SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 19:44

A Homenagem de Torres Novas ao Herói de Aljubarrota (2)

Ao evento não faltou uma demonstração hípica no Hipódromo da Escola de Equitação de Torres Novas, com a presença do General de Divisão. O extinto ramo do exército torrejano é conhecido na História do Hipismo Militar, por ter alcançado um currículo invejável no domínio das provas a cavalo.

Pelas dez horas da noite – como é referido pelo semanário “ O Almonda”- “principiou o sarau no Teatro Virgínia, com o hino nacional, tocado pela orquestra”.

O distinto advogado Dr. Alberto Diniz da Fonseca fez o discurso de abertura da cerimónia em nome da Comissão, agradecendo a todos os que auxiliaram na “ realização dos festejos”.

A presença feminina também se fez sentir nas comemorações. Algumas destacadas senhoras da nossa terra contribuíram com o seu saber artístico e graciosidade para o êxito das festas.

De referir as inolvidáveis actuações de D. Elisa Reis, que na primeira parte “cantou acompanhada ao piano”. Tendo, na segunda parte do programa, deliciado a assistência “ com dois magistrais solos de violino” (“O Almonda”, nº 50, 20 de Junho de 1920, pág. 1).

As senhoras Dª Maria Adelaide Amado e Dª Maria Emília Castilho Rodrigues cantaram alguns belos trechos musicais, secundadas ao piano pela Srª Dª Hygina de Paiva Faria.

No prosseguimento da festa interveio novamente o Dr. Alberto Diniz da Fonseca, fazendo uso dos seus pergaminhos de reputado orador, “falando por espaço de uma hora e um quarto”. A anunciada conferência ficou a cargo do Dr. Cunha e Costa.

“A terceira parte foi preenchida com o episódio dramático “ O Sonho do Condestável”, escrito expressamente para esta festa, pelo Sr. Dr. Alberto Diniz da Fonseca” (“O Almonda”, nº 50, 20 de Junho de 1920, pág. 1). A obra destaca-se por ser um trabalho literário de firmados créditos, que teve um ensaiador à altura- Artur Gonçalves. A estreita colaboração entre os dois contribuiu para o retumbante êxito alcançado pela peça no palco do Teatro Virgínia.

A homenagem a Nuno Álvares Pereira não se esgotou nos referidos eventos: foi impresso na Tipografia S. Miguel um número único comemorativo das festas do “ Dia de Nun’Álvares em Torres Novas”, com o intuito de legar à posteridade a opinião de destacadas figuras da cultura torrejana, sobre a figura do 3º Conde de Ourém.

São poucas as diminutas publicações que podem orgulhar-se de reunir um vasto leque de distintas vozes contemporâneas afectas a uma terra. Ligadas pelo nascimento ou por viverem na localidade durante um período marcante das suas vidas. Nesta última dimensão enquadram-se alguns nomes conhecidos, como: o futuro presidente da República Marechal António Carmona e o distinto advogado Alberto Diniz da Fonseca. Dos torrejanos podemos nomear, entre outros, o prelado Manuel Mendes da Conceição Santos (na altura Bispo de Portalegre); o estudioso da Companhia de Jesus, Francisco Rodrigues; Artur Gonçalves; Moita de Deus; Augusto Mendes; Jaime Victor; Carlos de Azevedo Mendes; P. Manuel Vieira…

Nos textos dos ilustres colaboradores perpassa uma profunda admiração pela personagem e acções de Nuno Álvares Pereira. Impondo-se aos homens através das suas virtudes morais e cívicas. Viam nas suas obras uma fonte inspiradora capaz de suster a grande desorganização social, a desmoralização e desunião que reinam no país “ (Augusto Mendes). Segundo o Bispo Manuel Mendes da Conceição “ Na apagada e vil tristeza que passa, o nome de Nun’Álvares soa como um pregão de renascimento, o seu exemplo o tónico que há-de galvanizar as energias decadentes “.

