SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 21 Junho 2021, 23:52

Crise Camarária Torrejana no jornal “República” (1)

No mês de Março de 1912 a câmara torrejana é palco de uma crise que envolveu alguns destacados representantes políticos do concelho de Torres Novas. A controvérsia desencadeia-se tendo como pano de fundo o aumento das taxas dos terrenos utilizados na feira de São Gregório.

Mas o problema era mais grave: começavam a operar-se as divisões no seio da família republicana em luta pela afirmação política partidária. O “Jornal Torrejano”, nº 1417, de 4 de Janeiro de 1912, no artigo da primeira página “Vaidades…”, prenuncia insofismavelmente a luta de egos que se avizinhava no meio político torrejano.

O rastilho é dado através do desentendimento entre os responsáveis destinados a proceder à avaliação das taxas dos terrenos da citada feira. De um lado, vamos encontrar o vereador António Florentino Namorado, que defendia um aumento considerável das taxas. Este ponto de vista, não vai encontrar o apoio por parte do outro membro da comissão, o vereador António Puga.

Ao arrepio da opinião do seu colega, que se encontrava ausente na sessão do dia 17 de Fevereiro, António Namorado propôs um desajustado aumento que foi liminarmente rejeitado, na sessão posterior, dia 24, por António Puga. “Durante a semana que se seguiu” as vozes discordantes do povo de Torres Novas e feirantes aumentaram de tom. O que veio a dar razão ao protesto do vereador António Puga. Que no dia 2 de Março propôs a suspensão da taxa, sendo apoiado pela maioria. Só que a medida não foi implementada, como mais à frente referiremos.

Esta contenda desencadeou cenas verdadeiramente caricatas, Destaque para o conteúdo surreal da moção apresentada pelo vice-presidente José Maria de Sousa Dantas Baracho Júnior e da sua fuga à pressa após a leitura do texto, desrespeitando os presentes. O desfecho das dissensões vai obrigar a que a dita Comissão Administrativa seja suspensa, por demissão do presidente. Levando também à renúncia do cargo por parte do vereador António Puga.

Estes episódios ultrapassaram o âmbito concelhio, ganhando algum destaque nas páginas do reputado diário nacional “ República”. Que na sua rubrica, “Pelas Aldeias”, através de um correspondente local (afecto ao partido de António José Almeida), acompanhou de forma detalhada a evolução dos acontecimentos. Logo a 12 de Março surge um pequeno texto sobre o acontecido na sessão camarária do dia 9, que passamos a transcrever:

“ Torres Novas, 10 – Teve lugar ontem a sessão da comissão municipal administrativa que esteve algo animada. O vogal António Puga, tomando a peito a defesa dos interesses locais, fez ver aos seus colegas a conveniência que havia em não ser aumentada as taxas a cobrar no terrado na feira de São Gregório levantando-se discussão acalorada com o vogal Sr. Namorado, autor do projecto que aumenta o terrado.

Foi telegrafado ao Sr. Governador Civil, pedindo-lhe para que a taxa a cobra ser a do ano passado, e quando assim não seja o vogal Puga apresenta a sua demissão, pois não quer tomar parte na glória de acabarem com a feira, que só deixa benefícios a esta vila e que é antiquíssima. A feira que costumava ser sempre a 12 de Março, S. Gregório, foi agora alterada pela Câmara, em parte. Os feirantes reclamaram contra o uso de neste concelho lhes ser exigida uma licença em favor do secretário que custa 6oo réis, só para poder armar barraca.

O presidente disse peremptoriamente ser essa a licença costume em todo o país, o que foi engano, pois que em muitas cidades (incluindo Lisboa) e vilas, tanto deste distrito como doutros, essa licença se não cobra. Enfim, quando em toda a parte se criam feiras que só beneficiam o comércio, indústrias e dão vida a todas as terras, a câmara aqui não acha nelas vantagem [dislate do vogal que recebeu a anuência por parte do presidente Dr. Santos Moita e António Mendes], e diz das cadeiras municipais que a feira devia desaparecer” (“República, nº 415, de 12 -03-1912, pág. 5).

