SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 18:20

Uma Cena no Cemitério do Castelo de Torres Novas (2)

A poesia de Nuno Sousa Moura inscreve-se na tradição romântica, bem ao jeito dos grandes escritores portugueses, como Almeida Garret e Alexandre Herculano. A presença constante da morte – na linha do exilado de Vale de Lobos – perpassa pelos seus versos, marcados por fortes tons de espiritualidade e religiosidade. O carácter sublime do enredo não deixa indiferente o leitor. Rendido ao trágico destino que irá conduzir a alma do infeliz namorado.

O poema abre com a descrição da entrada do cortejo no castelo. Um cenário pesaroso insufla os seus versos de uma profunda tristeza. Pressagiando o clímax final.

Nessa trágica noite:

“ Tocava o sino, e os echos lamentosos/ Do funéreo troar longe carpiam!/ Perto calosa mão abre a garganta/ Tragadora dos mortos!… Ais sentidos, (…)/ Trazidos pelas auras reflectiam/ Nos muros do castello! – Aberta a grade/ Dá entrada o cortejo. Tochas duas/ Acompanham a Cruz: apoz o esquife/ E o sacerdote que levou na vida/ Por caminhos da Graça desvelado/ A definhada ovelha, murmurando/ Os psalmos vai, porem tam mal distinctos/ Que intende-lo!…só Deus (…)“ (pág. 142).

Parado o cortejo, próximo da campa, uns negros cabelos sobressaem do lençol branco que serve de mortalha. Era bela a jovem e infeliz mulher. A implacável mão do destino ceifou-lhe a gloriosa vida. Restando apenas um corpo inanimado:

“ Involto n’um lençol jaz o cadáver,/E já nas orlas do sepulchro aberto,/ na mesma terra que cubri-lo deve./ Mas o morto quem é? Negros cabelos/ Contrastam com a alvura da mortalha,/ E nada mais se vê. Juncto o coveiro,/ E a tenebrosa noite que os cobre! Todos os mais se foram.” (pág.143).

Quando o coveiro se preparava para lançar as primeiras pazadas de terra, eis que um estranho vulto se aproxima e arroja-se sobre o cadáver da desditosa. O medo enlaça o pobre coveiro. Atemorizado pelo invulgar episódio:

“ – Nunca hospede tal houvera…nunca,/Nesta hora e lugar/ – Amedrontado,/ Sem falla, espavorido, e como louco,/ Julgando-se com almas d’outro mundo…/Foge!” (págs. 143-144).

Um entrecortado choro sai da exangue boca do infeliz enamorado. Lamentando a perda de um grande amor. A sua vida deixa agora de ter sentido na terra:

“ Morreste, ai de mim! (…) ai de mim! Morreste! / E não morro tambem!..Que faço agora,/ So sobre a terra, sem prazer sem alma?! (pág. 144).

Recorda com infinita tristeza o murchar das lindas flores que colocou nos cabelos da amada. Metáfora da vida que se apagara:

“ Essa prenda de amor, as lindas flores/ Com que as tranças te ornei se desfolharam!/ – Nada te resta da passada gloria…/ Nem tam pouco a mim! – Immoveis, mudos, os teus lábios estão!.. Torpor eterno,/ Gêlo da morte lhe aferrára o sêllo,/ (…)Dura rocha os teus membros se tornaram…/ Mal te conheço já!..” (pág.144).

O desejo da morte envolve a martirizada alma do amado. Esperando, desta forma, juntar-se à saudosa desaparecida:

“ Veu do sepulchro,/ Involve-me também, cobre-nos ambos./ N’estes olhos gentis, ora nublados,/ Minha aurora sorria!.. (pág.144).

Uma imensa dor apossa-se do infeliz. O coração contrai-se, emudecendo-lhe o peito. Nas ameias da torre do castelo um mocho pia por três vezes, batendo depois as asas “para se mais não ver”, pressagiando o triste fim:

“ Sobre as aras sagrentas do martyrio/ Recebe amor a vida ao desgraçado,/(…) ‘Stalou-lhe o coração saudade extrema,/ Cruel magua o feriu, cahiu de morte” (pág.145).

Este verídico episódio teve o sortilégio de perturbar a alma sensível, do então tenente da cavalaria Nuno Sousa Moura. Que, através dos seus versos, tentou imortalizar a inolvidável cena.

Sem as suas palavras, a presente tragédia de amor apenas viveria nas adormecidas entranhas das milenares pedras do castelo. Fechando-nos irremediavelmente as portas a um caso digno de figurar nas mais belas páginas de amor da História torrejana.

Nota: Na primeira parte do artigo, onde se lê “Para que possamos descobrir alguns episódios imortais acontecidos no nobre castelo”, deve ler-se “ Para que possamos descobrir alguns episódios imortais presenciados pelo nobre castelo.”

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados