SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 19:36

Um Linchamento Popular, no Entroncamento, há Cem Anos Atrás (2)

Como pudemos inferir, as tensões e os ódios dominaram a família republicana durante este período. O confronto entre João Freitas e a ala afonsista (em Março de 1915, corria no tribunal uma “petição de querela”, interposta pelo advogado do senador, José Gomes Mota, contra Afonso Costa, como consta no jornal “República” dos dias 4,5 e 6) é, apenas, um pequeno exemplo do período conturbado em que se vivia. Que teve no golpe de Estado de 14 de Maio de 1915, o eclodir de todos os males que afectavam as relações entre os grupos partidários. Vindo a traduzir-se num elevado número de mortos e feridos.

Segundo o jornal “República”, nº 1587, de 16 de Junho de 1915, a contenda provocou 200 mortos e mais de 1000 feridos.

A tentativa de assassinato de João Chagas e o linchamento do senador João Freitas são o prolongamento dos ódios viscerais que consumiam os representantes políticos partidários. O próprio povo não sai incólume nesta triste demência colectiva.

Os factos a seguir descritos demonstram o “desatino e raiva” em que degeneraram, nalgumas situações, os comportamentos dos homens da primeira República:

– Falhada a tentativa para matar o novo ministro, João Freitas é feito prisioneiro. Na altura em que prestava declarações à autoridade, a populaça aparece no local, alertada pelos tiros. O senador da República vê-se rodeado por uma multidão insana que o insulta e agride à paulada. Já em estado deplorável, é arrastado para a sala da 1ª classe. Aí sofre novamente as sevícias e torturas do povo, açulado, desde o início das agressões, pelos partidários afonsistas.

O acontecido impressionou negativamente o ilustre escritor Raul Brandão, que nas suas “Memórias” refere os maus-tratos infligidos ao impoluto republicano: “ (…) No comboio prenderam-no agarraram-no e entregaram-no aos sicários, que o mataram lentamente, no Entroncamento. Cuspiram-no. Escarneceram-no. Arrancaram-lhe as barbas e torturaram-no até ao último suspiro (…) ” (Raul Brandão, “ Vale de Josafat- Memórias III”, Círculo dos Leitores, 1991, pág. 51).

Mas a humilhação ao infeliz político não terminou com a sua morte. O jornal “ A Vanguarda”, publicado a 21 de Maio de 1915, refere que “ contrataram um pobre vendedor ambulante de peixe por 500 réis, para o levar na carroça pútrida e nauseante e deitar o cão, o esterco, a fera para onde calhasse”.

João Freitas foi enterrado no cemitério de Torres Novas, na vala comum, sem que dessem tempo de informar os familiares e amigos. O vergonhoso episódio teve uma acutilante resposta por parte da imprensa consciente: o diário “República”, no artigo da primeira página “Epicédio tóxico”, desmascara o coro de ataques dirigidos ao antigo deputado, lembrando a sua verticalidade e honradez. Mas não deixa de condenar o desvairamento em que soçobrou o distinto político, ao tentar pôr cobro à vida de João Chagas. Critica também a rapidez das autoridades, por ordem do administrador de Torres Novas (um partidário afonsista), em sepultar o morto “na vala comum, não fosse alguma alma piedosa surgir de súbito para o fazer inumar em sepultura própria e separada” (“República”, 21 de maio de 1915, pág. 1).

Seguindo o mesmo diapasão, o semanário “O Zé” aborda o assunto, num artigo escrito por um cidadão revoltado, de nome Vinício. Oiçamo-lo: “ Não tremeram de pavor, não, os mortos que dormem o sono eterno no humilde cemitério de Torres Novas ao baixar à vala despido de galas, honrarias, de discursos balofos e sem saudade de uma pessoa amiga, o corpo do Senador da República, a quem o [jornal] “ O Mundo”, na sua má e sempre nefasta política de ódios, apoda de louco!

Esquecido o assassino, varado pela bala de outro assassino, o seu corpo, moído pelas bengaladas da Acção Popular, e todo seu sangue ainda, foi, singelamente, metido num esquife, e dado à sepultura como um leproso, como um cão vadio, sem que uma voz apiedada se erguesse, clamando:

– Esperem, esperem que alguém corra a guardar essa carne para vós repugnante, nas quatro tábuas de um caixão modesto.

Consintam que um amigo o procure, que alguém o conduza à cova, e ali seja guardado, agora que a justiça humana já dele nada pretende, e a vítima se ergue, combalida do ataque, mas vigorosa na convalescença, quem sabe se perdoando ao agressor… ao louco … ao apaixonado por uma política odiosa que dominou ambos!»

E ninguém falou, porque ninguém esperou.

João Freitas, assassino político como Buiça e Costa, não teve como estes, as honras de uma celebridade póstuma.

O louco, o malvado, o covarde, o canibalesco, vil e traiçoeiro assassino, como agora lhe chamam, não assassinou um rei, nem um príncipe; não surgiu, na praça pública, armado o braço homicida, contra alguém de uma família real, ora extinta, ou … de política diferente.

Não, o louco ousou apontar a um homem da mesma raça mas de política diferente da sua, apareceu no compartimento de um comboio e alvejou um homem, herói de anos passados, figura grandiosa da revolução do Porto, e escritor vigoroso, e, depois do atentado, igual a todos os atentados políticos, alguém o matou, arrancou a vida ao assassino que, afinal, a justiça pretendia para condenar ou recolher num manicómio, porque lhe chamam louco…

Ah! Como é a vida, como são os homens e como é extraordinariamente rancorosa a política portuguesa!” (“O Zé”, nº 216, 25 de Maio de 1915, pág. 2).

Apesar da República emergente trazer enormes benefícios para o país, não esteve isenta de alguns episódios manchados pela bestialidade e cegueira dos seus agentes políticos e povo em geral. Como aconteceu, há cem anos atrás, no Entroncamento e em Torres Novas.

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