SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 23 Junho 2021, 16:43

Torrejanos Ilustres em Acções de Beneficência

Na passagem do dia 20 para 21 de Março do ano de 1888, uma inesperada catástrofe abateu-se sobre o Teatro Baquet, na cidade do Porto. O ambiente de enorme alegria em que decorria o espectáculo, não fazia prever a horrível tragédia que se avizinhava. Nessa noite, com a sala completamente cheia, prestava-se a devida homenagem de beneficência ao actor Firmino, representando a peça “ Os Dragões de Villars” e a zarzuela “ Gran-Via”.

Quase a terminar a cerimónia, no terceto da paródia cómica, uma das gambiarras roçou pelas bambolinas que desceram de repente. Ao toque do director para a subida do pano, as chamas começaram a inchar dentro do rolo, alastrando-se pelos camarotes e pelo palco.

A confusão e o terror apoderaram-se dos presentes. No desespero da fuga caiu um grande número de espectadores, formando um imenso amontoado de corpos onde ecoavam gritos lancinantes de dor e de medo.

Muitos dos espectadores e artistas ficaram privados dos seus pertences e familiares. O próprio beneficiado, o actor Firmino, perdeu no incêndio a pequena filha e os bens oferecidos na sua infeliz festa.

Extinto o fogo, largas dezenas de corpos jaziam dentro do teatro, asfixiados pelo fumo e carbonizados pelo fogo. As consequências deste episódio dantesco iriam marcar a vida das pessoas que perderam os seus entes queridos. Esposas, mães e filhos ficaram sem o seu amparo e chefe de família, ensombrando-os com a inevitável miséria.

Esta negra tragédia teve o ensejo de despertar uma onda de solidariedade no país. O infortúnio aproximava mais uma vez os homens, que se prestaram em socorrer os órfãos e as famílias carenciadas. Todos quiseram contribuir com o seu óbolo para minorar a indigência que assolou muitos dos familiares das vítimas. A própria casa real, na pessoa da rainha D. Maria Pia, desdobrava-se em acções de caridade, visitando os enfermos e os desvalidos da calamidade. Proferindo-lhes palavras de conforto e prometendo ajuda monetária.

A imprensa não ficou indiferente à tragédia. Com o objectivo de ajudar as vítimas sobreviventes do incêndio do Teatro Baquet, publicou um número único intitulado LISBOA-PORTO. O dinheiro da venda da edição reverteu para o benefício dos desventurados. Nela colaboraram as figuras mais distintas da época, entre pintores, escritores e elementos da família real, como o príncipe D. Carlos, D. Amélia, o rei D. Luís I e a rainha D. Maria Pia. Eça de Queirós, Teófilo Braga, Rafael Bordalo Pinheiro e Columbano fizeram parte do enorme leque de artistas que se prontificaram em colaborar.

Na benemérita publicação constam também os nomes de dois ilustres torrejanos: João de Andrade Corvo (1824-1890) e Carlos Reis (1863-1940). O primeiro, através da assinatura de um pequeno texto. Onde espelha os contrastes que dominam a vida humana. Ora vogando pelas mãos da mais doce alegria ou afundando-se no mais profundo desespero:

Na vida os contrastes dominam sempre e fazem mais sensíveis o prazer e a dor, a luz e a sombra. Ao pé do prazer é a dor mais pungente como ao pé da luz a sombra é mais escura”.

Segundo Andrade Corvo, o facto de termos experienciado o prazer torna-nos demasiado sensíveis à dor que constantemente assola a nossa vida. E o sofrimento é maior para o ser humano que viveu uma intensa alegria. Como a sombra, que é mais escura quando está perto da luz.

Por breves momentos, o velho Séneca torrejano deixara o seu voluntário isolamento para cooperar, com as suas prudentes palavras, no apaziguamento da dor das vítimas. A vida dera-lhe a sábia lição da inelutável convivência entre dor e a alegria. E do significado da perda. Princípios que quis transmitir através deste simples texto.

Já o contributo de Carlos Reis na publicação consistiu na feitura de um desenho que se encontra na página onde estão os textos de Fernando Palha e Armando da Silva. Quando a imagem é feita, o pintor torrejano contava 25 anos. Nesta altura era aluno da Escola de Belas Artes, mas tinha como projecto pessoal aperfeiçoar-se no estrangeiro. Propósito que abraça, ao concorrer a 20 de Outubro do mesmo ano da tragédia do Teatro Baquet, a uma bolsa de estudo, como pensionista do Estado.

A presente realização gráfica mostra o rosto pesaroso de um homem (talvez uma das vítimas da catástrofe) ensimesmado nos seus pensamentos. O facto de o retratado apresentar as pálpebras fechadas indicia-nos que habita na sua alma uma enorme dor e tristeza. Nesta obra é visível o traço característico da técnica de desenho em carvão do pintor torrejano. Que mais tarde irá apurar, colocando-o na fileira dos grandes retratistas do seu tempo.

Também o prematuro envolvimento de Carlos Reis em acções de beneficência revela-nos a sua faceta de pintor de causas. O ilustre torrejano estava sempre predisposto a colaborar com a sua produção artística na ajuda aos acossados pelos infortúnios do destino.

Alguns anos depois, volta a colaborar novamente numa acção desta natureza. Acontece no álbum intitulado “ Folhas de Ouro”, Lisboa, 1917. A obra contou com a participação gratuita de vários escritores portugueses e artistas. O intuito passava por doar o produto total das vendas do livro ao Sanatório dos Empregados Tuberculosos dos Caminhos de Ferro do Estado. Nomes sonantes da literatura portuguesa desfilam nas suas páginas. Por vezes os textos são adornados com o desenho ou pintura de um brilhante artista português, como: José Malhoa, Roque Gameiro, Teixeira Lopes, etc.

Carlos Reis presenteia-nos no álbum com uma magnífica “Cabeça de Estudo”. Desenho que revela um pintor mais amadurecido, dominando de forma exímia, através da utilização da técnica do carvão, os contrastes das sombras e da luz.

As acções ligadas à beneficência não andaram arredadas da vida destes dois ilustres torrejanos. Que souberam pôr em prática a verdadeira união moral entre os homens. Os seus gestos exemplificam fielmente o espírito de dádiva e solidariedade perante as situações de miséria e de infortúnio que esmagam, por vezes, a vida de alguns seres humanos.

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