SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 13 Junho 2021, 05:19

Um Episódio Torrejano no Discurso Parlamentar do General Baracho (1)

O general torrejano Sebastião de Sousa Dantas Baracho (1844-1921) perfila-se como uma das mais destacadas figuras na História do Parlamento Português. Ao longo de várias legislaturas ocupou de forma brilhante o cargo de deputado, impondo-se como um parlamentar atento aos problemas do país e à vida política nacional.

Orador temível e impetuoso, Sebastião Baracho impregnava os seus discursos com um fino recorte de humor e desarmante ironia. Caindo, por vezes, numa cruel mordacidade, quando o objectivo passava por desmascarar a vaidade e o arbítrio dos seus adversários.

Muitas das suas intervenções políticas encontram-se reunidas na obra “ Entre Duas Reacções”. Livro de memórias, composto por cinco volumes, onde faz “ o repositório dos factos e feitos ocorridos nos últimos nove anos da deposta monarquia, bem como em cerca dos quatro primeiros anos da República vigente.”

O ilustre torrejano inicia a obra com um ajuste de contas aos males de que padecia a República, mostrando-se desencantado pelos caminhos então trilhados. Que a prostrara nos mesmos vícios do regime anterior: “ O ardente culto com que de longa data celebro a democracia, genuína e regenerante, afastou-me da desregrada monarquia, de quem ruidosamente me divorciei. Esse mesmo fervor inextinguível me desgostou da República, logo que os seus maiorais, traindo a propaganda oposicionista insistentemente feita, renegando o nunca desmentido programa partidário de 11 de Janeiro de 1891, e incoerentemente esquecendo a inequívoca proclamação Constituinte de 19 de Junho de 1911, desastrada e desastrosamente converteram a República democrática, que os factos enumerados consagravam, na República protocolar e presidencialmente aristocrática, que nos depaupera, esmaga e ridiculiza. Não admira, pois, que não esteja integrado com a contrafeita República actual, quem também o não estava com a aleijada monarquia deposta. Não pode decerto agradar a paródia a quem enojadamente repudiou o original” (BARACHO, Sebastião; “Entre Duas Reacções”, J. Rodrigues & Cª, vol. I, pág. 3, 1915).

A frontalidade e a coragem estavam nas veias deste português à antiga, da raça dos de “antes quebrar que torcer”. Como se encontra aludido no azulejo colocado na parede onde existiu a sua antiga casa. Situada na actual rua Dr. F. L. de Gouveia Pimenta.

No Parlamento e na Assembleia, as suas intervenções chegavam ao ponto de criticar a postura e actos dos altos representantes da Nação. Não se inibindo pelo facto de os visados ocuparem lugares superiores, na estrutura hierárquica social e política.

Um desses casos referidos na obra – sessão Parlamentar nº 42, de 13 de Abril de 1904 – incidiu sobre o Ministro da Guerra, o Conselheiro Pimentel Pinto (op. cit., vol. II, pág. 11- 32, 1917).

Na extensa intervenção de Dantas Baracho deparamos, num dos seus pontos, com um episódio acontecido em Torres Novas. O ilustre torrejano pretendia com a ocorrência descrita, reforçar o longo historial de arbitrariedades e de prepotências cometidas pelo chefe do ministério.

Que indecorosamente se prontificou a defender a conduta soez do administrador do concelho torrejano (pela consulta que fizemos no livro de Artur Gonçalves “ Memórias de Torres Novas”, pág. 150, julgamos tratar-se de João Maria Lúcio Serra), numa querela que o representante local teve com um oficial da Escola Prática de Cavalaria. Sem que se desse ao trabalho de ouvir a parte lesada.

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