SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 14:07

Um Poema de Alexandre O’Neill no “III Torneio Literário de T. Novas” (1)

No mês de Outubro de 1940, um grupo de jovens torrejanos publicava no jornal “O Almonda” o primeiro número da sua “Página Cultural”. O objectivo passava por colocar ao alcance dos leitores “conhecimentos básicos” ligados às diversas áreas do saber humano (“O Almonda”, nº1107, 12/10/1940, pág. 5). Alimentava-os a nobre ideia de alargar os horizontes culturais da população do concelho de Torres Novas.

Mas o seu entusiasmo esbarrou na atitude de indiferença e na falta de compreensão por parte de alguns torrejanos. Caso flagrante acontece na missiva endereçada por um leitor do jornal aos seus responsáveis. Transcrita no nº 14 da folha cultural, referente ao mês de Novembro de 1941.

Na infeliz carta, o seu autor opõe-se aos caminhos trilhados pela folha cultural. Caindo no dislate de considerar errado falar sobre Camões. O que, segundo a sua “esclarecida opinião”, seria o motivo do evidente afastamento dos leitores. Que estariam mais interessados na abordagem de “problemas do momento”.

A polémica teve pela pena do Director da “Página Cultural”, Alfredo Santos, uma acutilante resposta. Conseguindo pôr a descoberto as fragilidades argumentativas do inconformado torrejano. (“O Almonda”, nº 1166, 29/11/1941, pág. 5).

Foi também por iniciativa deste grupo de jovens, que o meio cultural torrejano assistiu à realização do “1º Torneio Literário de Torres Novas”. A data da divulgação ocorre alguns meses depois do primeiro número. O Regulamento instituía três prémios: nos domínios do “conto ou novela”; “Trabalhos sobre Torres Novas – Prémio Artur Gonçalves”; e “Quadra Popular”. A presença das três áreas distintas das letras visava congregar um número mais alargado de criadores artísticos. Abarcando tanto o investigador académico com o simples leigo, com gosto para a criação de poesia popular (“O Almonda”, nº 1120, 11/01/1941, pág.5).

O primeiro concurso sofreu alguns reveses. Inicialmente a entrega final dos trabalhos estava prevista até ao dia 20 de Março. Só que, terminada a data, os responsáveis pelo concurso tinham em suas mãos um número ínfimo de produções. Apesar das “lindas e animosas palavras, que [foram recebendo] por parte dos torrejanos por tão meritório empreendimento.

Esta nova contrariedade, não demoveu o director da folha, Alfredo Santos, a abandonar o importante projecto. Conhecedor da maior parte dos cultores das artes existente no concelho, a eles se dirigiu pessoalmente para que abandonassem a preguiça e elaborassem textos para o referido concurso literário. Para isso, teve que alargar o prazo para o dia 15 de Agosto (“O Almonda”, nº 1130, 22/03/1941, pág. 8). Estando programada a entrega dos prémios para o mês de Setembro ou em Outubro. O que veio a suceder.

No dia 25 de Outubro, saía na página cultural de “O Almonda” os premiados no género literário das “quadras”. O primeiro prémio coube ao pseudónimo José Torres (José Maria de Freitas). A segunda e quarta classificações foram atribuídas ao conhecido torrejano ilustre, António Chora Barroso (1916-1978). Que utilizou o pseudónimo Anchobar de Riachos ( uma espécie de anagrama das primeiras letras do seu nome. Como curiosidade, no próximo ano celebram-se os cem anos do seu nascimento!).

Mas alguns dos participantes do Torneio Literário de Torres Novas não residiam no concelho. Deu-se o caso de participarem jovens escritores e poetas oriundos de outras paragens do país. Tentando firmar, através da participação em concursos, os seus créditos nas lides literárias. Como sucedeu em 1943. Nesse ano foi divulgado na “Página Cultural” de “ O Almonda” o III Torneio Literário de Torres Novas. O concurso estava dividido em duas partes: Prosa – a) Conto ou Novela, b) Reportagem. E Poesia: a) Quadra Popular, b) Soneto, e) Poesia obrigada a mote.

Na modalidade do soneto concorreu um jovem de 18 anos, que mais tarde veio a tornar-se num dos grandes poetas portugueses do séc. XX. Falamos de Alexandre O’Neill (1924- 1986).

Talvez a maior parte dos portugueses tenha ouvido falar pela primeira vez o nome de O’Neill, no decorrer da campanha de um político (através da indevida colagem do seu poema “ Sigamos o Cherne”), que ocupou por um curto período o cargo de primeiro-ministro. Fugindo mais tarde das suas responsabilidades para outras paragens mais apetecíveis. Este antigo representante da Nação, no nosso modesto parecer, deveria estar sentado no banco dos réus do Tribunal Penal Internacional (Haia), para ser julgado por crimes de guerra.

Para nós torrejanos o nome de Alexandre O’Neil não nos é estranho. Com frequência aparecem nos jornais do concelho notícias a propósito da biblioteca de Constância, da qual o poeta é o patrono. O’Neill viveu durante largos períodos na vila camoniana. Tendo em 1981 arrendado uma velha casa do século XVIII.

Nota ao último artigo do historiador torrejano António Lopes dos Santos: Como o artigo já vai longo, resta-me apenas fazer a advertência de que não sou historiador, nem a tal patamar pretendo ascender. Sou simplesmente um mero diletante que procura divulgar as suas pesquisas com rigor e seriedade.

É enquadrado neste papel que, por vezes, tenho a sorte de encontrar algumas falhas em reputados especialistas da História do concelho. Aponto-as apenas com o propósito de contribuir para esclarecer o eventual leitor sobre um facto ou assunto que não foi devidamente apresentado.

Esta maneira sui generis de estar desobriga-me, em alguns casos, de prescindir das indicações técnicas utilizadas pelos historiadores para se referirem às suas fontes. As quais constam (e muito bem!) nos seus meritórios trabalhos sobre a História do concelho de Torres Novas.

Mas não sendo tecnicamente apresentadas, as referências lá aparecem nos meus artigos de divulgação! Por vezes, através de uma imagem ou apontamento. Sustentando, desta forma, o meu ponto de vista sobre a abordagem de temas da nossa História.

Em suma, os seus reparos só teriam sentido se me arvorasse em historiador. O que não é o caso!

P.S. Para que não se crie a falsa ideia de que guardo a Caverna do Ali Baba, vou-lhe explicar os passos efectuados para a elaboração do controverso artigo: consultei os mesmos jornais, “O Imparcial” e  “O Realista”, que o Dr. António Mário consultou. E que se encontram no Arquivo Municipal da Biblioteca de Torres Novas. Jornais que, pelas notas escritas, deduzi terem pertencido ao torrejano ilustre Faustino Bretes. A maior parte das ilações presentes no artigo resultaram de uma leitura atenta das suas folhas e das pequenas notas deixadas por Faustino Bretes.

A diferença aconteceu quando, por acaso, tive acesso ao primeiro número do jornal “O Realista”. Que me possibilitou confirmar a data correcta da publicação do primeiro número do periódico. Foi apenas este elemento-chave que nos separou na pesquisa!

(Continua)

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