SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 19 Junho 2021, 07:31

Um Capelão Torrejano ao Serviço do C.E.P.

Após a Implantação da República as relações entre o Estado e a Igreja atingiram graves níveis de conflitualidade, culminando a 20 de Abril de 1911 com a aprovação, por parte do Governo Provisório, do polémico decreto da “Lei da Separação”.

A entrada de Portugal na Grande Guerra acontece numa altura em que ainda estavam bem vincadas as tensões e as hostilidades entre os dois campos desavindos. Os primeiros soldados partiriam para o inferno da batalha sem que o Estado cuidasse, nessa hora trágica, da assistência religiosa aos crentes portugueses que iriam sucumbir em solo estrangeiro.

Apercebendo-se da gravidade situação, a igreja e muitos católicos conscientes, reagiram contra a indiferença do Governo: estava em causa o conforto espiritual e a salvação da alma dos militares lusos. Por outro lado, o país era motivo de vergonha na cena internacional. Todos os outros exércitos beligerantes tinham acautelado devidamente a assistência religiosa.

Manietado pela imprensa e por uma onda de protesto que aumentava dia a dia no país, o Governo publica o decreto Nº 2869, de 30 de Novembro de 1916, através do qual permite a assistência religiosa em campanha. A sua execução foi concretizada no dia 18 de Janeiro de 1917. Poucos dias antes da partida do primeiro contingente português para França.

O decreto impunha medidas excessivamente discriminatórias aos sacerdotes voluntários que aceitassem exercer as funções de capelão no C.E.P. Muitos dos seus pontos revelam a enorme desconfiança que os livres-pensadores republicanos sentiam pelo clero e do efeito negativo que os padres podiam exercer junto dos soldados contra o governo emergente. O decreto estipulava que não teriam qualquer vencimento do Estado (valeu o meritório auxílio da Comissão Central de Assistência Religiosa em Campanha) e que seriam equiparados a alferes (os capelães franceses ostentavam o posto de capitão).

Apesar dos ardilosos obstáculos colocados pelo governo, foram escolhidos quinze capelães. Número previamente fixado pelo Estado-Maior (Mais tarde, reconhece a insuficiência do número de padres. Corrigindo, depois, o erro). O cargo de chefia do corpo sacerdotal caiu nos ombros do cónego da Guarda, D. José do Patrocínio Dias (1884-1865). Grande homem da igreja, que se tornou Bispo de Beja em 1920. Teve conhecimento da nomeação papal, através de uma carta da Nunciatura de Lisboa, escrita a 29 de Novembro.

Nesta primeira listagem de voluntários capelães consta o torrejano Manuel Rodrigues Silvestre (1869- 1936), que na altura era pároco de Cela, concelho de Alcobaça. O ilustre conterrâneo nasceu na localidade da Brogueira, Torres Novas, no dia 17 de Janeiro de 1869. Era filho de José Rodrigues Silvestre e de Marcelina da (Conceição?) Piedade.

Cursou Teologia no Seminário de Santarém, recebendo o diaconado a 14 de Março de 1889. Seis meses depois, a 19 de Setembro, foi ordenado presbítero.

A guerra apanha-o a exercer a actividade sacerdotal na localidade de Cela. As duras provas por que iam passar os soldados portugueses exigiam a presença de um guia espiritual e companheiro no infortúnio. Manuel Rodrigues Silvestre não voltou costas ao desafio.

Respondendo a um apelo interior oferece-se para acompanhar o CEP. O requerimento do pároco torrejano é deferido pela Secretaria da Guerra, a 14 de Março de 1917, com a indicação para se “apresentar no Quartel-general do Corpo Expedicionário Português, Largo da Trindade, nº 17 -2º Lisboa, a fim de receber instruções”.

Manuel Silvestre embarca de Lisboa, a 11 de Abril de 1917, rumo a França. No Depósito de Adidos da Base Portuguesa, “marchou para Lestrin até Lé Fauret”, onde assume as funções de capelão. O exercício revela-se extenuante. A seu cargo contará com milhares de almas pertencentes a vários batalhões portugueses. As dificuldades de assistência aos soldados durante a Guerra são claramente denunciadas numa carta inédita do capelão Alexandre Carvalho. Sem que houvesse por parte dos sacerdotes sintomas de qualquer desânimo:

“ (…) Só agora te respondo. Desculpa. Tenho tido bastante que fazer. Imagina uma freguesia de cerca de 5.000 mil soldados dispostos numa extensão de 8.000 mil metros tendo eu a residência numa extremidade. Sou presentemente capelão de infantaria 3, 8, e 29 e espero ainda o 20. Sou meio bispo. Tenho três igrejas e por favor de Deus 3 coadjutores.

(…) Ontem presidi ao mês de Maria num dos regimentos de Braga. Fiquei contentíssimo. Tinha a igreja repleta de soldados. Confessei alguns e vim-me embora para a minha casa já de noite. Tenho aprendido coisas interessantes cá pela região. Estou mui satisfeito com as vinhas que o Senhor me Destinou. Reza pelos meus soldados…” (19-05-1917).

A aventura do pároco torrejano durou pouco mais de oito meses no terrível cenário da guerra. No dia 15 de Dezembro de 1917 regressa a Portugal para descansar durante os trinta dias da licença. Mas o cansaço e a doença levam-no a solicitar a baixa definitiva. O requerimento é deferido, sendo abatido ao efectivo do Corpo Expedicionário Português, segundo comunicação do Q. G. F. em nota Art. 806, de 30 de Janeiro de 1918.Manuel Silvestre tinha para recordar na sua curta passagem pelo palco da Grande Guerra as cicatrizes no abdómen e braço, resultantes dos ferimentos causados pela explosão de um engenho.

A coragem e abnegação foram uma constante dos apóstolos de Deus nos vários momentos do confronto bélico. Exemplo maior: o heroísmo dos sacerdotes no inferno de La Lys (9 de Abril de 1918). No final da guerra o Corpo Voluntários dos Capelães recebeu 15 louvores individuais e um colectivo. O seu espírito de sacrifício e entreajuda valeu-lhes os mais rasgados elogios por parte dos altos representantes da Nação. Até mesmo dentro das facções republicanas, hostis ao catolicismo. Era o retomar de uma estreita conciliação há muito desejada.

Para a nossa memória colectiva fica registado neste artigo alguns apontamentos sobre a acção de um dos seus valorosos filhos no trágico cenário da Grande Guerra. Símbolo de abnegação e de elevado altruísmo no desempenho das suas funções.

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