SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 19 Junho 2021, 18:58

Retrocesso secular, dervixes e renascença do sufismo?

Os países ocidentais encontram-se perante um repto de grande dimensão. O que no início parecia um gotejar imperceptível, transformou-se numa enxurrada que está em vias de inundar o continente inteiro. Vive-se numa encruzilhada. Para muitos observadores, é inevitável a confrontação entre um Islão seguro de si mesmo e o assobiar para o lado de alguns líderes para os quais o secularismo se tornou um verbo-de-encher.

Devagar, nem sequer nos damos conta das mudanças. Quiçá por serem mais frequentes as visitas a França, Inglaterra e Bélgica, as transformações já não chocam. É preciso uma ruptura no tempo para se poder comparar. E convém fazer algumas reflexões.

Há umas décadas, numa primeira viagem à Turquia, eram menos abundantes as representações de conservantismo islâmico. Contudo, deixou de ser segredo que o governo Erdoǧen tem apagado o que lhe apetece do republicanismo laico instituído por Kemal Atatürk.

Recorde-se que foi este leitor de Voltaire e Rousseau que se bateu para que fosse reconhecido às mulheres turcas o direito ao voto e ao funcionalismo público. Outra revolução foi a abolição do califado. Para a maioria da população, o califa era “a sombra de Deus na terra”. Sublinhe-se que os sultões otomanos eram soberanos temporais e chefes espirituais.

Também foram da sua responsabilidade a extinção dos tribunais da lei corânica, a proibição da poligamia e a substituição do direito com base religiosa por um moderno código civil inspirado no que havia de mais avançado na Europa. Mais tarde, mudou de sexta-feira para domingo o dia de descanso semanal. E, por fim, o governo da jovem república anulou a cláusula constitucional que reconhecia o Islão como única religião do Estado.

Criar uma república secular a partir das ruínas de um império islâmico não foi tarefa fácil. Para tal, Atatürk utilizou diplomacia e fineza, com um pouco de força à mistura.

A herança do “Pai dos Turcos” necessita de sorte para não desaparecer. Os cidadãos mais liberais e de esquerda sentem-se perseguidos. Por isso, vemos como apropriada a compra de “olhos” de vidro azul que os turcos penduram nas paredes para afastar o mau-olhado. Maus augúrios estão-se a acumular no horizonte.

Deslocámo-nos de propósito a Konya (1,200,000 habitantes), uma das cidades religiosamente mais radicais do país. Tivemos por objectivo ver o Mevlâna Tekkesi (mosteiro) com a cúpula cor de turquesa. O conjunto tem por centro o túmulo de Jalal al -Din al-Rumi (1207-1273) ou Mevlana (“nosso mestre”), o poeta fundador dos dervixes dançantes. A designação desta irmandade deriva da palavra persa “darwich”, que significa “pobre”. Os seus membros pregavam a tolerância, o perdão e a sabedoria espiritual. No género dos frades franciscanos, mas do Médio Oriente.

Este teólogo, nascido no actual Afeganistão, estabeleceu-se em Konya, onde foi discípulo de Shams (“Sol”), um sábio sufi. São dele os seguintes versos: “Eu era neve e os teus raios derreteram-me; // A terra bebeu-me; // E, no vapor do espírito, subo para o Sol “.

O sufismo é o ramo místico do Islão. O nome vem de “suf” (lã em árabe), porque ao princípio os sufis estavam associados à pobreza e costumavam vestir-se com roupas de lã no seu estado natural.

Os dervixes usam trajes brancos muito amplos e chapéus cónicos. Rodopiam ao ritmo de tambores e de melodia melancólicas. A dança circular, hipnotizante, representa a harmonia das esferas e é uma expressão de amor cósmico. Os bailarinos levantam uma mão para Deus e a outra aponta para a terra, simbolizando deste modo a união entre Alá e os homens em transe.

As cerimónias desta e de outras confrarias e seitas religiosas, foram interditas por Atatürk . Ele acreditava que constituíam uma ameaça para o estado laico. Em fins de 1925, as confrarias de dervixes foram proibidas e os seus mosteiros fechados. Ultimamente, as irmandades têm ressurgido para reivindicar o papel que sempre desempenharam na nação.

Como tivemos a oportunidade de observar, durante a “sema” (cerimónia), o dervixe gira na ponta dos dois primeiros dedos do pé direito durante vários períodos de dez a quinze minutos. A dança ritual move-se num semicírculo em duas etapas. A primeira simboliza a criação (arco descendente) e a segunda, quando o dançarino se vira na outra direcção, representa a comunhão mística. Uma mão recebe a Palavra de Deus e a segunda tem por função reencaminhá-la para os crentes.

Ao entrar no majestoso e moderníssimo centro cultural onde se realizam as cerimónias, reparámos numa placa de metal no estilo das que os autarcas portugueses usam e abusam. Nela estava escrito em turco e em inglês que o edifício tinha sido construído pelo governo Erdoǧen e que o presidente era um grande devoto de Rumi. Será que não teremos aqui uma prova concludente do abandono do secularismo pelo presente governo islâmico-conservador?

De facto, as irmandades muçulmanas reconquistaram uma posição de relevo na Turquia. Algumas seitas são extremamente conservadoras, nas raias do integralismo. E, por serem numerosas as pontes entre as sociedades secretas e a política, não nos admirámos quando descobrimos que, já nos anos oitenta e noventa, Turgut Özal, da comunidade sufi dos dervixes Naqshbandi, tivesse sido eleito primeiro-ministro e em seguida presidente.

Há poucos dias rebentaram duas bombas em Ancara. Fizeram uma centena de mortos e um enorme número de feridos.

O Islão militante não pára. Por todo o mundo, o secularismo está sob pressão. E a procissão ainda vai no adro. Não das igrejas que vão desaparecendo mas das mesquitas, com certeza.

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