No dia 15 de Março, aparece novamente, na citada rubrica, mais um texto sobre o polémico aumento, dando conta do impasse em que se encontrava a situação, e do apelo dos feirantes ao ministro do interior:

“ Torres Novas, 13 – Continuam sem armar barracas os feirantes da feira de São Gregório. O motivo é o preço do terrado ser muito elevado. Ontem, 80 feirantes enviaram um telegrama ao ministro do interior pedindo providências contra o aumento do preço do terrado. A câmara em 2 do corrente, em sessão, resolveu aplicar a taxa nova que está aprovada pela comissão distrital. Isto causou tamanha impressão péssima impressão, tanto mais que a maioria dos feirantes já aqui estavam com despesas feitas.

No Centro Guerra Junqueiro, houve ontem uma sessão de protesto contra a atitude da câmara [mais uma movimentação do Partido Evolucionista, tentando angariar simpatizantes através da defesa da causa do povo], promovido por habitantes desta vila, a que assistiram muitas centenas de pessoas. Presidiu à sessão o cidadão João Lemos, secretariado pelos cidadãos Gregório Pinho e António da Silva. Falaram os Srs. João Mautempo e Pedro dos Santos Raimundo que foram muito aplaudidos. Falou ainda o cidadão José Isaac, explicando o procedimento da câmara e apresentando uma moção que foi rejeitada por unanimidade. Reinou sempre a melhor ordem.“

No final do artigo o correspondente manifesta o seu desejo para que o problema não descambe em quaisquer incidentes: “ Os feirantes não armam, e oxalá este incidente se resolva com brevidade e não tenhamos a lamentar ocorrências desagradáveis” (República, nº 418, 15-03-1912, pág. 5).

A 17 de Março vemos no diário, continuação dos acontecimentos, dando conta da inusitada sessão em que o vice-presidente esteve francamente mal. Não honrando o cargo que tinha assumido após a instauração da República:

“ Torres Novas, 15 – Na Câmara Municipal realizou-se ontem uma sessão que decorreu muito animada e cheia de peripécias desagradáveis. Assistiram à sessão, se assim se lhe pode chamar, grande número de feirantes, alguns comerciantes, industriais e muito povo, que iam protestar perante a câmara municipal contra o argumento extraordinário da taxa sobre o terrado.

Presidia à sessão o Sr. Baracho, estando presentes os Srs. Vereadores António Mendes, António Puga, António Namorado e Joaquim Pinheiro, tendo o Sr. Baracho lido uma moção, que achamos pouco sensata e que nos dispensamos a transcrever” (“República” nº 420, 17-03-1912, pág. 4).

Essa jóia da insensatez e infantilidade do representante camarário, não deve passar incólume à curiosidade do leitor. Por isso reproduzimo-la textualmente: “ Satisfazendo às indicações públicas manifestadas durante os últimos dias proponho: Primeiro: que a feira de São Gregório comece no dia doze de Março e dure trezentos e sessenta dias, de modo que nunca acabe. Segundo: que esta feira seja isenta de licença de pagamento de terrado e que funcione em qualquer lugar que aprouver aos feirantes, sem que a câmara tenha intervenção alguma no assunto. Terceiro: que seja declarado feriado em todo o concelho o dia de São Gregório, patrono de Torres Novas. Quarto: que a imagem de São Gregório dentro duma barraca, vendendo perningó, faça parte do brasão de armas deste concelho. Torres Novas, catorze de Março de mil novecentos e doze. José Maria Dantas de Sousa Baracho Júnior.”

Após a leitura do texto o edil – como referimos anteriormente – saiu à pressa, arrastando consigo o defensor do projecto do aumento das taxas, António Florentino Namorado. Esta polémica intervenção ficou registada em acta pela pena do secretário camarário, Carlos Prestes.

Dias mais tarde, o jornal “ O Torrejano” noticiava a demissão do vice-presidente, José Maria Dantas Baracho Júnior, acompanhada com a transcrição do seu texto. Tecendo, no fim, esta sugestiva alusão ao reprovável comportamento do dirigente político: “ Nós não fazemos os devidos comentários…o público que os faça se assim entender” (“ O Torrejano”, nº 1428, 28 de Março de 1912, pág.1).

(Continua)

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