SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 17 Junho 2021, 22:01

Ilustres Torrejanos Governadores da Índia (3)

O fim da nossa ocupação do território indiano aconteceu na altura em que desempenhava as funções governativas o general Manuel António Vassalo e Silva (1899-1985). Nascido em Torres Novas, na freguesia de São Pedro, a 8 de Janeiro de 1899, o ilustre torrejano era irmão da conhecida escritora Maria Lamas.

Homem de grande simplicidade e nobreza de carácter – a que aliava uma rara inteligência -, Vassalo e Silva ingressou no ensino superior, no ramo das ciências exactas, tendo frequentado Matemática e Engenharia. Já integrado na carreira militar, completa o curso de Engenharia.

Face às qualidades atrás referidas, foi com enorme naturalidade que o ilustre torrejano granjeou vários louvores e distinções no exercício da sua profissão (o município de Torres Novas, deve-lhe a construção da capela do Carreiro de Areia). Entre eles, destaca-se a sua indigitação para o cargo de Governador-Geral do Estado Português da Índia, a 2 de Dezembro de 1958.

No dia 30 do referido mês, chega à Índia portuguesa o seu último governador colonial. A tomada de posse de Vassalo e Silva ocorreu, nessa tarde, no Palácio de Hidalcão, em Pangim. Mas, só a 9 de Janeiro do ano seguinte, é-lhe entregue, na Basílica do Bom Jesus, da Velha cidade de Goa, o bastão de S. Francisco de Xavier. Acto espiritual inerente ao exercício das funções governativas.

No espírito dos indianos e, também, dos portugueses, havia a crença de que o santo jesuíta concedera ao Vice-Rei, Francisco de Távora, o milagre da defesa de Goa. A partir do tempo do conde de Alvor, esta cerimónia tinha como finalidade obter a protecção do patrono das Índias.

O início do seu mandato foi marcado pelo arranque de profundas transformações a nível económico, cultural e financeiro no território indiano. Uma gigantesca obra realizada nos diversos sectores sociais, processou-se ao longo do tempo em que o ilustre torrejano esteve à frente dos destinos da Índia Portuguesa (1958-1961). O enorme prestígio alcançado durante o seu governo, ainda é hoje recordado pelos habitantes locais.

As obras realizadas por Vassalo e Silva são assinaláveis. Na esfera educativa regista-se a atribuição de prémios escolares e bolsas aos estudantes. A criação de novas bibliotecas e o fomento da leitura e do livro português. O ilustre torrejano é responsável pela construção de inúmeras escolas e cantinas espalhadas por várias localidades da Índia portuguesa. A 23 de Dezembro de 1959, inaugurou em Margão, o Parque Infantil Agâ Khan. Incentivou, também, o intercâmbio cultural entre os portugueses da metrópole e os residentes no estado indiano. Uma espécie de Erasmus e Comenius para as comunidades lusas.

Na indústria, agricultura e comércio registaram-se enormes progressos e incentivos. Destacamos: a abolição da portagem na ponte Assolnã a 11 de Julho de 1959 (“Início da Jornada”, Imprensa Nacional, Goa, 1959, pág.193); promulgação do Despacho onde eram impostas ordens no sentido de tornar mais rápido o transporte do minério para os navios ou para o cais; melhoria da irrigação das áreas orizícolas do canal de Parodá; reforço, consolidação e alteamento de valados; atribuição de prémios para os melhores agricultores na Câmara Municipal de Pondá; chegada de especialistas com o intuito de estudar o desenvolvimento da indústria de pesca de Goa (19 de Abril de 1960); inauguração dos estaleiros navais na mesma cidade; financiamento dos machins de Damão e Dio na sua actividade piscatória; instalação de redes telefónicas automáticas; remodelação das redes telegráficas, etc.

Nos transportes aéreos verificou-se a abertura de novos destinos. Em Abril de 1960, o avião dos TAIP faz a sua primeira viagem de Goa a Lourenço Marques, Moçambique. Para, em Abril, se concretizar a linha regular aérea dos TAIP que estabelece a ligação entre as duas cidades ultramarinas. A forte aposta neste sector levou ao crescimento do número de visitantes estrangeiros.

