ano de 1972), José Lopes dos Santos (1889-1972), que passamos a transcrever:

“ (…) O Voluntário, o cão-mascote dos Bombeiros de T. N., não é um cão vadio (…) É, sim, um submisso e fiel animal protegido pelos Bombeiros e pessoas amigas da vizinhança. Não faz mal a ninguém e pelos seus dons tem no coração dos Bombeiros aquele afecto e ternura que todos votamos aos «animais nossos amigos», – usando da expressão de Afonso Lopes Vieira.

O “Voluntário” é manso como um cordeiro e meigo como uma pomba.

…   …   …   …   …  …   …   …

Não é um cão vadio! Usa coleira e açaimo e tem a sua disciplina de prisioneiro.

Não podemos garantir que «nunca tenha ladrado de um pobre a capa esfarrapada», como o «Fiel» do poeta, mas podemos garantir que as crianças fazem dele o que querem e nunca fez mal a alguém!

“ O Voluntário” tem já a sua história que inspira simpatia.

Um dia apareceu no Quartel um cãozito preso pela trela, que o “Voluntário”, orgulhoso, segurava pela boca.

O cãozito havia sido levado ao Matadouro para vacinar. Fugiu. O “Voluntário” que andava perto, aboca a trela e leva ao Quartel. Pouco depois o cãozito era entregue pelos bombeiros ao seu dono. O “Voluntário” tem a sua cama no Quartel onde dorme todas as noites. O telefone toca, e ele, que não sabe chamar os Bombeiros de pernoita pelos seus nomes, ladra, ladra para os acordar. Ladrar é o seu grito de alarme.

Quando a «sereia» lança no espaço o seu grito de chamada aos Bombeiros, o “Voluntário” esteja onde estiver, lança-se numa correria louca e é sempre o primeiro a chegar ao Quartel (…).

Há tempos a Ambulância conduziu a Abrantes uma senhora doente. O “Voluntário”, que sempre acompanha até onde pode, os carros dos Bombeiros, voltou pouco depois à residência da família da doente, talvez a querer dizer: – «tranquilizem-se que a doente vai a caminho do seu destino».

Não há possibilidades de o contê-lo quando o «Pronto-socorro» sai. Segue-o até longe e só regressa depois de vencido pelo cansaço.

…   …   …   …   …  …   …   …

Coitado! Ladra! Sabe-se lá quanta dor e solidariedade o ladrar significa!

…   …   …   …   …  …   …   …

O “Voluntário” é um cão bom. Ladra, mas não morde. Nós, Bombeiros, defendemo-lo porque ele tem mais qualidades que superam os seus defeitos” (“ O Almonda”, nº1666, 23/06/1951, pág. 8).

Foram essas enormes qualidades do cão-mascote dos bombeiros que estiveram na origem do soneto a ele dedicado por José Lopes dos Santos. Presente no único livro editado (apesar de ter produzido uma vasta obra literária) do ilustre torrejano (“Poesias”, Edições «Nova Augusta», Torres Novas, pág. 125).

Sabedores do enorme carinho que o poeta nutria pelo “Voluntário”, a Escola de Recrutas dos Bombeiros Voluntários Torrejanos de 1960-61, ofereceu-lhe um quadro com a fotografia do cão-mascote dos bombeiros. Que José Lopes dos Santos, reconhecidamente, guardou até ao final da vida. Nela, o “Voluntário” aparece a descansar, num dos degraus de acesso à igreja da Misericórdia de Torres Novas. Perto das antigas instalações do Quartel dos Bombeiros.

Durante largos anos o “Voluntário “, com as suas peripécias e bondade, encheu de alegria o coração dos bombeiros torrejanos. “Deixando-lhes muitas histórias para contar” (PAIVA, Ana; “Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários Torrejanos”, Gráfica Almondina, Torres Novas, pág. 67).

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados