SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 15 Junho 2021, 17:12

Uma carta para a admirável actriz torrejana Virgínia da Silva (1)

Raros são os textos que têm a virtude de transmitir a grandeza de carácter e a incomparável arte de representar presentes na grande actriz torrejana Virgínia Dias da Silva (1850-1922). Nessa diminuta plêiade de jóias artísticas, é obrigatório destacar a extensa missiva que se encontra no livro “Teatro e Artistas” (1925) de J. M. Teixeira de Carvalho. Obra póstuma, constituída por um apaixonante conjunto de artigos, sobre o mundo do teatro e artistas, reunidos pelo amigo do escritor, Braz Burity.

Ao longo das 383 páginas da colectânea – escritas num estilo leve, culto e cinzeladas pelo “inigualável riso Coimbrão”-, Teixeira de Carvalho consegue introduzir-nos no maravilhoso mundo do teatro e dos seus fiéis intérpretes: os autores e os artistas.

Há igualmente no livro, páginas repletas de uma profunda melancolia. Sugestionadas pelo clima trágico de uma peça ou por episódios marcantes na vida dos artistas.

A missiva dirigida à actriz Virgínia da Silva – aquando a sua récita de despedida, no Teatro de D. Maria II, a 25 de Maio de 1906 -, faz parte desta acinzentada tonalidade. Contudo, também emerge no texto uma terna luz. Fruto da profunda admiração de Teixeira Bastos pela arte e pela nobreza de alma da ilustre torrejana.

No nosso humilde parecer, estamos perante uma das mais belas páginas escritas em seu louvor. Expressas por alguém que conviveu de perto com a actriz.

Para que o estimado leitor possa aquilatar a justeza da nossa afirmação, deixamos transcritas, no presente artigo, as suas comovidas palavras:

“ Minha cara Virgínia:

Quando entrei no teu camarim, na noite da tua despedida, ia com vontade de chorar, e para esconder a comoção, disse-te que a toilette com que representaras era triste e sem gosto.

A Adelina [Abranches], que olhava para ti em êxtase, os olhos alagados em lágrimas, voltou a cabeça em movimento brusco, e a Beatriz [Emília] deu um jeito mais acentuado ao ombro para que eu notasse que continuava de costas sem me ver…

Tu sorriste e disseste:

– É uma toilette simples, de velhinha.

Entrou um estudante e disse:

– Minha senhora, eu venho beijar a mão à primeira actriz portuguesa…

Tu sorriste outra vez e deste-lhe a mão a beijar.

Ele ficou-se sem dizer mais palavra, enquanto um carpinteiro do teatro te oferecia uma ramos de amores-perfeitos, armado como uma roca de cerejas.

Chega outro estudante e diz:

Minha senhora, eu peço licença para beijar a mão à primeira actriz portuguesa…

E eu começo a pensar numa insolência que lhe diga e me tire da comoção sufocante em que estou sem saber porquê.

Nisto ouço da porta:

– Minha senhora, eu venho beijar a mão da primeira actriz portuguesa…

– Outro urso [estudante muito aplicado]!

Esquecia-me dizer-te que os primeiros estudantes, que te beijaram a mão, são dos mais cotados em Coimbra.

Volto-me e dou com espanto no conde de Monsaraz, os seus cabelos brancos com o ar antigo duma aristocrática cabeleira empoada, a sua irrepreensível sobrecasaca…

Afasto-me enquanto ele continua:

– Com a doçura de uma voz de encantar, a magreza delicada do seu corpo, é-se eternamente nova, eternamente bela!…

Eu fujo do camarim, dou um encontrão no Montês, que vinha a entrar, solto uma praga que me pões mais à vontade; o Montês pergunta-me o que tenho, que vou tão furioso e eu digo-lhe na mais sincera das cóleras que fugi do teu camarim; porque os rapazes perderam a faculdade de falar…

– O melhor dote, interrompeu o Montês na scie conhecida, que o homem recebeu da suma bondade do criador, sendo que outro não há que mais préstimo tenha em todo o trato da vida…

– Tanto pública como particular…

É graça do meu tempo. Um modo como outro qualquer de me chamar velho…

– Ó doutor!…

– E o pior, interrompo eu, é o Monsaraz a dizer à Virgínia que com a magreza dela se é eternamente nova, eternamente bela. Imagina ele que, se fosse magro, vinha acabar nos antigos do Louvre…

Vou serenando e na alegria geral, nas palavras que todos dizem em teu louvor, vão os meus nervos alvoraçados encontrando a quietação.

Felicitam-me como se a festa fosse minha, porque sabem todos como somos amigos e há tanto tempo.

Um pergunta-me a razão por que choraste?

Outro responde que foi por aqui ter começado o Ferreira [da Silva] a namorar-te.

E eu fico a pensar que podia bem ser assim, admirado com as razões subtis que encontra para uma lágrima um coração de dezanove anos.

E achado este pretexto do coração, começam a dizer que foi aqui que tu tiveste os primeiros sucessos de teatro, que foi o público do teatro académico que te consagrou grande actriz, que foi aqui…

O que eles inventavam, por falarem e rirem como crianças!

E perguntam se não é verdade – com modos de quem pede que os não desminta.

Eu, de bom humor, digo com eles e termino por afirmar que estudaste aqui, que tomaste capelo e que fugiste para Lisboa por teres sido preterida no concurso por…

Agora vejo que não posso acabar de contar-te o dito que fechou com uma risada aquele entusiasmo de crianças.

Eu disse que no concurso foste preterida pelo lente mais bonito e não posso escrever porque sou amigo dele e ele podia amuar-se comigo.

Não imaginas a susceptibilidade de que eles são agora!”

(Continua)

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