SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 18 Junho 2021, 10:35

Duas Páginas Esquecidas do Torres Novas Foot-Ball Club (4)

O incentivo à prática desportiva constava no programa oficial da Mocidade Portuguesa. Princípio reiterado no Boletim do Comissário Nacional, número especial comemorativo da Campanha Nacional de Educação Física, editado em 1944.

Nos finais deste ano, abriram-se novas possibilidades aos jovens torrejanos para conseguirem o ansiado espaço, destinado ao pleno desenvolvimento das actividades desportivas. Factor para o qual muito contribuiu o novo clube torrejano que estava em vias de se criar. Entre os seus mentores destaca-se o papel do vereador da Câmara, Dr. António Alves Vieira (o sócio nº 1 do Clube Desportivo Torrejano, e presidente do clube por diversas vezes), que conseguiu obter a aprovação dos seus colegas para a cedência do recinto do Almonda Parque (Clube Desportivo Torres Novas – Subsídios para a sua História, Arquivo da B. M. de Torres Novas, s/d, pág. 1).

Segundo o jornal “ O Almonda”, a nova agremiação teria que obedecer às exigências acordadas na última sessão camarária. Sendo elas: “ [que o grupo] venha a fundar-se em normas, que inspirem a segurança de que o seu uso seja de utilidade para o desenvolvimento físico dos nossos Rapazes.

Na direcção desse grupo haverá um representante da Câmara.

A Mocidade Portuguesa poderá utilizar o campo” (“ O Almonda”, nº 1330, 20-01-1945, pág. 2).

Como podemos depreender, a cedência do terreno, por parte da Câmara Municipal de Torres Novas, ia ao encontro da política de enaltecimento da raça, ideada pelo Estado Novo. A acção contou com o imprescindível beneplácito do presidente da edilidade torrejana: Dr. Carlos de Azevedo Mendes.

Nas monografias desportivas sobre o clube, o papel do chefe do executivo camarário (que mais tarde, iria desempenhar o cargo de presidente da Assembleia do Clube Desportivo Torrejano) foi simplesmente ignorado. Testemunhos da época (António Costa e Silva Paiva) dão conta do decisivo envolvimento do Dr. Carlos de Azevedo Mendes na constituição do novo grupo (a par de outras personalidades conhecidas, afectas ao antigo regime):

“Já há muito se fazia sentir em Torres Novas a falta de um campo de jogos (…), várias sugestões se levantaram, entre elas a construção de um «Estadium».

(…) Porém, a Câmara Municipal de Torres Novas, de quem é mui digno presidente o Exmo. Senhor Dr. Carlos de Azevedo Mendes, num gesto nobre e altruísta, conhecedora das necessidades actuais e continuadora acérrima da obra do Estado Novo que deseja o rejuvenescimento da raça portuguesa cede o antigo campo de jogos (…).

Mas não basta haver um campo de jogos e jogadores (…).

É igualmente necessário que os jogadores sejam orientados tanto moral como fisicamente para não se dar o caso de contribuirmos ainda mais para o definhamento da raça portuguesa. Numa palavra é indispensável que todos os desportos sejam orientados por pessoas competentes que visem um único objectivo: o revigoramento da juventude torrejana” (“ O Almonda”, nº 1334, 17/02/1945, pág. 8).

O campo de jogos onde se desenvolveria de novo a prática desportiva era o mesmo sítio onde jogou “ o extinto Torres Novas Futebol Clube” (Clube Desportivo Torres Novas – Subsídios para a sua História, Arquivo da B. M. Torres Novas, s/d, pág. 1). Local onde, naquela altura, se encontrava instalado uma abegoaria. E se não fosse a inteligente intervenção camarária, destinava-se a ser “transformado numa burriqueira”.

Como temos vindo a evidenciar, é notória a clivagem entre o Torres Novas F. C. e o Clube Desportivo de Torres Novas. As palavras sublinhadas na imagem – retiradas das memórias de um dos seus fundadores – incluem-se no conjunto de pressupostos que vão ao encontro da proposição por nós defendida.

