SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 19:13

O Assassinato de um Herói Torrejano

Foi a treze de Fevereiro de 1965, há precisamente cinquenta anos, que perto da localidade de Villanueva del Fresno, em Espanha, acontecia um dos crimes mais hediondos da nossa História-Pátria. Naquela tarde, em Los Almerines, os verdugos do regime fascista puseram fim à vida de um dos nossos mais valorosos portugueses: o general Humberto Delgado (1906-1965).

Terminava de forma cruel os dias de intrépida luta do brilhante militar torrejano. Vitimado por uma armadilha arquitectada por vários elementos da PIDE, a mando de altos funcionários do Estado Novo. E com o assentimento do presidente do Conselho, que respirou de alívio por ver desaparecer um dos seus maiores inimigos políticos.

Apesar do percurso ideológico de Humberto Delgado se encontrar, primeiramente, associado aos quadros do regime, o seu distanciamento político verifica-se após a sua permanência em países de formação democrática, como os Estados Unidos e o Canadá. Os anos passados nestas nações contribuíram para o apego do ilustre torrejano aos valores da justiça e da liberdade. Iniciando um caminho de crítica e de afastamento em relação ao regime fascista de Oliveira Salazar. Tendo atingido a sua maior discórdia, no ano de 1958. Aquando a candidatura do general à Presidência da República.

As corajosas palavras – o “ Obviamente, demito-o”- pronunciadas na conferência de imprensa, ocorrida no café “Chave de Ouro”, ditaram, a partir daí, uma acérrima hostilização movida pelos carrascos e espiões do Estado Novo. Que culminou com a sua premeditada morte (Operação Outono), em solo espanhol.

Muita tinta correu a propósito do referido crime e/ou desaparecimento do general e da sua secretária, Arajaryr Campos. As explicações encheram as páginas dos matutinos internacionais com base em teorias e hipóteses. Algumas delas eram mera propaganda de elementos afectos ao governo português (o próprio SNI e a PIDE envolveram-se neste tipo de desinformação) com o intuito de culpabilizar os grupos próximos do general. Inventando, também, as notícias de que o general estaria em África ou na Checoslováquia. Numa tentativa de desviar as atenções dos órgãos de informação estrangeiros e os portugueses da verdade dos factos: o envolvimento directo da PIDE no assassinato do general.

A descoberta dos cadáveres, na tarde de sábado do dia 24 de Abril de 1965, numa zona próxima da fronteira chamada de “caminho de los Malos Pasos”, mostrava ao mundo de forma convincente a mão do governo português na selvática morte de Humberto Delgado.

Há vários anos que o ilustre torrejano encabeçava a lista dos maiores opositores ao regime fascista. Uma luta que não se circunscrevia ao plano da palavra, mas que tentava através da acção atingir os seus intentos: o assalto ao luxuoso transatlântico Santa Maria (1961) e o falhado golpe na revolta de Beja (nos finais de Dezembro de 1961) foram sérios avisos de Humberto Delgado contra o poder vigente.

Nesta última operação entrou em Portugal para participar no golpe, “sob as barbas” da PIDE. Esteve no nosso país durante vários dias sem que a polícia política o conseguisse apanhar. Passou até, após o fracassado golpe militar, por Torres Novas e pela sua terra natal. A mensagem que deixou, nestas duas tentativas, foi a de um homem convicto na luta pela libertação a curto prazo do país da ditadura salazarista.

O iminente perigo que Humberto Delgado representava para o Estado Novo, ditou a ordem para a sua eliminação. Um trágico final esperava-o nesse malfadado dia treze de Fevereiro. Há cinquenta anos.

Efeméride marcada por uma dupla faceta: ao mesmo tempo que evoca a tragédia individual do nosso ilustre torrejano – barbaramente assassinado -, simboliza todos os crimes perpetrados pelo Estado Novo contra a liberdade e esperança do Povo Português.

Nota: É conveniente assinalar, neste artigo, a iniciativa (mesmo que singela) levada a cabo pela Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes em homenagear o General Humberto Delgado. Na semana em que decorrem os cinquenta anos do assassinato do ilustre torrejano.

Compreendo as limitações da entidade pública em arranjar documentação que melhor identifique algumas fases importantes da vida do General. Mas permitam-me este modesto reparo: colocar no expositor da sala da Biblioteca (em pouco mais de meia dúzia de folhetos) quatro publicações ligadas ao Estado Novo, que tiveram por finalidade denegrir o carácter impoluto do ilustre torrejano, é obra!

Sabendo, de antemão, que o objectivo do evento passa por homenagear (?) o General Humberto Delgado, seria de bom-tom retirar os lastimáveis folhetos. A falsidade das afirmações que contêm, sem que haja uma nota a alertar, mancha a voluntariosa Exposição.

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