SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 13 Junho 2021, 05:56

Canções de Abril

São poucas as obras editadas no período sombrio antes do 25 de Abril que ainda conseguem despertar em nós o grito da alma de um povo, subjugado pelo medo e pela miséria. E que incentivam o Homem a não desistir da construção de um mundo mais justo e fraterno.

Uma tarefa em parte alcançada pelo pequeno livro de letras de música “ Eu Canto para que os Desertos fiquem à Sombra”. Obra policopiada clandestinamente com o recurso ao stencil nos finais da década de sessenta do século anterior. Em pleno período fascista.

Muitos dos nomes que integram a colectânea pertencem ao grupo de conhecidos autores da poesia e da canção portuguesa do século XX. O seu objectivo passava pela denúncia “da dor e viuvez” em que o país mergulhara.

Abordando assuntos tão actuais como: “ A miséria do povo; a opressão dos poderosos; a emigração; o pessimismo dos jovens; a cobardia; a indiferença, etc.”. Propondo-se também a pôr a canção ao serviço daqueles a quem não foi dada a possibilidade de pensar sobre os problemas do mundo em que vivem.

Hoje, somos confrontados pela mesma doença e problemas que estiveram na origem das sibilinas palavras do livro. Basta acompanharmos os seus textos para sentir crescer em nós idêntica amargura. Originada por um tempo dominado pela opressão e injustiças:

“ No meu país todos os poderes estão nas mãos de uma minoria de cerca de cinquenta famílias e creio que as decisões para o bem-estar das maiorias não vão partir destas minorias” (op. cit., pág. 9).

A colectânea “ Eu Canto para que os Desertos Fiquem à Sombra” é um documento panfletário em que muitas das letras se destacam pela sua inquietante actualidade. Como no poema, de Daniel Filipe (1925-1964), “Meu País”:

“ Meu país meu país/ Do céu límpido calmo/ De campos cultivados/ De praias e montanhas/ É para ti meu canto/ A minha esperança/ Ouço a tua voz triste/ Ó meu país sem culpa/ Ouço-a nos dias mornos/ No amanhecer cinzento/ E é para ti meu canto/ A minha esperança/ Meu país onde a traição domina/ E o medo assoma nas encruzilhadas/ Meu país de prisões e cobardias/ E de ladrões de estradas…” (op. cit., pág. 17).

Ou neste outro sobre a emigração. Com letra e música de Manuel Freire (1942):

“ Ei-los que partem/ Novos e velhos/ Buscar a sorte/ Noutras paragens/ Noutras aragens/ Entre outros povos/ Ei-los que partem/ velhos e novos/ Ei-los que partem/ Olhos molhados/ Coração triste/ A saca às costas/ Esperança em riste/ Sonhos doirados/ Ei-los que partem/ Olhos molhados/ Virão um dia/ Ricos ou não/ Contando histórias/ De lá longe/ Onde o suor/ Se fez pão…” (op. cit., pág. 23).

Apesar da força expressiva das suas canções, os poetas integrados na colectânea estavam conscientes de que teriam de lutar contra imensos obstáculos. Entre eles, a indiferença de muitos portugueses e a sua recusa de “caminhar, de lutar, de arriscar”.

Na tentativa de demover os homens da sua cómoda cobardia, há poemas do livro que fazem o intransigente apelo à coragem. A não ficar de braços cruzados.

A última estrofe da conhecida poesia de Manuel Alegre (1936), “Trova do Vento que Passa” perfila-se nessa linha:

“ (…) Mesmo na noite mais triste/ Em tempo de servidão/ Há sempre alguém que resiste/ Há sempre alguém que diz não” (op. cit., pág. 64).

Porventura, a luminosidade premonitória da obra acontece no texto com o título “Enquanto a Esperança não Morre”. Em que fala de Portugal como “o país do sol”; “o país de Abril”. E se ainda não o for, solicita aos indigentes para que o construam:

“ Aqui é o país do sol; se não o for façamo-lo. Como? Chamemos todos os poetas, chamemos todos os pobres, quer dizer os menos – os menos em dinheiro, menos em sangue, menos em sorte, menos em tudo – e depois chamemos nós os homens que querem. Deste encontro há-de resultar, temos a certeza o país de Abril.

Mas estamos todos, porque não há então país de Abril? Porque a Esperança ainda não é suficientemente forte para empurrar a verdade. A Esperança começa e engrossa (até já pensamos no país de Abril) e um dia será rio, (e os rios não se podem deter por muito tempo) será o rio de Abril” (op. cit., pág. 69).

Quarenta e um anos depois da revolução dos cravos é urgente reinventarmos novamente Abril através da voz dos poetas! Foi um enorme erro delegar a continuação do sonho de Abril nas mãos dos tecnocratas, dos burocratas e políticos profissionais. Hoje estamos a pagar esta ingenuidade.

No perigoso tempo em que vivemos, dominado pela ocultação e mentira – através da “Sociedade do Espectáculo”-, necessitamos outra vez que a voz corajosa dos poetas nos guie no combate à exaltação da ignorância, à mercantilização da vida. E a todas as formas de escravidão do ser humano.

Porque as revoluções nascem na poesia, exige-se-lhe para que seja o arauto da emergência de uma nova sociedade. Mais justa e fraterna.

Só a poesia tem a força capaz de abrir o coração do homem simples ao Sonho e à Esperança.

Um novo Abril há-de surgir através das canções dos poetas!

Nota: Morreu um Homem Bom da nossa Terra, com quem vou aprendendo a conhecer e a amar o património e as gentes de Torres Novas.

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