SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 17 Junho 2021, 22:17

Um Bispo Torrejano nas Exéquias aos Mortos da Grande Guerra

Há quase cem anos, os soldados portugueses sofriam uma das suas piores derrotas no campo de batalha. Foi a 9 de Abril de 1918, na infernal batalha de La Lys, travada na região de Flandres, durante a Primeira Guerra Mundial.

Necessitaríamos de recuar muito tempo na nossa História, para encontrarmos um acontecimento militar que tivesse proporções tão devastadoras para a alma nacional. Em pouco mais de quatros horas de intenso morticínio, por parte das tropas alemães, milhares de combatentes portugueses perderam a vida. Outros tantos enfileiraram no número de desaparecidos e prisioneiros.

Uma onda de infelicidade varreu o coração das famílias portuguesas, marcadas pela perda de pais, filhos, irmãos e amigos. A incomportável dor que assolou a pátria, exigia, urgentemente, que fossem prestadas as devidas homenagens aos soldados caídos, lá longe, no campo de batalha.

A cerimónia religiosa ocorreu em Lisboa. Num acontecimento que simbolizou a esperada reconciliação da família portuguesa, desavinda desde a implantação da República. A partir desta altura (já a 1 de Fevereiro, uma Missa dita por alma dos soldados mortos na guerra, tivera a presença de representantes governamentais), a Igreja Católica e o Estado republicano firmavam as pazes, deixando para trás “anos de amargo isolamento, de torturante equívoco”, sentindo que um “mesmo destino os irmanava”. A malfadada guerra tinha possibilitado a aproximação entre o poder temporal e o poder espiritual, reintroduzindo novamente, na vida colectiva do povo português, o papel e a acção dos católicos.

A oração fúnebre, em memória dos soldados caídos em combate, no fatídico dia 9 de Abril, foi proferida na Sé Patriarcal de Lisboa, a 15 de Maio de 1918. Teve as presenças do cardeal patriarca, presidente da República, ministério, corpo diplomático, familiares dos soldados, e do povo em geral. O acontecimento marca a primeira participação do mais alto representante do Estado em cerimónias de cunho religioso.

Nestas exéquias solenes também participou o então bispo de Portalegre, D. Manuel Mendes da Conceição Santos (1876- 1955),cabendo-lhe o papel de proferir o texto oratório em honra dos soldados mortos.

O distinto prelado era natural de Pé de Cão, Torres Novas, tendo nascido no pretérito dia 13 de Dezembro de 1876. A sua vocação religiosa despontou muito cedo. Aluno brilhante e de elevadas qualidades morais, integrou o grupo dos três portugueses escolhidos para cursar no seminário Pontifício Romano, oferecido pelo Papa Leão XIII. De regresso a Portugal, é nomeado professor substituto no Seminário de Santarém. Foi ordenado presbítero a 27 de Maio de 1899, celebrando no dia 4 de Junho a sua primeira missa na igreja do Salvador, em Torres Novas.

Com passagens por Santarém e pela Guarda, é depois nomeado bispo de Portalegre, através da Bula do Papa Bento XV, datada a 9 de Dezembro de 1915. A presente oração fúnebre, foi escrita no período em que esteve à frente do Episcopado da referida cidade do Alentejo (quatro anos depois, ocupa a diocese de Évora).

Mas os primeiros passos de D. Manuel da Conceição Santos na oratória aconteceram em Santarém. Escreveu na cidade escalabitana vários sermões, aquando a sua passagem pelo Seminário. Estes escritos são o prenúncio do nascimento de um exímio artífice na arte da palavra.

Nota-se nos seus trabalhos, um enorme apuro da construção estilística, profundeza da palavra e um perfeito domínio linguístico. Fazendo relembrar os nossos grandes mestres da retórica.