Mas se a prova enunciada, pela voz de um dos pioneiros do clube torrejano e guardião da sua memória, não consegue demover os espíritos mais distraídos, acrescentamos mais um outro argumento contra a ideia de continuidade entre as duas formações torrejanas: o primeiro nome eleito para designar o novo grupo foi o de Associação Desportiva de Torres Novas. Designação adoptada pela comissão reunida no dia 1 de Janeiro de 1945, na sede dos Bombeiros Voluntários. E que figura na acta nº 1 da Assembleia Geral do grupo desportivo torrejano, realizada a 21 de Fevereiro de 1945.

O nome escolhido procurava, desta forma, abarcar um leque mais vasto de actividades e objectivos desportivos. Não se limitando apenas ao futebol. Enquadrando-se na política para o sector, seguida pelos ideólogos do Estado Novo. O que é referido nas páginas do jornal “ O Almonda”, por A. de Almeida Santos:

“ O futebol, não deve ser o fim único da agremiação que agora nasce, mas sim o complemento de outras actividades, não só de educação física, mas também de educação moral. A par de bons atletas, deve produzir bons cidadãos.

O grupo de futebol, cuja acção não se pode limitar aqui, será, nas suas visitas a outras terras, excelente meio de propaganda e manifestação de vitalidade. Sendo convenientemente orientado e sabendo os seus componentes, manter em todas as circunstâncias, o aprumo que convém a pessoas educadas, poderá Torres Novas orgulhar-se de possuir uma boa Associação Desportiva” (“O Almonda”, nº 1335, 24/02/1945, pág. 3).

Voltando à célebre assembleia realizada a 21 de Fevereiro, a imprensa local destaca a forte adesão de participantes. Estiveram mais de uma centena de participantes até ao seu final. Mormente a reunião ter durado cerca de 4 horas. Nesse dia, decidiram-se as cores do equipamento da Associação Desportiva de Torres Novas: “ as cores representativas [seriam] a camisola amarela com o emblema municipal assente em fundo verde, e calção preto” (“ O Almonda”, nº 1336, 03/03/1945, pág. 8).

O facto de alguns sócios se lembrarem de adoptar para o novo clube as cores vermelha e preta (utilizadas pela extinta formação) não fundamenta a ideia do ressurgimento do Torres Novas Foot-Ball Club. Apenas simbolizou um gesto de homenagem à antiga agremiação que tanto dera a Torres Novas. Esta proposta foi rejeitada pelo primeiro presidente do clube, major Raul Martinho. Que argumentou a favor da escolha do amarelo e verde. Opção que melhor se coadunava com as cores do município. Sendo aceite pela maioria dos sócios.

Há quem veja nas cores do Torres Novas F. C. reminiscências de natureza política. Na nossa perspectiva, não é razoável reduzir a opção pelo vermelho e preto a simpatias republicanas, anarquistas ou a outra qualquer força partidária. O motivo que levou o clube torrejano a assumir a cor vermelha (também presente no antigo escudo municipal),prendeu-se, fundamentalmente, com a sua forte ligação ao Sport Lisboa e Benfica.

Tal como o grupo lisboeta, os torrejanos eram conhecidos pela alcunha de “vermelhos”. Foi com naturalidade que Torres Novas assistiu a uma enorme explosão de alegria, vivida pela maior parte dos adeptos e jogadores do clube torrejano, quando o Benfica ganhou pela primeira vez o Campeonato de Portugal (1929/30):

“ O Sport Lisboa e Benfica – Campeão (…).

É que o clube dos “vermelhos” apesar de, durante 10 longos anos, não haver ganho um campeonato, nunca perdeu os seus numerosos adeptos (…).

Nesta vila foi grande o regozijo, quando, no passado domingo, se soube da sua vitória, tão grande mesmo como se se tratasse do clube local. É que a grande maioria dos nossos desportistas são «benfiquistas» de sempre.

Pela direcção do Torres Novas F. C. foi mandado um telegrama de saudação ao Benfica (“ A Renascença”, Junho de 1930, pág. 2).

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