SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 18 Junho 2021, 23:08

Um Linchamento Popular, no Entroncamento, há Cem Anos Atrás (1)

Os primeiros anos da República estão marcados por episódios de perseguições e inimizades no seio da família do novo regime vigente. Este clima de instabilidade atravessou por um largo período as instituições políticas do país, originando a sucessiva queda dos vários governos partidários.

Por vezes através do tradicional golpe de Estado, como veio a acontecer na fratricida e sangrenta contenda de 14 de Maio de 1915. Que levou ao derrube da ditadura de Pimenta de Castro.

No rescaldo da citada revolução é indigitado para assumir o cargo de Ministro da Presidência e do Interior João Chagas (1863-1925). O paladino da República recebe com satisfação o desafio. A 16 de Maio, o diário “ A Capital”, noticiava a sua partida no rápido da tarde, do Porto para Lisboa, a fim de tomar posse no novo governo (“ A Capital”, nº1715,16 de Maio de 1915, pág. 2).

A viagem decorre sem sobressaltos até chegar de noite ao apeadeiro da Ponte da Pedra (Entroncamento). Nesta antiga paragem do caminho-de-ferro, João Chagas sofre uma tentativa de assassinato perpetrada pelo senador João José Freitas (1873-1915). Oiçamos a descrição do horrível incidente pela voz da vítima, feita no seu “ Diário” a 10 de Setembro. Na altura em que partia para França, a fim de retomar o cargo de ministro de Portugal:

“ Em 15 de Maio, uma revolução destituiu o governo de Pimenta de Castro e restabeleceu a constituição. Neste grande apuro, fui mais uma vez presidente do Conselho. Em viagem do Porto para Lisboa, onde ia assumir mais uma vez essas responsabilidades, um senador da República tentou assassinar-me. Recebi três tiros dos cinco que despejou sobre mim, de surpresa, estando eu sentado ao lado de minha mulher, num compartimento de primeira classe. Em resultado desta agressão perdi o olho direito. Fizeram-se as eleições e os democráticos obtiveram uma maioria considerável em todo o país. Constituiu-se um novo governo, depois daquele a que presidi efemeramente, num catre do Hospital de S. José” (“ Diário de João Chagas 1915-1917”, Parceria António Maria Pereira, Livraria Editora,1929, págs. 66-67).

Descrito o atentado, ficam as perguntas: quem era João Freitas? E o que aconteceu após cometer o tresloucado acto?

João José Freitas nasceu em Parambos, concelho de Carrazeda de Ansiães, no dia 28 de Maio de 1873. Republicano convicto era dotado de um fervoroso patriotismo e elevada honradez. Foi o exacerbamento destas qualidades pessoais (alimentadas pelo morticínio resultante do golpe de Estado de 14 de Maio) que o levaram a tomar a desvairada decisão de assassinar o novo chefe do executivo, próximo de Afonso Costa. Na sua perspectiva estavam em jogo a liberdade e a justiça da nação.

Formado em Direito exerce advocacia em Luanda e S. Tomé. Com a Implantação da República foi nomeado Governador Civil de Bragança. Nas Constituintes de 1911 assume o cargo de deputado integrado na lista do Partido Republicano Português pelo círculo de Braga. Desempenha também a função de professor efectivo no Liceu Rodrigues de Freitas, do Porto. Apesar de pertencer aos quadros do PRP, mais tarde, aproxima-se do Partido Evolucionista de António José de Almeida.

Defensor da governação de Pimenta de Castro, criticou asperamente no Parlamento, a 9 de Janeiro de 1914, o ministro Afonso Costa, acusando-o de impor, aquando a sua passagem pelo governo, “o nepotismo e a corrupção”. Nesse dia os ânimos estiveram ao rubro, levando à forçada interrupção dos trabalhos parlamentares. Para que se procedesse à evacuação dos espectadores das galerias, que se manifestavam ruidosamente. Meia hora depois a sessão seria retomada, continuando João Freitas a acusar Afonso Costa de tornar a República numa “falperra de barrete frígio”.

A imprensa afecta ao ministro, tentou denegrir e falsear as afirmações de João Freitas. O senador desmentiu as calúnias por meio de cartas publicadas no jornal “República”, nos dias 14 e 15 de Janeiro. O caso culminou com um processo judicial de João Freitas, interposto pelo seu advogado José Gomes Mota, contra Afonso Costa (“República”,18-01-1914, pág.1).

(Continua)

Desaparecimento

Na solidão do seu lar, quase a fazer 100 anos, deixou o mundo dos vivos a poetisa Aurélia Borges (19-10-1915 / 08-06-2015). A distinta torrejana foi grande amiga e discípula de Florbela Espanca.

De Aurélia Borges guardamos na memória a simplicidade de uma alma grande, facilmente reconhecível através dos seus poemas. Numa vida inteira devotada ao Amor às Letras e na luta pelo reconhecimento da nossa maior poetisa nacional – Florbela Espanca.

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