SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 22 Junho 2021, 07:59

Um Eminente Matemático Torrejano (1)

A recente atribuição do “Prémio Pessoa” ao historiador de Ciência, Henrique Leitão, teve a virtude de dar a conhecer a um mais vasto público o nome de Pedro Nunes (1502-1578). Um dos maiores matemáticos do país e figura proeminente na Europa do seu tempo. O distinto cientista português desempenhou funções de regente dos cursos de Filosofia Moral, Lógica e Metafísica na Universidade. Doutorou-se em Medicina e exerceu o cargo de cosmógrafo-mor do reino de Portugal. Título para o qual foi nomeado em 1547.

A Pedro Nunes deve-se a invenção do célebre dispositivo o Nónio, utilizado para melhorar os instrumentos de precisão dos navegadores. O seu saber criou escola em Portugal e até no estrangeiro. Entre os mais destacados discípulos do grande matemático do século XVI, encontra-se o torrejano Manuel de Figueiredo (1568 (?) – 1630). Também ele, um respeitado autor das ciências matemáticas e na arte de navegação.

Descendente de uma família nobre, Manuel de Figueiredo nasceu em Torres Novas, provavelmente na segunda metade do século XVI. A ligação à terra do Almonda é inquestionável. No título do livro “Chronographia: Reportório dos Tempos…”, editado no ano de 1603 (ainda em vida do autor), aparece indicado Torres Novas, como o lugar do seu nascimento. Na citada obra, dividida em seis partes, o autor torrejano desenvolve temas como: a cosmografia, astronomia (2ª parte), geografia (3ª parte) a arte de navegação, e a astrologia rústica (4ª parte), muito necessaria para a agricultura, & pera todo o laurador curioso amigo da lauoura, & com hum tratado muito necessario, & proueitozo a saude humana para os fisicos, surgiães, & sangradores, & pronosticação dos eclipses do sol, & da lua” (op. cit. pág. 150). A previsão discorre desde 1503 até 1630, “computados para o meridiano de Lisboa” (op. cit. pág. 261).

Também aborda no livro sexto “ da fabrica, e uzo da balhestilha, ou radio astronomico, e do uzo & fabrica do quadrante giometrico & da fabrica , & uzo dos relogios orizontais, verticais, laterais equinociais, polares declinantes a todas as partes do mu[n]do & enclinantes” ( op. cit. pág. 267).

A balestilha era um instrumento de orientação muito usado na época dos Descobrimentos portugueses para orientação no mar. Ajudava os navegadores a determinar a latitude a que um navio se encontrava. Exemplo de uma balestilha, é a que se encontra nas mãos do homem – talvez o retrato aproximado do cientista Manuel de Figueiredo – na imagem do artigo. Tendo sido retirada da obra do nosso conterrâneo (op. cit. pág. 268).

O ilustre torrejano serviu como cosmógrafo-mor do reino, por impedimento temporário de João Batista Lavanha que, por vezes, tinha de se ausentar do país, para a corte de Espanha. Dada a importância do cargo, era nomeado um substituto. E o quarto cientista a ocupar a função de cosmógrafo-mor do reino, foi o nosso insigne torrejano (Artur Gonçalves, na sua obra “Torrejanos Ilustres”, pág.179, atribui-lhe, por lapso, o terceiro desempenho do ofício).

A nomeação consta no alvará régio, exarado a 15 de Julho de 1608: “ Eu El Rey faço saber aos que este alvará virem que avendo respeito a enformação que tenho da suficiência de Manoel de Figueyredo, ey por bem e me praz que elle sirua de cosmographo mór enquanto durar a ausência do proprietário do dito officio (…) Francisco d Abreu o fez em Lixboa a quinze de julho de seiscentos e oito. Janalvarez Soares o fez escrever” (Torre do Tombo, Chanc. de D. Filippe 2º, Doações, Lº 18, fl.318 v.).

As funções do ilustre torrejano passavam por examinar os eventuais autores de cartas de marear, globos, astrolábios, balestilhas, quadrantes, relógios. Competia-lhe também, em primeira instância, a definição e demarcação de costas, lugares, mares, etc.

Mas o cargo fora-lhe imputado anteriormente. No livro que abordaremos no presente artigo “Tratado da Pratica de Arismetica…”, datado de 1607, no subtítulo aparece esta referência“ … Manoel de Figueyredo cosmógrapho Mór da Conquista destes Reynos de Portugal”. Sendo assim, a função já era exercida pelo ilustre matemático, antes da indigitação oficial para “primeiro cosmógrafo do reino”.

A fama do ilustre torrejano não se circunscreveu ao nosso território lusitano. Era respeitado, tal como Pedro Nunes, pela elite de sábios estrangeiros. Viam nele um grande erudito nas áreas das Ciências, nomeadamente, Náutica, Matemática e Física. Chegando ao ponto de ver traduzida para francês, por Nicolas le Bon, uma das suas obras científicas sobre a arte de navegação.

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