SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 15 Junho 2021, 16:43

As Últimas Peças Ensaiadas por Artur Gonçalves (1)

Das múltiplas facetas de Artur Gonçalves (1868-1938), a de ensaiador ocupou um lugar importante na vida do mestre torrejano. O ilustre historiador tinha um gosto especial pelo teatro. Foram várias as peças ensaiadas nos diversos palcos da vila. Com destaque para as que ocorreram em ambiente escolar. Iniciando os jovens torrejanos no gosto pela nobre arte da representação.

Tarefa que, nos dias de hoje, é fielmente desempenhada por um grupo de docentes e alunos da Escola Artur Gonçalves de Torres Novas. O clube de teatro, cada vez que leva ao palco do Virgínia uma nova peça, tem conseguido arrancar dos espectadores uma enorme ovação. Prova incontornável do elevado profissionalismo e entusiasmo colocados pelos seus membros, nas exigentes representações de conhecidas obras de autores clássicos.

Esta distinta peculiaridade também se encontrava nas peças outrora ensaiadas pelo patrono da escola. Como poucos, Artur Gonçalves conseguia aproveitar nos jovens as suas melhores qualidades teatrais. As actuações em palco dos pequenos actores eram marcadas pela espontaneidade e rigor na interiorização dos papéis. Culminando em espectáculos bastante gratificantes e enriquecedores.

Outra característica presente no mestre prendia-se com os detalhes envolvidos na encenação: as roupas e o cenário estavam sujeitos à sua criteriosa escolha e assentimento.

No ano de 1937, o ilustre torrejano ensaiaria as suas últimas peças. A penúltima, a vinte e dois de Abril. Nesta data, os alunos do Colégio Andrade Corvo, promovem uma récita académica no Teatro Virgínia, em benefício do cofre da sua Caixa Escolar. O Sarau constava de duas partes. Sendo a segunda preenchida com a peça de teatro “ O Grande Hotel de Sarilhos” de Barros e Silva. Comédia em três actos, que contou com o desempenho dos alunos do Colégio, superiormente dirigidos por Artur Gonçalves.

As personagens foram interpretadas por Corina Augusta Canelas, no papel de Julieta; João Pedro Neves Clara, de Felisberto, dono do Hotel; Alfredo José M. dos Santos, de tio de Julieta; Joaquim Moita Fazenda, no papel do hóspede Braz da Purificação; Manuel Pontes de Sousa, o engenheiro Artur Seabra; Hernâni dos Santos Serra, Regedor de Sarilhos; José Maria de Freitas, professor Praxedes; José Paulo Andrade Faria e Fernando H. Costa, nos papéis de empregados do Hotel.

O enredo conta-se em breves palavras: Felisberto inaugura um novo hotel. Para dar um boa imagem do estabelecimento, persuade os seus dois empregados a fazerem o duplo papel de funcionários. Utilizando um disfarce (umas barbas) na sua outra identidade. Esta situação vai gerar alguns episódios repletos de mal-entendidos e equívocos.

O dono do hotel convida um amigo, Tomé, que vem acompanhado da sua sobrinha, Julieta, para serem os seus primeiros hóspedes.

Com a chegada do novo hóspede, Braz da Purificação, os problemas começam. Primeiro, arranja sarilhos com os empregados, responsabilizando-os por terem partido o seu serviço de chá. Pouco depois um outro hóspede entre no estabelecimento: o engenheiro Artur. Pessoa educada que se apaixona à primeira vista por Julieta.

O hóspede Braz da Purificação constata a ausência de uma criada no Hotel. Exige uma a Felisberto para o servir. Ameaçando-o de que se vai embora, caso a situação não seja resolvida. O dono do hotel pede então a Tomé, para que a sua sobrinha, Julieta, desempenhe se disfarce de empregada e esposa do dono do hotel até que chegue a tia Perpétua.

Os equívocos adensam-se. Cenas cheias de humor e com trapalhadas à mistura vão-se desenrolando ao longo dos três actos que compõem a peça de teatro. Após o roubo das botas dos hóspedes é chamado o regedor. Figura abrutalhada e analfabeta que coloca todos os intervenientes sob prisão. Foi necessário um telegrama do administrador para que o caso não descambasse em males piores. No final tudo acaba bem: esclarecidos os enganos e demitido o regedor, o dono do Hotel vê chegar a tia Perpétua e o engenheiro Artur pede a mão de Julieta ao seu tio Tomé.

Segundo a imprensa da época, o Sarau promovido pelos alunos da Caixa Escolar do Colégio Andrade Corvo redundou num enorme êxito. Salientando o jornal, no último parágrafo, para a boa actuação dos intervenientes amadores.“ Honrando o seu ensaiador, Sr. Artur Gonçalves” (“O Almonda”, nº 926, 24/04/1937, pág. 2).

Dias depois, a récita académica seria novamente representada com sucesso na localidade de Alcorochel.

Os dois eventos deixaram satisfeitos os seus organizadores. A Caixa Escolar do Colégio conseguia, através da iniciativa dos jovens estudantes, obter o almejado pecúlio financeiro. Uma ajuda importante para fazer face às despesas dos alunos durante o ano lectivo.

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