SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 22 Junho 2021, 08:50

O Busto de Carlos Reis na Avenida

Na aprazível quietude do jardim de Torres Novas, próximo das imediações da ruidosa rotunda que liga a Avenida ao viaduto, encontra-se o monumento dedicado ao ilustre torrejano Carlos Reis (1863-1940).

Um espectador desatento sentirá grandes dificuldades em associar esta bela imagem com o busto em gesso, que se encontra à entrada da exposição permanente do pintor torrejano, no museu Municipal Carlos Reis. A maqueta, existente no espaço museológico, serviu para modelar a projectada imagem em bronze que se encontra no jardim. As duas obras foram executadas pelo distinto escultor Raul Xavier (1894-1964), no pretérito ano de 1946. Tendo, depois, sido inauguradas, com pompa e circunstância, a 20 de Abril de 1947.

Durante a cerimónia, dedicada ao insigne artista torrejano, o Dr. Carlos Azevedo Mendes (1888-1962) vaticinou que este primeiro busto tinha o condão de abrir as portas para muitos outros. O antigo Presidente da Câmara acalentava o sonho (desejo que não teve a devida continuidade nos posteriores executivos camarários) de ver surgir pelos “ canteiros do jardim, como flores de reconhecimento, os bustos daqueles, cujo nome tem enaltecido a nossa Terra” (“O Almonda”, nº 1448, de 26 de Abril de 1947, pág. 8). E nessa importante plêiade de torrejanos ilustres que, nas palavras do representante da edilidade, mereciam ser homenageados em bronze, destaca-se o historiador “que nos deu a conhecer as páginas brilhantes da nossa história” (“O Almonda”…). Um gesto institucional que pretendia lembrar a enorme dívida de gratidão de Torres Novas a Artur Gonçalves (1868-1938).

Reportando às páginas do citado jornal “ O Almonda”: a inauguração do busto do pintor torrejano coincidiu com a homenagem ao grande herói português, Nuno Álvares Pereira (1360-1431). A cerimónia, realizada na vila, juntava assim dois nomes que estão associados à história torrejana. Do pintor torrejano muito se tem dito e escrito, o que leva a que seja facilmente associado à terra do Almonda. Já a ligação do Santo Condestável é desconhecida para a maior parte dos torrejanos. Nun’Álvares encontra-se vinculado a Torres Novas através do ramo feminino da família Martins Pimentel de Novais. O Conde D. Gonçalo Pereira, bisavô do herói e estratega da batalha de Aljubarrota, casou com a descendente torrejana D. Urraca Vasques Pimentel.

No dia 20 de Abril de 1947 uma imensa multidão de torrejanos afluiu ao jardim da Avenida. Unia-os o sentimento comum de homenagearem um dos filhos mais queridos da sua terra. O solene acontecimento contou com a presença dos amigos e familiares do ilustre pintor. Os filhos, João Reis e Maria Leonor Reis, deslocaram-se propositadamente da capital para comungarem nesta marcante iniciativa. E também o neto, Pedro Reis que, na altura, frequentava o Liceu de Camões.

Pelas doze horas e trinta minutos, o presidente da edilidade, Dr. Carlos de Azevedo Mendes, iniciou a cerimónia tecendo algumas breves considerações sobre a finalidade da homenagem. Vendo neste acto um motivo de orgulho para todos os torrejanos. Agora podiam contar com a presença “espiritual” do pintor no espaço que, ainda hoje, é considerado como a “Sala de Visitas” de Torres Novas.

Coube ao neto do pintor, Pedro Reis, descerrar o busto de homenagem a Carlos Reis. Uma cerimónia que ainda de guardar com enorme emoção na sua “caixa de afectos”. No momento da vida em que suporta o mesmo peso dos anos com que se extinguiu o seu avô.

A seguir ao presidente da edilidade, falou o ilustre torrejano José Lopes dos Santos (1889-1972). As suas palavras incidiram sobre as características estéticas de alguns quadros do pintor Carlos Reis e a eternidade da Arte. A eloquência do seu discurso mereceu, posteriormente, um telegrama pessoal do filho do pintor. Onde lhe agradece, em seu nome e da família, “ as palavras de homenagem a [seu] pai proferidas com tanta eloquência no dia da inauguração do monumento”.

O pintor João Reis, comovido pela homenagem da Câmara Municipal de Torres Novas, agradeceu “aos torrejanos a iniciativa do monumento e a Raul Xavier e Luís Xavier a colaboração artística que lhe deram” (“ O Almonda”…). O agradecimento ao filho do escultor, o arquitecto Luís Xavier, deve-se ao facto de o plinto em que assenta o busto de Carlos Reis ser da sua autoria.

Também a filha de Carlos Reis, Maria Leonor Reis, participou na cerimónia depositando “um ramo de flores naturais junto ao monumento”. Um forte sentimento emocional, provocado pela cerimónia, tolhia-lhe as palavras de gratidão endereçadas a todos os torrejanos presentes.

Mas a homenagem ao pintor Carlos Reis não se circunscreveu ao bonito espaço do jardim. Ao raiar da tarde, no Museu Municipal de Torres Novas, é inaugurada a conhecida maqueta.

Hoje, o eventual visitante do Museu Carlos Reis pode apreciar no busto em gesso os reconhecidos traços faciais do mestre torrejano. Sabiamente colocados pela mão artística e espiritual do excelente escultor que foi Raul de Xavier. E se, logo de seguida, puder veranear pelas frondosas margens do bonito jardim de Torres Novas, tem a possibilidade de confrontar a mesma beleza e espiritualidade, agora plasmadas no busto em bronze.

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