SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 23 Junho 2021, 12:36

Um Eminente Matemático Torrejano (2)

Entre os vários escritos que Manuel de Figueiredo deixou impressos – além dos citados-, destacamos os seguintes: “ Roteiro e navegação das Índias Ocidentais, ilhas Antilhas e mar Oceano Ocidental, com suas derrotas, sondas, fundos e conhecenças”, Pedro Craesbeeck, Lisboa, 1609; e “ Hidrografia, Exame de pilotos, no qual se contém as regras que todo o piloto deve guardar em suas navegações, assim no sol, variações da agulha, como cartear com algumas regras da navegação de Leste a Oeste, com mais o Áureo Número, Epactas, marés e altura da estrela polar. Com os roteiros de Portugal para o Brasil, Rio da Prata, Guiné, S. Tomé, Angola, e Índias de Portugal e Castela”, Lisboa, 1608.

O “Tratado da Pratica de Arismetica…”, editado pela Casa de Vicente Alvarez, não é da sua plena autoria. A obra foi composta, anos antes, por Gaspar Nicolas, natural de Guimarães. O ilustre torrejano, Manuel de Figueiredo, após a publicação da primeira impressão, corrigiu e acrescentou novos dados ao livro de Gaspar Nicolas. Pelo número de edições, a obra serviu na sua época como um importante meio de aprendizagem e prática na arte da Matemática.

No prólogo da presente obra encontramos uma dedicatória ao Conde de Tentúgal, onde o autor tece algumas considerações sobre a importância da aritmética, colocando-a como fundamento de todas as Artes Liberais. Tendo a especial particularidade de abrir ao homem as portas do seu entendimento (op. cit., pág. 2).

O livro ensina várias operações relacionadas com a Matemática, como: “ a somar, diminuir e multiplicar, e a repartir, somar quebrados, e a repartir quebrados. Toda a sorte de regra de três, de inteiros e quebrados (…) e muitas regras, e as regras das oposições (…), e a liga de prata, e o ensaiar, e quanto vale (…) a liga dos onze dinheiros” (op. cit.,pág. 2).

Logo a abrir as matérias aparece uma importante recomendação para os aprendizes: a necessidade de saber de cor o que o autor designa por pequena tabuada, que abrange as multiplicações, do número um até ao número dez: “Esta tabuada é necessário saber de cor mais que outra nenhuma” (pág.4). Uma memorização que os alunos efectuavam na antiga escola primária. Hoje, infelizmente, esquecida por várias razões. Entre elas, o uso das nefastas calculadoras no ensino básico. Julgamos que a boa aprendizagem nos primeiros passos na matemática, tem muito a ver com a memorização destas operações fundamentais.

Outra recomendação, feita pelo autor, passa por saber “estas palavras de cor, para que te fique na memória, e são estas: unidade, dezena, centena, milhar, dezena de milhar, centena de milhar, contos, dezena de conto, centena de conto e milhar de conto” (op. cit., pág. 7).

Nos vários capítulos, da primeira parte do livro, são abordadas diversas operações matemáticas, socorrendo-se a exemplos práticos. Desde somar, multiplicar, diminuir e repartir. Um grande número de páginas explica a diminuição ou “repartição dos quebrados [fracções]”, “a regra de três com quebrados”. Também foca a regra da oposição.

O livro não cai na excessiva teorização da aritmética. Nele constam muitos exemplos práticos. Há até um capítulo (o número XXVI), dedicado exclusivamente a “Perguntas”, que se estende por mais de cem páginas. A obra também ensina como se deve tirar a raiz quadrada de um número.

A segunda parte do manual trata da “Geometria” (pág.107), constando a sua abordagem em diversos capítulos. Na primeira parte, são afloradas algumas perguntas respeitantes práticas versando a disciplina. No segundo capítulo, trata de ensinar as regras para determinar os ângulos de um dos lados do quadrângulo. Nos capítulos, terceiro, quatro e quinto, as figuras geométricas em análise, são o quadrado e um triângulo (op. cit. pág. 109-111). Segue-se depois o círculo, procurando, através de exercícios práticos, levar o aluno a determinar o diâmetro e a área (pág. 111-114). Nas páginas seguintes, os assuntos tratados encerram maior complexidade matemática e geométrica, sendo os elementos propostos, edifícios arquitectónicos como: torres, chafariz, fontes, paredes (op. cit. pág. 114- 123). Mais uma vez são fornecidos exemplos práticos que ajudam o leitor a determinar as suas áreas e a saber construí-los.

Na parte final, o livro debruça-se sobre o tema da “Liga de Prata”. O conhecimento desta matéria era de enorme importância para as relações comerciais e financeiras.

Apesar do “ Tratado Pratico de Arismetica…” não ser uma obra da exclusiva autoria de Manuel de Figueiredo, o facto de ter dado o seu contributo para a correcção e acrescentos no referido manual prático (bastante em voga na época), demonstra a enorme importância e reputação que o ilustre torrejano usufruía no país – dos mais cotados matemáticos do seu tempo.

Torres Novas não se esqueceu da grandeza do seu ilustre cientista, honrando com o seu nome uma das nobres instituições públicas de ensino da cidade: A Escola Básica dos  2º e 3º Ciclos Manuel de Figueiredo. Onde são ministradas muitas das matérias sobre as quais o ilustre torrejano foi um dos expoentes máximos.

Nota: Para melhor compreensão do público-leitor substituímos a clássica designação de folha do livro por página.

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