SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 13:33

Apontamentos sobre a colaboração de Artur Gonçalves nos Jornais Torrejanos (1)

“A Joaquim R. Bicho, o torrejano que melhor

dignificou a memória e a obra de Artur Gonçalves”

Para a maior parte dos torrejanos Artur Gonçalves (1868-1938) é apenas conhecido pela sua faceta de eminente investigador da História local. Os seus livros servem de apoio – do simples curioso ao académico – para a reconstituição dos factos e acontecimentos que se passaram em Torres Novas. Desde os primórdios até ao final da década de trinta do século passado.

Mas a actividade do ilustre torrejano não se restringiu ao campo da pesquisa histórica. Artur Gonçalves esteve ligado a significativos eventos culturais que ocorreram na nossa vila: encontramo-lo, envolvido na tertúlia “Hora Útil”, a ensaiar os alunos em peças de teatro para fins de beneficência e na preparação do rancho que actuou na Exposição – Feira de Santarém, em 1936. Para citar algumas das inúmeras ocupações do infatigável erudito.

Também o saber de Artur Gonçalves contribuiu para o engrandecimento da imprensa periódica em Torres Novas: um jornal local surge novamente no convívio dos interessados leitores do concelho pela sua autorizada pena de profissional. Com o apropriado título “O Torrejano” (26 de Dezembro de 1915).

É nas suas páginas que inicia a publicação de textos para a sua futura obra “Torrejanos Ilustres”, abordando as importantes personagens históricas do concelho. A primeira figura retratada foi o torrejano “António César de Vasconcelos Correia, 1º Visconde e 1ª Conde de Torres Novas”. Este marcante acontecimento deu-se a 28 de Outubro de 1917, no número 89 do citado jornal, em que Artur Gonçalves assumia, simultaneamente, as funções de director e proprietário.

A curta vida do hebdomadário ainda deu tempo para que nas suas folhas pudesse publicar catorze destacadas personalidades locais. Por ordem cronológica foram estes os ilustres torrejanos que saíram: segundo, “ José de Vasconcelos Correia, 2º Conde de Torres Novas” (nº 90 do jornal); terceiro, João de Andrade Corvo (nº 91); quarto, Cândido Celestino Xavier Cordeiro (nº 92); quinto, António Xavier de Sousa Cordeiro (nº 93); sexto, Cândido Joaquim Xavier Cordeiro (nº 94), sétimo, José Ferreira de Moura (nº 97); oitavo, Frei Gaspar dos Reis (nº 98); nono, António Prestes (nº 99); décimo, Frei Boaventura Machado, o eminente dramaturgo Simão Machado (nº 100); décimo primeiro, Frei Lourenço Craveiro (nº 101); décimo segundo, Manuel de Figueiredo (nº 102); décimo terceiro, Padre António Pimenta (nº 103) e, por último, o décimo quarto, Silvestre Gomes de Morais (nº 104).

Por razões políticas o jornal foi suspenso por ordem do Governador Civil de Santarém. Esta draconiana medida teve o efeito de intimidar a imprensa livre concelhia. Que primou, na voz de Artur Gonçalves e colaboradores, pela verdade, autonomia do pensamento e elevação moral da vida política. Quando se deu o fim suspensão, o ilustre torrejano ainda publicaria o número 104 d’ “O Torrejano”, em data posterior à indicada no jornal: 10 de Fevereiro de 1918.

Apagava-se assim, através de uma cega decisão, uma voz crítica da imprensa local. Que teve ao mesmo tempo a particularidade de levar a cultura ao convívio dos leitores torrejanos.

Mas, felizmente, o interregno de Artur Gonçalves nas lides jornalísticas foi diminuto. Fundado o jornal “ O Almonda” (que se apropriou do nome do antigo semanário Regenerador – Liberal de Luiz Mendes Franco), continua a publicação das suas pesquisas em torno dos nossos ilustres antepassados, com o reputado médico do rei D. João II, o insigne torrejano Mestre António (“O Almonda”, nº 1, de 24 de Novembro de 1918). Seguiram-se outros nomes importantes da nossa História como: António Bernardino Pereira Lago (décimo sexto); D. Diogo Fernandes de Almeida (décimo sétimo); Frei Arsénio de Ascensão (décimo oitavo); Afonso Lopes da Costa (décimo nono); Francisco Luís de Gouveia Pimenta (vigésimo); etc.

Também no periódico “O Almonda” (17/08/1919), número nove, com o texto “Marechal”, o ilustre historiador inicia a série de artigos que mais tarde seriam incluídos no seu livro “ Mosaico Torrejano”. Publicando no nº 10 do referido hebdomadário, o artigo sobre “A Ponte do Ral”. A que se seguiram a “Fonte dos Finados e Outeiro da Forca (nº 11); “Rio Almonda” (nº 12); “Rua das Freiras” (nº 13); “Outeiro do Babalhau” (nº14); Paço (nº 15), … Outros textos de destaque saíram no jornal, impregnados pela escrita apurada e vigorosa de Artur Gonçalves.

Durante algum tempo, as páginas d’ “O Almonda” deliciaram os leitores com uma extensa plêiade de artigos escritos pelo ilustre torrejano sob o título “ Erudição Fácil”. Ao todo perfazem 175 esmeradas incursões sobre assuntos de vertente clássica. Indo os seus textos beber aos grandes autores e sábios da nobre cultura.

O início da publicação dos textos acontece no dia 6 de Março de 1926, nº 343, com o tema “ Ave, César…”, terminando a 29 de Junho de 1929, nº 518, com o sugestivo título “ Morte de Sócrates” (no seu espólio consta mais um tema (176), não publicado, com o título “O Bezerro de Ouro”).

Quando hoje se fala do retorno das línguas e cultura clássica no ensino público, a edição desta “obra inédita” de Artur Gonçalves poderia ser importante para a correcta formação integral do jovem aluno torrejano. É consensual a ideia de que os graves problemas éticos que atravessa o mundo contemporâneo radicam, em grande parte, no insensato abandono da componente humanista e clássica. Baluartes da civilização e do progresso moral do ser humano.

(Continua)

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