Apesar da sua pequena estatura, D. Manuel Mendes conseguia cativar o público-ouvinte. Para isso, muito contribuíram o seráfico semblante do bispo (um colega de sacerdócio, no tempo em que exerceu o ministério no Cartaxo, ao mandar reparar o tecto da igreja, deu aos traços do anjo, o rosto do ilustre torrejano) e a força emocional do seu verbo, capaz de elevar o mais empedernido dos auditórios. A esta faceta podemos também acrescentar a clareza inteligível e a fluidez do seu discurso. O caudal das frases saía-lhe ininterrupto do pensamento, sem a menor incoerência ou falha, secundado por uma convincente argumentação.

Foram poucas as vezes que os torrejanos tiveram o privilégio de ouvir as suas magníficas prelecções. Uma delas aconteceu a 21 de Julho de 1901, na igreja de São Pedro, em Torres Novas, durante as festas de Nossa Senhora da Soledade. Ao pregar o sermão em honra da santa.

A oração fúnebre, aos soldados portugueses mortos no campo de batalha, é um texto de uma enorme densidade emocional. O momento solene levou o ilustre torrejano a construir um sermão profundamente patriótico, sem cair em lamentações frívolas ou lamechices.

Por meio de um tocante discurso, D. Manuel Mendes da Conceição conseguiu transmitir ao auditório, presente na Sé Patriarcal de Lisboa, que a morte dos nossos bravos militares não fora em vão. O seu sacrifício tivera a virtude de “despontar na terra da pátria uma floração viçosa de liberdades justas e sentimentos fraternais” (Oração Fúnebre…, pág. 19).

O reverendo sacerdote viu nessa hora trágica, uma porta de esperança para os portugueses que, nos tempos sombrios do conflito bélico, acalentavam o projecto da construção de um mesmo sonho de grandeza nacional, ” ressurgido, como a fénix da lenda, destas ruínas de malquerenças e equívocos para uma paz perdurável e digna assente no respeito mútuo e na compreensão nítida de todos os direitos” (Oração Fúnebre…, pág. 20).

Não podemos ver na sua oratória uma apologia da guerra. Muitas frases do texto contrariam essa perspectiva simplista. Logo no início da magnífica prelecção, D. Manuel Mendes Santos, põe a descoberto a vã glória do homem ao pretender enaltecer-se, usando a guerra ou as vaidades do mundo. Toda a primeira parte está assente na eterna verdade bíblica do “pulvis es”. A grandeza humana, a soberba humana, a ambição humana, é pó, e nada mais! (Opus. cit., pág. 6).

Apenas os que souberam não se confundir com a vil matéria e o egoísmo, puderam escapar à incontornável pergunta do Apóstolo: “ Onde está, ó morte, a tua vitória?” (I Aos Coríntios,15, 55). E nesta esfera estão os humildes soldados portugueses que caíram em combate, movidos pela “fé, valor e dedicação”. “Três palavras, três ideias que a matéria não abrange, que a terra não dá, e que sobrevivem aos cataclismos da matéria e da terra, para glória dos que sucumbem, para incitamento dos que ficam” (op. cit., pág. 8).

Abandonados no campo de batalha pelos seus superiores, os soldados portugueses deram uma nobre lição de entrega generosa em defesa da pátria e da paz no mundo. Um reconhecimento que se estendeu ao campo inimigo.

Num texto inédito, escrito por um dos intervenientes no inferno humano do 9 de Abril, podemos depreender a admiração que os portugueses alcançaram nas hostes adversárias. Passemos a transcrever: “ E tanto assim é que na cova dum soldado português, apareceu uma cruz com o seguinte epitáfio escrito em puríssimo alemão: «Aqui jaz um valente português».

Quando os próprios inimigos assim falavam o que deveremos dizer nós? ”

Saibamos, hoje em dia, na altura em que se evoca o horrível conflito, prestar a nossa humilde homenagem aos soldados que sucumbiram na Grande Guerra. Que, nas palavras de D. Manuel Mendes da Conceição, são os verdadeiros descendentes dos nossos eméritos antepassados. Orgulho de uma forte Nação, hoje governada por fraca gente, prisioneira da soberba e do egoísmo humano.

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