SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 07:45

Uma Carta para a Admirável Actriz Torrejana Virgínia da Silva (2)

Continuemos, nesta segunda parte do artigo, com a transcrição da bela missiva dirigida à inolvidável actriz torrejana, Virgínia Dias da Silva. O autor das linhas, Teixeira de Carvalho, escreveu-as de forma intempestiva, após a memorável noite da despedida de Virgínia dos palcos. Numa soirée inesquecível, em que os espectadores estiveram largos minutos de pé aclamando a artista. Que muito comovida acenava com o lenço, dizendo adeus ao seu querido público.

Nas sentidas palavras do amigo do casal (a actriz torrejana era esposa do actor Ferreira da Silva) perpassa uma rendida homenagem à mulher e primeira actriz do Teatro Nacional. Retomemos a premente divulgação da sua carta:

“ Para aproveitar o dito estive para pôr o nome do lente mais feio, mas não pude também.

Estou de mal com ele…

Mais um dito que se vai!

Ainda hei-de fazer uma colecção deles com o título “Ditos Perdidos”.

Um lindo título que era bom para um poema…

Quando cá vieres toda a gente to contará. Dito meu nunca se perdeu, e é difícil encontrar alguém que o perfilhe…

Por isso eu lhes quero muito, coitadinhos!…

Aquela explicação que o estudante achou ao enternecimento da tua alma delicada de mulher, fez-me recordar tempos não de todos esquecidos, quando tu aqui apareceste e te viu o Ferreira, que o pai para cá mandara em convalescença de um amor.

No quarto pequenino e branco do Ferreira apareceu então o teu retrato, iluminado pela doçura dos teus grandes olhos pretos.

E o Ferreira passava os dias a copiá-lo a aguarela, com todo o saber de um estudante distinto em desenho matemático!

Voltei a Paris, encontrei ainda o teu retrato na mesma adoração.

Pensava então o Ferreira em ir para o teatro, e só eu atribuía essa resolução à atracção dos teus adorados olhos pretos.

Passaram anos. Uma noite recolhia tarde para casa para jantar, e encontrei a passear no Rossio [em Lisboa] o Ferreira, que me falou do teatro com tanto fogo que eu me abri com ele e lhe confessei então que me enganara atribuindo o seu abandono da Universidade ao amor por ti.

Ele riu-se com vontade; abraçou-me quási sufocado de riso e contou-me então tudo, mostrando-me a casa do Rossio em que moravas.

Andava a passear debaixo das tuas janelas!

Lembro-me depois das tardes de vossa casa de Benfica, quando a Maria Ema era pequenina, ria já, mas não sabia andar ainda.

A alegria daqueles jantares!

Como eu gostava de ver-vos assim felizes!

Assim aprendi a estimar-te.

Assim nos fizemos os grandes amigos que hoje somos.

Quando mais tarde reaparecias no teatro, pareciam-me todos os papéis insignificantes para ti.

É que não há criação artística de bondade que iguale a realidade da tua santa vida de mulher.

Lembras-te quando o pequenito do Arnoso [filho de Bernardo de Melo, 1º Conde de Arnoso, secretário do rei D. Carlos e um dos elementos importantes da famosa geração de 70, a par de Eça, Ramalho, Junqueiro, Antero, Oliveira Martins…] te viu no “Suave Milagre” e foi dizer para casa ao pai que não gostava da peça; que era tudo mentira e que tu eras a srª D. Virgínia, mulher do sr. Ferreira da Silva, amigo do papá?

Eu sou como o pequenito; desde que te conheço, ao ver-te representar não vejo senão a mulher do Ferreira da Silva, a mãe adorada de Ema.

E alegro-me, por parecer nisto com um fidalgo… pequenito.

A tua arte é tão grande que ninguém pode atribuí-la senão a um dom divino, é como se Deus falasse pelo corpo de Sibila [profetiza divina].

Incarnaste no teatro a bondade, o sofrimento, o amor, por um dom natural, porque és boa, porque a tua doce alma de mulher foi feita para amar e sofrer.

Por isso a tua arte não tem escola. Já Diderot [filósofo enciclopedista (1750-1772), autor do estudo sobre teatro “ O paradoxo do actor”] perguntava a escola em que se aprendia o sentimento!

Por isso as criações de Sarah [Bernhardt] e da [Eleonora] Duse não escurecem nunca o brilho das tuas evocações dramáticas.

A tua personalidade absorve o tema artístico, e a realidade da tua alma sofrendo e amando, dá a inesperada força da realização aos sonhos da arte.

Os que te conhecem bem como eu, minha cara Virgínia, percebem porém, como a arte fica sempre inferior como realização à vida.

Não há vida de sofrimento, bondade e de amor, nas complicadas criações dos artistas, que iguale a bondade e o amor de toda a tua vida simples de mulher.

Deste à arte toda a tua vida e tão intensamente que todos vêem a tua vida nas tuas criações artísticas.

Por isso bem andava o estudante que a um delicado pormenor da tua vida foi buscar a sentimentalidade dum momento naquela noite de festa.

Por isso foi toda a requintada sensibilidade a ovação que te fizeram, eles os rapazes, sempre tão descuidados.

Se ouvisses o que eles censuravam o que te atirou a sua capa de estudante.

Fazer-te a ti o que se tem feito a outras actrizes!…

Acenavas com o teu lenço a eles e eles, que têm tanto o hábito de o fazer também, e de rir e de gritar, continuaram a aplaudir de pé, fazendo levantar seguidamente o pano, sem que um só lenço imitasse o voar triste do teu, pesado de lágrimas.

Não podia ser, já se tinha feito a outras…

E sempre as palmas, sem afrouxar, sem um grito.

Quem sabia o que havia de dizer-te?

Novos ou velhos todos tínhamos a mesma frase, o mesmo desejo de beijar as mãos à primeira actriz portuguesa.

E basta!

Era isto o que eu tinha para te dizer, Virgínia, e deu-me o acaso desta longa carta.

O que eu queria era beijar as mãos da primeira actriz portuguesa, o que eu queria era beijar-te as mãos, pela tua grande alma de artista, pela tua excepcional alma de mulher.

1906”

(Carvalho, Teixeira; “ Teatro e Artistas”, Imprensa da Universidade, Coimbra, 1925; págs. 311- 319).

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