SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 17 Junho 2021, 22:35

As Últimas Peças Ensaiadas por Artur Gonçalves (2)

Neste ano de 1937, Artur Gonçalves ensaiaria a revista infantil “ Torres Novas na Graça e na Beleza”, assumindo também o papel de uma das suas personagens. A obra foi composta pelo ilustre torrejano José Lopes dos Santos (1889-1972), e destinava-se a angariar dinheiro para a Cantina Escolar. Instituição solidária que se debatia com graves problemas financeiros. Lutando heroicamente pela continuidade da sua benemérita acção de alimentar “ algumas dezenas de crianças pobrezinhas da Escola Primária” de Torres Novas.

Pelas palavras do poeta torrejano, sabemos que o desafio para a elaboração da revista infantil, a favor da Cantina Escolar, fora-lhe primeiramente lançado pelo presidente da instituição, Arnaldo Marques Paixão.

Consciente das suas limitações literárias, no campo da escrita teatral, José Lopes dos Santos ia adiando a difícil tarefa. Mas, no dia em que presidiu a uma reunião da direcção da Cantina (por ausência do seu amigo), os professores reiteraram o pedido anterior para que fizesse a desejada peça. Estava em jogo a alimentação diária na escola das crianças desafortunadas pelo destino.

Homem de nobres causas, José Lopes dos Santos comprometeu-se a escrever a revista infantil. Os obstáculos literários não o demoveram a honrar o seu “sagrado compromisso, como todos os compromissos que [tomava] ”.

A elaboração da peça roubar-lhe-ia “ longas horas de meditação e de trabalho”. O cansaço era suplantado pela força do “grande ideal de fraternidade” que irmanava no coração do poeta. Elemento catalisador da poesia e da luz que emerge da obra “ Torres Novas na Graça e na Beleza”. Segundo palavras suas, nela verteu “ [o seu] sonho, [o seu] sentir, [o seu] ideal”.

Feita a revista faltava a autorizada aprovação por parte de Artur Gonçalves. Ao ilustre historiador torrejano cabia a responsabilidade de “ tomar a seu cargo o ensaio e representação da peça”. Tarefa que se prontificou a realizar com o préstimo das crianças da escola.

A sua “inexcedível paciência” e saber produziram um “autêntico milagre”. Os jovens intérpretes conseguiram assimilar de forma primorosa os ensinamentos do historiador torrejano, secundado por Helena Paula de Oliveira Santos.

O confronto com o palco e os espectadores, já não metia medo às destemidas crianças. Sabedoras do (s) seu(s) papel(éis), esperava-as, então, a apresentação da revista. Agendada para os dias 14 e 27 de Maio de 1937, no Teatro Virgínia de Torres Novas.

Nesse dia um elevado número de participantes infantis passou pelo palco, nos dois actos que compõem a peça. Na primeira parte, fez-se a apresentação dos seus dez quadros, em que se enalteceram a Cantina Escolar, a Escola, Torres Novas…

Textos onde se nota a musicalidade e a poesia de José Lopes dos Santos. Como o que se encontra na página 15, referente à Cantina Escolar, que passamos a transcrever:

“ Somos pobres deserdados/ que a Cantina, boa, protegeu./ Pela sorte abandonados/ seio amigo/ e carinhoso/ ela nos deu./ Deu-nos o pão de cada dia/ pão branquinho/ alvo como o luar./ A nossa alma enfim,/ tem alegria sim./ Novo Sol nos veio acalentar “ (Torres Novas na Graça e Beleza…).

O segundo acto foi preenchido por mais catorze quadros, versando temas ligados à nossa terra e ao amor fraternal.

Nos vinte e quatro quadros que integram a peça, assistiu-se à exibição de números musicais (26 no total), interpretados pelos ranchos infantis das vindimas, ceifas e outros agrupamentos.

De referir que o papel de regente musical esteve a cargo de Manuel Antunes dos Santos e a pianista de serviço foi a Srª D. Higina de Paiva Faria.

Toda a revista infantil, “ Torre Novas na Graça e na Beleza”, “decorre em cenas da vida escolar, como convinha, habilmente fantasiadas e ordenadas para este fim: incutir no espírito das crianças o amor ao estudo, o culto pela escola, o sentimento da fraternidade, o auxílio mútuo e a generosa dedicação em nos servirmos uns aos outros.

Ideias sãs e altamente educativas nestes tempos de feroz egoísmo.

A esta doutrina humanitária veio juntar-se a nota regionalista no amor à pequena pátria, terra em que nascemos – Torres Novas” (“O Almonda”, nº 930, 22/05/1937, pág. 1).

(Continua)

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