SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 19 Junho 2021, 16:45

Crise Camarária Torrejana no jornal “República” (2)

Voltemos outra vez à notícia divulgada no jornal “ República”, que discorre pormenorizadamente sobre o caricato conflito: (…) Falou depois o vereador António Mendes, explicando aos feirantes que a Câmara estava animada dos melhores desejos de resolver a questão. Pede depois a palavra o vereador António Puga, depois de largamente explicar a sua conduta, sendo muito aplaudido e recomendando aos assistentes cordura, pede depois a demissão de vereador. Ficam apenas os vereadores Mendes e Pinheiro que, segundo ouvimos, resolveram que o terrado a cobrar seja o do ano anterior, o que foi bem aceite. Pela nossa parte estimamos a solução do conflito. Ontem mesmo os feirantes começaram armando as suas barracas” (“República” nº 420, 17-03-1912, pág. 4).

Mas a contenda iria provocar novas demissões (também a 30 de Março, Pedro Santos Raimundo escreve as razões da sua despedida da política de Torres Novas, numa declaração publicada depois no “Jornal Torrejano”) e a suspensão da primeira Comissão Administrativa Republicana. Como é referido no jornal, a 19 de Março:

“ Torres Novas, 17 – Reuniu ontem a câmara municipal sob a presidência do Sr. Dr. Santos Moita, havendo alguns protestos da parte de alguns vereadores. Finda a sessão, que foi curta, abandonaram os vereadores as cadeiras municipais pedindo todos a demissão, sendo feita uma declaração pelo Sr. Dr. Santos Moita, em como, desgostoso pelos acontecimentos, abandona a política local. Pouco depois foram entregues as chaves do edifício da câmara ao Sr. Administrador do concelho, ficando ao que nos consta algumas casas lacradas e seladas.

Estes acontecimentos têm sido desfavoravelmente comentados e objecto de conversação” (“República”, nº 422, 19-03-1912, pág. 5).

À parte do tremendo terramoto que se abateu nas instituições políticas do concelho, a feira decorria normalmente. Apenas o mau tempo, desse ano, teimava em apoquentar a clientela e os feirantes:

“ Torres Novas, 19 – Tem decorrido sem incidentes a feira anual de S. Gregório, no rossio do Carmo, havendo regular concorrência. Ali se vêem muitas barracas de ourives, quinquilharias, bazares turcos, sapateiros, fatos feitos, fazendas, louça, barracas de comidas, vistas, ginástica, homem gigante, o circo de ursos, que é o melhor divertimento. Não tem havido roubos, nem desordens, apesar da enorme concorrência dos seis dias de feira. Policiando a feira estão aqui seis guardas de polícia de Santarém”

O jornal não passa em branco nas suas páginas o momento crítico que se vivia na Câmara torrejana: “ Ainda não está nomeada a nova câmara municipal, continuando a ser muito comentados os últimos acontecimentos, tendo ontem sido distribuído um impresso do ex-vereador António Puga explicando o seu proceder durante o lamentável incidente do terrado dos feirantes [julgamos que o mesmo comunicado aparece com o título “Legítima Defesa”  publicado no “Jornal Torrejano”, nº 1428, 28-03-1912]. O texto do diário de António José de Almeida finaliza com a afirmação de que “ continuam os dias regulares, ainda que por vezes chovendo e fazendo muito frio” (“República”, nº 424, 21-03-1912, pág. 4).

No dia 24 de Março, o jornal “República” voltava a focar as suas atenções sobre a feira e o comportamento da edilidade camarária: “ Torres Vedras [engano do editor], 22 – Continua a feira de São Gregório, tendo havido regular concorrência e transacções.

À noite vê-se muita gente abancada no “Madeira” comendo e bebendo, ainda que um pouco salgado, e depois enche-se o vasto circo de ursos, divertimento que agrada pelo bom trabalho da bicharada.

Não tem havido desordem nem furtos, continuando a feira até ao dia 25.

O frio e a chuva continuam. Anda tudo cheio de gripe, devido a este péssimo tempo.”

É notícia no jornal o surto de varíola que alastra pelo concelho: “ Ouvimos que na freguesia de Santa Engrácia [?] grassa a epidemia da varíola ainda que benigna. O sub-delegado de saúde já há tempos anda requisitando vacina, mas até hoje a Câmara não o ouviu. Só quando houver mortandade então o ouvirá.

E mandam ainda afixar editais com penas para as pessoas que não apresentem a vacina. Tem graça. Só se a fossem receber em Lisboa” (“República” nº 427, 24 -03-1912, pág. 5).

A 30 de Abril, o jornal “República” noticia o fim da feira e da vinda do ministro do fomento, Estevão de Vasconcelos, à vila:

“ Torres Novas, 28 – (…) Terminou a feira anual de São Gregório, achando-se quase todas as barracas desarmadas. Ouvimos que foi fraca em transacções [a crise era enorme na altura].

Não se deram porém as costumadas desordens de alguns anos, nem roubos. Os polícias que aqui estavam fazendo serviço na feira retiraram.

Vem a esta vila, o Sr. Ministro do Fomento, que chega aqui no dia 29, visitando a Câmara no dia 30.

Vem acompanhado do Sr. Santos Moita, deputado por este círculo” (“República”, nº 433, 30-03-1912, pág. 5).

A segunda comissão administrativa do concelho realizou a sua primeira sessão no dia 23 de Março de 1912 (ainda na altura em que decorria a atribulada feira de São Gregório). Na reunião foi lavrada a distribuição dos vários pelouros. A função de presidente da Câmara recaiu sobre o antigo administrador do concelho: Francisco Antunes dos Santos Trincão, que passadas algumas semanas, cedeu o lugar ao novo presidente, Domingos Francisco de Oliveira (Acta Camarária de 18/04/1912).

Com esta nomeação encerrava-se assim, por breves momentos, mais um caricato capítulo da história política do nosso concelho (em 1913, as dissensões políticas ganhavam um novo fôlego). Recheada de cenas rocambolescas, que ensombraram os primeiros passos da República em Torres Novas.

Nota: por lapso (como é possível detectar nas imagens que suportam o texto), no artigo anterior, onde se lê “ Pelas Aldeias”, deve ler-se “ Pelas Províncias”. Também, na parte final, o periódico “O Torrejano”, deve ser substituído pelo “ Jornal Torrejano”. As nossas sinceras desculpas!

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