SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 13 Junho 2021, 14:51

Uma Fábrica Torrejana do Século XVII

O aparecimento de uma importante oficina industrial na vila de Torres Novas aconteceu muito antes da paradigmática Fábrica de Estamparia, construída na segunda metade do século XVIII por Henrique Meuron e David Suabe. A aposta neste sector remonta a largos anos atrás. Teve o seu arranque após a Restauração de Portugal em 1640. Nesta altura desenvolveram-se vários ramos da indústria nacional, principalmente os ligados à actividade bélica.

Abraços com a guerra, o rei D. João IV (1604-1656) sentiu a necessidade de incrementar no país oficinas que pudessem fabricar a pólvora necessária para o seu exército. Estavam em jogo a defesa e a consolidação da independência portuguesa.

Um dos artífices de fogo que respondeu ao chamamento régio foi o cidadão francês Antoine Rotier. Sabendo da existência de salitre no país, firmou o seu primeiro contrato com a coroa nacional em 1641, a fim de explorar o precioso nitrato utilizado na fabricação da pólvora. As duas fábricas construídas pelo petardeiro francês estavam situadas, uma em Lisboa e a outra em Torres Novas.

Mas, pelos vários acordos firmados com Antoine Rotier, tudo leva a crer que ele não respeitou algumas das exigência reais. No ano de 1644, mais propriamente a 31 de maio, foi estabelecido um novo contrato com o francês, sendo reavaliadas algumas das anteriores disposições. Como em baixo passamos a transcrever, por meio das cópias dos documentos reais insertas no livro “ Da Exploração do Salitre…”, de João Manoel Cordeiro,1854:

“Sua Majestade por fazer mercê a António Rotier, atento ao desejo que ele tem de servir, ainda que conforme os contratos passados, eles estão quebrados (…).

Que Sua Majestade mandará fazer avaliação da casa e fábrica, e cousas pertencentes a ela, desta cidade, e o mesmo da de Torres Novas, as quais se lhe darão pela avaliação, para que ele se logre delas de acabar o dito contrato, e passado ele as tornará a entregar, e Sua Majestade lhe pagará aquilo que em que ele com a sua fazenda as tiver melhorado (…).

Que ele dito Antonio Rotier será obrigado a fabricar na oficina desta cidade, no estado em que está, cento e vinte e cinco quintais de salitre cada ano, e entregará à sua custa na Torre da Pólvora [hoje o local é designado por Cova da Moura, em Lisboa] cada mês dez quintais, e cinquenta e três arráteis e três quartas, em que nos doze meses perfaz a sobredita soma de cento e vinte e cinco quintais (…).

Que da mesma maneira se obriga a dar outro tanto salitre como este, da fábrica de Torres Novas, posto também na Torre da Pólvora à sua custa, acrescentando-se-lhe uma caldeira com as mesmas condições na bondade e no demais.

E querendo Sua Majestade dobrar a fábrica daqui, em casa e caldeira, por cada caldeira que mais se acrescentar à fábrica daqui, dará cada ano da mesma maneira outros cento e vinte e cinco quintais repartidos aos meses, como fica dito dos primeiros, e isto até quatro caldeiras, que é o mais que pode obrar nesta cidade, de maneira que com as quatro caldeiras fará cada ano nesta cidade ao todo quinhentos quintais, e a fábrica de Torres Novas dará sempre cento e vinte e cinco quintais por não ser capaz de mais (…) ” (Alvará Real de D. João IV, de 15 de Outubro de 1644).

A premente necessidade que representava a produção de salitre indígena levou o rei D. João IV a conceder particulares privilégios a Antoine Rotier. Ao petardeiro cabia o papel de “procurar outros locais onde o houvesse”. E se falecesse, antes de se “cumprirem os vinte anos do final do contrato”, a administração das fábricas passaria para os seus descendentes. Apenas ficariam obrigados a cumprir os parâmetros previamente acordados (op. cit.,1644).