Por ordem de Vassalo e Silva procedeu-se à reparação e melhoramento das redes de viação do Estado da Índia. Algumas dezenas de quilómetros de estradas beneficiaram de uma nova camada de asfalto. Outras vias receberam um tapete de asfalto que substitui os pavimentos de macadame.

Também os serviços de saúde tiveram uma forte modernização. Possibilitando um maior auxílio sanitário às populações carenciadas. Como é salientado no segundo livro acerca da governação do ilustre torrejano (“A Jornada Continua”, Imprensa Nacional, Goa, 1960), uma das grandes preocupações de Vassalo e Silva incidia sobre o desenvolvimento da assistência médica. Para o efeito exarou um despacho em que afirmava o seguinte: “ Façam-se as aquisições indispensáveis ao andamento normal de serviços… sem a mais pequena quebra na assistência aos doentes que deve estar em primeiro lugar nas nossas preocupações” (op. cit., pág. 260). Deu ordem para que fossem criadas redes de abastecimento de água nas localidades onde faltava.

O ilustre torrejano procurou preservar o legado histórico português em solo indiano, restaurando os velhos monumentos. O seu dinâmico empenho na governação da Índia portuguesa valeu-lhe a promoção a general pelo Conselho de Ministros, em Lisboa, a 14 de Junho de 1960.

Mas no dia 18 de Dezembro de 1961, dá-se a invasão do Estado Português da Índia por parte do exército da União Indiana. A tomada da posse da denominada Roma do Oriente poderia ter redundado numa autêntica carnificina, se o general Vassalo e Silva obedecesse cegamente às ordens de Salazar. O ditador não aceitava a sua rendição, mesmo sabendo que a União Indiana contava com uma força de 50. 000 homens, dispondo do mais moderno material de guerra, contra um número de portugueses que não excedia os 3.500. Com a agravante de estarem deficientemente armados e municiados. A indolência do governo da metrópole e os seus vários equívocos (como o caso anedótico do episódio dos chouriços), colocaram o general num beco sem saída. Perante este quadro, dificilmente poderia acatar a imposição do ditador.

As mensagens de Salazar, expedidas em cifra, “foram levadas a Paris pelos Serviços Secretos da União Indiana e aí mostradas a alguém que mandou tirar algumas cópias”. Uma folha, posta clandestinamente em circulação no país, dava conta da ignominiosa ordem do presidente do concelho. Expedida a 14 de Dezembro, altura em que estava iminente a invasão da União Indiana.

Na parte final do comunicado, Salazar faz a seguinte admoestação ao general Vassalo e Silva: “ NÃO PREVEJO POSSIBILIDADES DE TRÉGUAS NEM PRISIONEIROS PORTUGUESES COMO NÃO HAVERÁ NAVIOS RENDIDOS, POIS SINTO QUE APENAS PODE HAVER SOLDADOS E MARINHEIROS VITORIOSOS OU MORTOS”.

Recusando-se a pactuar com um sacrifício inútil, que redundaria numa atroz chacina, Vassalo e Silva decidiu render-se no dia 19 de Dezembro de 1961. Num verdadeiro gesto de patriotismo, salvando a vida dos portugueses que se encontravam sob o seu comando. Um acto heróico, muitas vezes, equivocamente confundido com cobardia (depois da derrota, Vassalo e Silva, passou por um longo calvário, sendo reabilitado após o 25 de Abril). Ao defender a vida dos seus subordinados, a acção do general foi grandiosa. Herói é aquele que na guerra minimiza o número de mortos dos seus companheiros de batalha. Obrigá-los a seguirem uma ordem cega, que levaria a um desnecessário morticínio, reduz o líder a um mero assassino, atacado por uma crueldade demencial.

Com o ilustre torrejano terminava a nossa presença colonialista nestas distantes paragens do continente europeu. Sem que desaparecesse um vasto legado histórico e cultural, construído ao longo de mais de quatrocentos anos de ocupação portuguesa.

Um património que muitos indianos, nos dias de hoje, tentam compreender e preservar. Numa postura que contraria a posição extremista do citado vereador. Que gostaria de refazer a História de acordo com o seu oportunismo ideológico.

Texto escrito com a antiga ortografia

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