SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 19 Junho 2021, 15:21

Humberto Delgado e a TAP

De forma atabalhoada, o actual governo tenta, novamente, lançar o anátema da privatização sobre uma das instituições, que tem sido ao longo dos anos, um dos últimos redutos da orgulhosa identidade nacional. Agora compreendemos o cínico propósito de os governantes trazerem na lapela do casaco a bandeira portuguesa. Querem à viva força reduzir o país a um mero “pin”, onde se encontra latente o vergonhoso “slogan”: “Vende-se!”.

Os graves problemas que hoje a TAP atravessa, resultaram de uma intencional gestão ruinosa e de escolhas duvidosas. Tendo como objectivo demonstrar a sua inviabilidade enquanto instituição pública. Interesses perniciosos fizeram mossa na enorme reputação da TAP, granjeada ao longo de várias décadas.

A Transportadora Aérea Portuguesa era, até há pouco tempo, mundialmente reconhecida como uma das grandes companhias internacionais. Constituída por óptimos pilotos, excelentes engenheiros, e um idóneo quadro de pessoal técnico e auxiliar, onde impera o culto do brio profissional. Suplantando muitas das suas congéneres internacionais com enorme peso no sector.

É mais um dos graves crimes perpetrados por um “governo pária” (abriram a mão à mais despudorada mentira para ganharem as eleições) que, infelizmente, ainda se mantém em exercício, destruindo o pouco que resta das importantes instituições públicas do país. Hoje, poucos são os portugueses que estão de acordo com as medidas implementadas pelos actuais decisores políticos, nas múltiplas áreas da vida colectiva, como: a saúde, a educação, as finanças, a justiça, as relações laborais, etc. A TAP seguirá, inapelavelmente, o costumeiro caminho da privatização. Mesmo contrariando o desejo do povo português, que vê plasmada na companhia a prestigiante bandeira nacional.

Para nós torrejanos, a medida revestir-se-á de maior infortúnio, pois a nossa ligação à TAP é dupla: além de nos revermos na importância que tem enquanto porta-estandarte do país e elo de união entre as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo; a companhia aérea foi resultado do sonho de um homem – o ilustre torrejano Humberto Delgado.

Poucos serão os portugueses que associam a Transportadora Aérea Portuguesa ao nome do general. Conhecido, principalmente, pela corajosa postura evidenciada na campanha às presidenciais de 1958. Mas é um facto comprovado que os primeiros passos da companhia tiveram a assinatura do nosso conterrâneo. Ainda que, no tempo da ditadura, elementos ligados ao regime, procurassem apagar a decisivo contributo do ilustre torrejano para o nascimento dos Transportes Aéreos Portugueses. A famosa Ordem de Serviço Nº 7, assinada por Humberto Delgado, no dia 14 de Março de 1945, marca o início da constituição oficial da TAP. Um acontecimento que resultou de um projecto iniciado, anos antes.

Já no período final da Segunda Grande Guerra, Humberto Delgado argumentava sobre a urgência de o país ter uma Companhia Aérea l que o dignificasse no quadro geoestratégico mundial. Portugal era um dos poucos países colonizadores que não tinha uma companhia de transportes aéreos civil de grande dimensão no panorama nacional e internacional.

Num convite formulado pela União Nacional – para falar no seu II Congresso, a propósito de carreiras aéreas comerciais-, Humberto Delgado voltava a referir a necessidade do Estado apostar nesta área, como afirmação da nossa soberania.

Por pressões várias, o presidente do conselho, António Oliveira Salazar, cria um novo órgão para tratar dos assuntos relativos à aeronáutica civil: o Secretariado da Aeronáutica Civil (SAC). Cabia a esta instituição lançar as bases para o estabelecimento de linhas aéreas portuguesas. Para chefiar o novo organismo foi indigitado o ilustre torrejano. A escolha de Humberto Delgado não obedeceu a quaisquer critérios políticos ou amizades. Foi feita pela simples razão de que o ilustre torrejano era o homem mais indicado para concretizar a árdua tarefa. A importância que revestiu o projecto levou Humberto Delgado a denominá-lo por “Era do Fogo”. Estava-se a dar um passo importante na história da aviação civil nacional.

Ao longo de todo o processo, o ilustre torrejano deu provas de grande profissionalismo e inteligência. As dificuldades que teve que ultrapassar não o desanimaram. Exigiu a Salazar que as instalações do organismo fossem condignas. Não poderia sujeitar um organismo da grandeza do secretariado a um simples 2º andar ou a uma casa alugada. A primeira imagem do SAC para o exterior era dada pela sua sede. Nessa medida, propôs ao ditador que o Estado Português adquirisse o Palacete sito na Avenida da Liberdade. No referido imóvel funcionou o Secretariado da Aeronáutica Civil a partir de 1945.

A experiência internacional de Humberto Delgado foi decisiva para a eficiente organização do SAC. O bom funcionamento da aviação civil, para o ilustre torrejano, resumia-se à divisa “exactidão”. Segundo ele: “ Sem exactidão não há motores que funcionem bem, nem aviões que partem a horas, além de a segurança aérea ser afectada. Essa exactidão não importa existir apenas no pessoal técnico, mas também no burocrático, pois que dum erro dactilográfico, dum esquecimento, duma falta de precisão de linguagem numa transmissão escrita ou oral, podem resultar mortes ou ao menos o desprestígio para a Aviação Civil” (Ordem de Serviço nº 16 do SAC, 04 de Dezembro de 1945).

Humberto Delgado teve também a ensejo de escolher o pessoal mais capacitado para o êxito do projecto. Não se intimidou pelo facto de ter dado um lugar de destaque no Secretariado a um cidadão estrangeiro, que muito sabia sobre a aeronáutica: o engenheiro polaco Waclaw Litwinowicz. Na vigência do ilustre torrejano fizeram-se melhoramentos no aeroporto da Portela (Lisboa) e inaugurou-se o aeroporto das Pedras Rubras (Porto).

Humberto Delgado conseguiu dar à TAP a desejada autonomia técnica e logística. Os primeiros aviões que a companhia utilizou, os Dakota americanos, foram adquiridos das sobras da guerra. Sendo depois convertidos para a aviação civil. A ele se deve a abertura de uma linha aérea entre as duas importantes cidades do país. E num dos aparelhos Dakota (CS-TDF), a 19 de Setembro de 1946, inaugurou a primeira carreira regular internacional da TAP, ligando Lisboa a Madrid. Socorrendo-se nas carreiras aéreas de pilotos portugueses.

Mas o maior orgulho do ilustre torrejano, à frente dos destinos da TAP, aconteceu no dia em que foi criada a Linha Aérea Imperial, que ligava a metrópole às colónias africanas de Angola e Moçambique. Após várias viagens experimentais, a inauguração oficial do percurso acontece no dia 31 de Dezembro de 1946, para seis dias depois, aterrar em solo português além-mar. Seria este o último êxito de Humberto Delgado no desempenho das suas funções como director da companhia.

Hoje, a transportadora é mundialmente conhecida, sendo um dos mais importantes símbolos nacionais no estrangeiro. Por essa razão, ao vender-se a TAP não estamos apenas a privar-nos de uma simples empresa. Estamos a alienar uma parte importante da nossa História e do nosso prestígio internacional. Uma inquestionável verdade que Humberto Delgado, muitos anos antes, compreendeu.

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