Outros torrejanos viam em Nuno Álvares Pereira, a alma gémea de Joana D’Arc. Só que, faltava a Portugal, dar-lhe a merecida dimensão ocupada pela francesa no seu país (António Pinto). “O culto sublime e grandioso da Pátria, hoje tão enfraquecido em Portugal, fortificar-se-á, quando no coração dos portugueses se erguer um altar a Nun’Álvares (…) o que a França fez com S. Joana D’Arc” (Carlos d’Azevedo Mendes).

Artur Gonçalves participa na compilação com um pequeno texto denominado “ Ditosa Pátria….”. Os parágrafos iniciais do historiador torrejano são de uma inquietante actualidade. Leitura obrigatória para todos os portugueses preocupados com o rumo do país.

Na parte final do texto o ilustre torrejano destaca o acrisolado amor de Nuno Álvares Pereira a Portugal: “ mais que um herói, embora divinizado, foi a sublimidade mística do patriotismo, a personificação viripotente da própria Pátria, que bem se pode dizer ditosa por haver tido tal filho”.

Por diversas vezes Torres Novas prestou a devida homenagem ao Santo Condestável. A última das quais, no dia 3 de Fevereiro de 1961, com a presença das suas relíquias. Nas comemorações do sexto centenário de Nun’Álvares (1360-1431), as relíquias do Santo Condestável “percorreram as principais vilas e cidades de Portugal, ligadas à sua vida” (“O Almonda”, nº 2069, 26 de Janeiro de 1961, pág. 2). Oficialmente era a quarta vez que Nun’Álvares visitava Torres Novas. Esta circunstância levou a que a vila torrejana se engalanasse para lhe prestar as devidas honras (“O Almonda, nº 2071, 11 de Fevereiro de 1961).

Depois das cerimónias do primeiro dia, as relíquias foram colocadas na igreja da Misericórdia e veladas durante toda a noite. Na manhã do dia 4 de Fevereiro, realizou-se uma Missa pelo Reverendo Vigário da Vara, na Praça 5 de Outubro, muito concorrida pela população. Finda a cerimónia sacra, as relíquias são acompanhadas por um cortejo ao longo da Avenida até ao Rossio do Carmo. Onde lhe são prestadas as oficiais homenagens pelos militares, antes de rumarem para a localidade de Tomar.

As relíquias do Santo Condestável estão envoltas em episódios acidentados. Durante mais de trezentos anos estiveram sepultadas no Convento do Carmo, onde eram veneradas pela população. Após o terramoto de 1755, que destruiu grande parte da igreja, as relíquias passaram por vários templos religiosos sem que existisse um consenso, por parte das autoridades eclesiásticas, do sítio onde haveriam de repousar. Até que foi construída a Igreja do Santo Condestável, que hoje alberga as relíquias de Nun’Álvares. Uma pequena relíquia ficou na igreja do Carmo. Lugar onde originariamente foram depostas.

Mas as histórias em torno das relíquias do 3º Conde de Ourém não ficam por aqui. Numa carta inédita, escrita a 25 de Junho de 1910, pelo Conde de Bertiandos e dirigida a José de Sousa Holstein Brandão e Mello, o assunto incide sobre as relíquias do Santo Condestável, que passamos a transcrever:

” 25 de Junho de 1910

Por ser verdade certifico o seguinte ser esta relíquia Bocadinho de osso do Santo Condestável Nun’Álvares. Cortado doutro bocadinho de osso que deram ao Conde de Bertiandos quando este foi testemunha uma das vezes que se abriu em S. Vicente [mosteiro] o cofre onde estão os restos de Frei Nuno de Stª Maria. Cerimónia necessária para o processo de canonização que está em andamento.

Condessa de Bertiandos.”

A beatificação de Nuno Álvares Pereira acontece em 1918, pelo Papa Bento XV. Mas só em 2009, é que foi realizada a pretendia canonização. Como salientámos na primeira parte do artigo.

Personagem maior da nossa História, Nun’Álvares teve por parte dos torrejanos o merecido reconhecimento. Em festas marcadas por um profundo respeito e admiração pelo patriota, guerreiro e santo. Que representa o que há de mais nobre e elevado na Alma Portuguesa.

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