SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 15 Junho 2021, 17:26

Apontamentos sobre a colaboração de Artur Gonçalves nos Jornais Torrejanos (2)

A colaboração de Artur Gonçalves nos jornais torrejanos não se circunscreveu, apenas, ao conhecido hebdomadário “O Almonda” e ao jornal por si fundado “ O Torrejano”. Quando, a 23 de Junho de 1929, surge o semanário “ A Renascença” (tendo como director Ernesto Arruda e editor, nos primeiros seis números, José Santos Ruivo) é dirigido a Artur Gonçalves o convite para participar nesta breve aventura da imprensa local de feição republicana. (As dificuldades do jornal ganham maior visibilidade a partir do nº 61, em que passa a quinzenário. O último número, 64, é publicado a 15 de Maio de 1932).

O velho decano do jornalismo figurava entre os nomes mais conhecidos e reputados da imprensa concelhia. Era perfeitamente natural que qualquer empreendimento ligado à comunicação escrita solicitasse, nos seus primeiros passos, o apoio e a cooperação do insigne periodista.

O artigo de Artur Gonçalves, impresso na primeira página do semanário “ A Renascença”, apresenta o título “ Ler e Escrever”. Nele o ilustre torrejano tece várias considerações sobre a importância da leitura e da escrita. Competências fundamentais arredadas da maior parte da população portuguesa da altura.

Na sua perspectiva, o analfabetismo do povo (com elevados índices durante a monarquia) não atingira a esperada diminuição, insistentemente propalada pela propaganda republicana. Via no comodismo e perpetuação deste flagelo pelo Estado, o meio eficaz para o desabrochamento das piores ditaduras e nefastos populismos.

O regime democrático só se mantém quando existe um povo alfabetizado e consciente. Pois, nas sábias palavras do ilustre torrejano, o dito povo é a “ grande massa eleitoral vulgarmente chamada opinião pública, sustentáculo de todas as situações políticas: das constitucionais, pelo seu voto consciente, e das anormais, pela sua indiferença culposa” (“A Renascença”, nº1, 23/06/1929, pág. 1).

Também no texto Artur Gonçalves denuncia a apatia endémica do povo português pela coisa pública. Enraizada no perigoso sofisma de acharem inconvenientes, para a sua formação, a leitura e a escrita. (Hoje os perigos centram-se, fundamentalmente, na preocupante iliteracia, na clamorosa falha de saber e ausência de cultura política).

Este comportamento serve para o autor divagar sobre um elucidativo episódio que de seguida transcrevemos:

“Um aldeão vindo à cidade viu que no peloirinho estava amarrado um homem tendo por sobre a cabeça um papel escrito, indicativo do crime praticado e pena aplicável.

Como não soubesse ler, perguntou o que dizia o papel. Responderam-lhe que o homem fora condenado por falsário.

– E que quer dizer isso? – Interrogou

– Que falsificou a assinatura de outro.

– Aí tens, desgraçado, a inconveniência de saberes escrever; por esse crime, juro eu, nunca hei-de ser castigado, graças a Deus!” (op. cit., pág. 1).

Mais à frente no texto, o ilustre torrejano continua a refutar o preconceituoso “ódio” à escrita e leitura, através do exemplo acontecido com o sanguinário imperador Nero. No instante em que assinava a morte de dois facínoras, lamentava-se de saber escrever, para que assim pudesse poupar a vida dos condenados. Como se o ditame da sua acção se resumisse ao facto de saber escrever!

Na parte final do artigo Artur Gonçalves realça alguns aspectos que ainda hoje caracterizam o nosso povo. Em grande parte resultantes do pouco apreço que os governos e os cidadãos dão à cultura e educação: os dois pilares que suportam uma sã e verdadeira democracia. Em vez deles, criaram-se uma panóplia de formas de entretenimento e alienação que prejudicam, substancialmente, a consciência social e política dos cidadãos. Inibindo-os de participarem conscientemente nos grandes temas e projectos de interesse nacional. Limitando-se a acatarem as decisões impostas pelo arbítrio e ganância das Máfias que sequestraram o poder político e o país.

Se a aposta coincidisse com a formação integral dos cidadãos, as fraquezas que o ilustre torrejano outorga ao povo português – “ brando, dócil, paciente, sofredor, macio em demasia”- não se conservariam. Mas, como reconhecia no seu tempo, não são as ideias de instrução do povo que movem as instâncias políticas. Estas estão mais interessadas em mantê-lo “mergulhado nas trevas do obscurantismo”.

A persistência nesta errada matriz levará, segundo as proféticas palavras de Artur Gonçalves, a que os cidadãos portugueses continuem a ser essa massa amorfa, inconsistente, que se amolda facilmente a todas as exigências e caprichos dos seus pseudo – dirigentes.”

O último parágrafo do insigne torrejano serve para apresentar um caminho com vista a debelar os males que enfermam a Nação portuguesa. Propõe o seguinte: “Instrua-se o povo, porque na opinião do máximo dos pensadores franceses – “ a instrução faz tudo: é a origem fecunda da ordem, do sossego e da felicidade” (“A Renascença”, nº1, 23/06/1929, pág. 1).

Uma semana depois, um novo artigo de Artur Gonçalves volta a aparecer no referido semanário. O assunto discorre sobre o título do novo jornal “ A Renascença”. Escolha desconhecida do historiador quando elaborou o seu primeiro texto.

Aflora o sentido da palavra renascimento, adoptada pelo semanário. Para Artur Gonçalves a objectivo do novo órgão passava pela“ renovação dos sãos ideais políticos republicanos que, no curto prazo de quatro lustros incompletos, se acha[vam], se não de todo obliterados, pelo menos muito enfraquecidos” (“A Renascença”, nº 2, 30/06/1929, pág. 1).

(Continua)

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