Todo o material utilizado para a produção do salitre devia ser-lhe facultado. E se houvesse algum impedimento este seria ultrapassado através da acção de um julgador nomeado pelo rei. O teor dos privilégios ia ao ponto de António Rotier ter a exclusividade de exploração do salitre em Portugal. Havendo pesadas penas para quem infringisse o contrato régio com o empresário francês. Que podia passar pela “ perda de toda a sua fazenda, aplicada a terça parte para os cativos, e a outra terça parte para o denunciante, e a outra para ele António Rotier, e três anos de degredo para o Brasil” (op. cit., 1644).

O processo para a obtenção do salitre era bastante moroso. Implicava imenso tempo e cuidados. A par disso, o material e recursos logísticos ligados à sua extracção requeriam avultadas quantias monetárias. Como forma de aliviar os encargos, o rei concedeu diversos privilégios aos detentores deste tipo de indústria.

Anos depois, no contrato real firmado em 2 de Junho de 1648, aparece como detentor da Fábrica de Salitre de Torres Novas, o petardeiro francês João Francisco Roberto. Desconhecemos as razões que levaram à substituição no cargo o antigo dono. Talvez por não ter cumprido as exigências do rei, foi retirada a António Rotier a concessão. O certo é que João Roberto passou a ministrar as duas fábricas, anteriormente chefiadas pelo seu conterrâneo.

Este novo contrato regulamentava a posse da fábrica em Lisboa. Nele o rei manteve algumas regalias que concedera a António Rotier. Como a cedência dos “três carros com os seus bois moentes”. Deu também a João Roberto “ duas caldeiras menores” para substituir a caldeira grande que se tinha rompido.

O salitre da oficina lisboeta devia ser entregue na Torre da Pólvora, como procedia em relação ao que “fabrica [va] em Torres Novas, e se lhe pagará a nove mil e trezentos réis por quintal que é o menos por que se pode dar tão bom como ele o faz, e em princípio da fábrica por não estar ainda com a prevenção necessária” (D. João IV, 2 de Junho de 1648).

No documento aparecem discriminados alguns dos privilégios concedidos aos petardeiros: o francês João Roberto não pagaria “ nenhuns direitos de lenha, palha, e mais coisas que forem necessárias para a fábrica, e serão livres deles, constando por certidão do Tenente-General de Artilharia em como são para a dita fábrica do salitre (…) e que lhe passarão as provisões necessárias para o tirar das terras como é costume” (D. João IV, 2 de Junho de 1648).

O acordo tinha a duração de “ seis anos”. Se se desse o caso de o monarca pretender dar o negócio a outrem, teria de ressarcir o petardeiro. A menos que João Francisco Roberto não demonstrasse interesse em continuar com a oficina ou falhasse no cumprimento das suas obrigações contratuais. O texto termina com uma alusão a respeito do antigo contrato relativo à fábrica de Torres Novas, salientando que o acordo mantinha-se “nos mesmos moldes e pelo mesmo preço” (op. cit.,1648).

A crescente necessidade do salitre levou o rei a promulgar alvarás para a criação de novas oficinas em outros locais de Portugal (1654). Mas mesmo assim o país nunca atingiu a desejada auto-suficiência. Grandes quantidades do nitrato, utilizados no fabrico da pólvora, provinham do estrangeiro, principalmente da Índia. O menor custo da extracção ditou, nos reinados seguintes, o arrefecimento na aposta do salitre indígena, impondo o encerramento da fábrica em Torres Novas.

Nos finais do século XVII a exploração deveria ter findado. Por esse motivo as diversas monografias torrejanas mantêm uma completa mudez sobre a fábrica que, no seu tempo, desempenhou um papel importante na consolidação da nossa independência e no florescimento do tecido industrial português.

Para a história da nossa indústria, fica na memória o facto de Torres Novas ser um dos primeiros locais onde se procedeu à extracção industrial do salitre indígena, em larga escala.

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